Crítica | Anistia 79 (2026)

Ferida aberta.

 
 

Lembrar para não esquecer, para nunca mais acontecer.


O documentário Anistia 79, dirigido por Anita Leandro e distribuído pela Embaúba Filmes, retrata a Conferência Internacional pela Anistia no Brasil, que aconteceu em Roma no ano de 1979. O longa-metragem recupera imagens da conferência registradas em 16 mm por exilados brasileiros, que ficaram guardadas em um porão em Paris por quase meio século. Tanto o áudio quanto o vídeo desse encontro estão cristalinos, o que agrega na imersão e no reconhecimento de figuras centrais para essa conquista.

Nos primeiros minutos do filme, é apresentada a filmagem do testemunho de Denise Crispim. Dado seu estado emocional, ela pede para que outra pessoa o leia. O texto descreve as torturas que sofreu ainda grávida, além do assassinato de seu marido, Eduardo Leite, o Bacuri. Em seu relato, ela detalha o estado do corpo do seu marido ao ser chamada para reconhecê-lo, o que considero uma das partes mais viscerais do longa; Denise só conseguiu identificar Bacuri pelo seu olho e por uma cicatriz em sua mão. Outra imagem marcante é a de Denise e sua filha, Eduarda, ainda criança, no caminho para a Conferência - ela vestindo uma camiseta escrito “Anistia!”, e a menina, muito sorridente, ao seu lado. Uma das convidadas, Branca Moreira Alves, diz que, quando perguntada se sabia o que era anistia, Eduarda dizia: é voltar para o Brasil.

O longa não possui como temática central a anistia em si, mas sim a emoção do reencontro dos entrevistados com as imagens do passado. Nele, os onze convidados têm a oportunidade de rever eles mesmos, conhecidos, parentes e colegas no evento que ficou marcado como o maior encontro da esquerda brasileira no exterior, comentando e complementando as filmagens oficiais com seus depoimentos. Em determinados momentos, nos é apresentado, no meio da tela, um trecho da gravação de 1979, enquanto, ao mesmo tempo, é mostrada a reação dos convidados aos lados. Em outros, são exibidos, por exemplo, os discursos que foram feitos durante a Conferência, como o de Carmela Pezzuti, que, para mim, foi um dos que se destacaram como mais fortes.

Em seguida, os convidados comentam as imagens; no caso da fala de Carmela, dão não só seus pareceres sobre o discurso em si, mas refletem sobre o que ela e sua família significaram em suas vidas e em suas lutas. E é exatamente isso que deixa o documentário muito sutil, mas sem perder sua densidade: o claro afeto que, mesmo em tempos de luta, ainda era nutrido entre essas pessoas. A riqueza mora na evidente comoção ao reviver esse capítulo, que embora doloroso, é necessário de ser relembrado, ainda mais em tempos tão turbulentos para a democracia brasileira. 

Em uma época em que é tão difícil cultivar alguma esperança - pelo menos para mim - é reconfortante ver aqueles sujeitos reunidos, com discursos tão fortes e significativos, que de fato fizeram a diferença. Outro aspecto interessante é a discussão acerca da dualidade da Lei da Anistia, principalmente sobre o sentimento quanto a essa contradição. A lei concedeu perdão aos perseguidos políticos, incluindo os exilados por se oporem ao regime, permitindo assim que voltassem ao país, porém, acabou beneficiando agentes do Estado acusados de tortura e assassinatos, os deixando impune. Tive a oportunidade, inclusive, de visitar o Memorial da Resistência, onde foi o DOPS, em São Paulo, um dia depois de assistir ao documentário. Apesar das linguagens diferentes, percebi alguns pontos em comum entre o longa e o memorial; tive a percepção de que eles, mesmo tratando de um tema extremamente sensível e pesado, não possuem a pretensão de necessariamente usar o sombrio, o chocante como fio condutor. Não acho que isso seria um problema, afinal, de sombrio e chocante não faltou nada na ditadura militar, mas achei interessante essa forma de abordagem, que, na minha concepção, foi inesperada. 

O documentário me envolveu do começo ao fim, mas o vi com outros olhos após assistir aos seus minutos finais. Neles, vemos a filmagem dos participantes da Conferência saindo do tribunal, e, logo em seguida, a câmera corta para Denise Crispim e Hamilton Lopes dos Santos, o responsável pelas filmagens originais de 1979, lado a lado. Vemos ela no começo do longa, jovem e com sua filha pequena, e agora, no final, já idosa, mas com um brilho nos olhos que fez com que todo o peso do filme me atingisse de uma vez. É difícil ser otimista nos dias de hoje, mas seu olhar me deu uma pontinha de fé na mudança, na melhora. A aparição dela foi o símbolo perfeito de uma conquista enorme e tão importante, que amarrou as pontas, na minha visão, perfeitamente. 

Anistia 79 chega aos cinemas no dia 20 de agosto, trazendo algo extremamente importante: a subjetividade. Até mesmo inconscientemente, às vezes acabamos por banalizar eventos históricos nesse quesito, no sentido de que, em alguns momentos, os lembramos como números; tempo, vidas, dinheiro ganho, dinheiro perdido. Com a ditadura militar brasileira não é diferente; muitos de nós nem chegaram a presenciá-la, o que deixa esse costume mais recorrente quando se trata desse período. Parece uma realidade distante, mas que, na verdade, é muito recente, ainda mais pensando na enorme ferida aberta que deixou. Então, quando paramos para ouvir relatos íntimos, profundos e viscerais, como os apresentados no documentário, temos a oportunidade de os analisarmos por um lado muito mais humano, menos “preto no branco”. E, como já dito, em tempos em que cresce cada vez mais o número de pessoas que acreditam que um regime como esse é o melhor para o nosso país, fica mais fundamental ainda reforçar a divulgação desses depoimentos. De fato, o Brasil ainda sofre com as cicatrizes deixadas pela ditadura, a violência, o silêncio, a impunidade, e esse é um desconforto que me acompanhou pelo longa de Anita.

Falar do passado é, inevitavelmente, falar do presente e do futuro ao mesmo tempo, e a mistura de filmagens da época com testemunhos atuais desempenha bem esse papel. A falta de memória suaviza, limpa, deixa para trás algo que não pode ser esquecido, e o documentário cumpre simples, linda e cruamente a função de refrescar essa lembrança.

Nina Checoli

Futura estudante de cinema que fica com as mesmas músicas na cabeça a semana inteira

Próximo
Próximo

Crítica | Akira (1988)