Crítica | Os Desajustados (1961)

OCASO DAS ESTRELAS

 
 

Último filme de Marilyn Monroe e Clark Gable é também prenúncio das mudanças em Hollywood


A modernidade não é um processo linear, e muito menos um processo balanceado. Pensemos naquele canto que é o mesmo desde a infância, com os mesmos prédios, talvez com o mesmo comércio, quiçá com as mesmas pessoas. Ou pensemos no interior, no litoral, em como uma viagem geográfica muitas vezes parece uma viagem temporal.

Nos domínios da teoria tampouco e quando pisamos no cinema a própria noção de modernidade parece se desintegrar em uma noção abstrata, utilizada sem amparo e/ou responsabilidade. Uns dirão que a modernidade do cinema acontece com a “violação do olhar” advinda de Hitchcock, outros dos planos longos de Renoir, Mizoguchi, Preminger, outros dos contatos com o realismo de Rossellini, outros com a Montagem Soviética. Se sairmos um pouco do cinema, o próprio cinema se torna resultado do projeto modernista da sociedade.

Chamar Os Desajustados, filme hollywoodiano de preto e branco tardio, de filme moderno pode parecer inadequado, ainda mais quando observamos quem são nossos jogadores e para onde estes vão: fogem da cidade, vão para o campo. Fogem da modernidade, vão para onde o tempo fica parado.


Começamos o filme com um divórcio. Não é necessariamente novidade em Hollywood, mas importa por quem está se divorciando: Marilyn Monroe, e sua já sedimentada, lapidada, talvez até desgastada figura, escultural e paradigmática em diferentes potências. Ela diz que precisa de um tempo para si, ela pretende se isolar, refletir. Algumas pintas que conhece em um bar dizem ter uma propriedade para vendê-la no campo, onde há calmaria e seu pátio é até onde o olhar atingir. Onde não corre o risco de cruzar com pessoas indesejadas em uma escadaria qualquer.

Ironicamente, os cômodos levemente abarrotados (de móveis e então de pessoas) exigem que as pessoas se ajeitem, cuidem para não se esbarrar, sentem perto demais umas das outras. A casa é apresentada em poucos planos: vamos do carro à porta, e então da porta à sala principal. O espaço parece sempre acoplado a seu uso pelos atores (um conceito, horas, moderno): em uma cena distinguida no filme, Monroe e seu novo companheiro (um Clark Gable que a própria chegava a achar que era seu pai na vida real) têm de improvisar um degrau para a porta da frente.

Posteriormente, após muitas coisas terem acontecido (entre elas um rodeio onde homens circulam Marilyn como abutres), a personagem de Marilyn corre deserto à dentro, sobrecarregada a ponto de romper com seu autocontrole, e começa a gritar com seus novos amigos. Estes, “trabalham” capturando animais selvagens e os vendendo no mercado negro, afinal, tudo é melhor do que “salário”. Marilyn, nesse ato físico de ir deserto a dentro, de se isolar do microcosmo de mundo que acontece ao seu redor (o ato realizado por seus novos amigos, que se julgam rebeldes com o novo sistema da sociedade, nada mais é do que uma ramificação, um resultado do modelo capitalista), propõe uma ruptura. Ou melhor, sua personagem apenas age de acordo com seus próprios princípios: angelical e inocente, ela é sensível à violência a um ponto extremo.

Isso, na diegese, mas um dos maiores erros do crítico é se ater à diegese como simulacro da posição do filme. É julgar que o que é mostrado é a posição artística do cinema, e não o como é mostrado. O que vemos durante o filme, grosso modo, é essa viagem que renega o presente. Personagens que recorrem ao imaginário do faroeste americano para fugirem de sua inevitável urbanização. Filme conservador? Ambíguo talvez seja um adjetivo mais adequado, pois o ato de fugir, o ato de resistir, não ignora o ato de reconhecer. Assim, Huston denota o modernismo social e cinematográfico a partir de uma imagética conservadora. Um filme, portanto, que existe em dialética com suas próprias imagens.

Talvez por isso o final seja tão frustrante. Além da diferença de idade com selo Hollywood de qualidade, uma personagem que se torna libertação escolhe algo que não precisaria verbalizar. São os dois e o céu noturno, as palavras soam como verborragia.

Mas Huston não poderia saber que seria o último filme de suas duas estrelas, mesmo que algo em seus respectivos olhares sugerisse que seu brilho já estivesse o mais próximo possível da ebulição (o cinema americano, afinal, estava prestes a passar por uma grande revolução). E assim, uma personagem feminina, que representa um imaginário americano já antiquado da “mulher ideal”, escolhe pelo próprio futuro na primeira e na última cena do filme. Com a vida, ela consegue lidar. Com a morte não. Triste ironia.

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