Crítica | Nunca fui santa (1956)

felizes para sempre?

 
 

Uma comédia romântica, mas sem a graça…e sem o romance


Preciso confessar que não foi fácil assistir Nunca fui santa (1956), filme de Joshua Logan, até o final. Talvez pela minha repulsa aos estereótipos estadunidenses apresentados logo de cara, talvez pelo enredo que, mesmo com o recorte da época, é extremamente machista. A história, descrita tanto como comédia quanto romance, envelheceu como leite. 

Bo, interpretado por Don Murray, é, sem dúvidas, o personagem principal e apresenta todos os estereótipos de caipira, apesar da pinta de galã. O personagem é retratado como um bobalhão, sem modos, que vai pela primeira vez à cidade grande (nem tão grande assim) para participar de um rodeio, e vislumbra conhecer uma mulher que será, segundo ele, “seu anjo”. Já no início o personagem se mostra um grandíssimo JECA, desrespeitando inclusive seu amigo, Virge e demonstrando pouca ou nenhuma habilidade social, principalmente com mulheres. 

A atração mais esperada do filme, Marilyn Monroe, aqui interpretando Cherie, só aparece depois, já na cidade, quase como uma coadjuvante na trama, já que seu papel ali parece ser apenas encantar os homens. Atuando como uma dançarina em um bar de quinta categoria, no qual seus shows e talentos são sempre ignorados em detrimento do seu corpo, da sua beleza e, principalmente, do fato de ser uma mulher. Isso leva Cherie a sofrer uma série de humilhações tanto de chefes quanto de clientes, mas sem desistir de seu sonho de ir morar em Los Angeles e se tornar uma grande cantora. Porém o caipira tinha outros planos. 

A cena em que os dois se encontram pela primeira vez é, talvez, uma das mais interessantes do filme, onde Bo, com seu jeito bruto, faz com que todos os homens do bar parem para ouvir Cheri cantar. Ela, por sua vez, sobe ao palco deslumbrante, como não poderia ser diferente com Marilyn Monroe. Trajando uma roupa remetendo à sereia e com efeitos de luz vermelha produzidos por ela mesma, o espetáculo impressionou o caipira, que seguiu apaixonado. A cena, no entanto, não revelou nenhuma paixão mútua ou qualquer sinal de reciprocidade entre os dois, já dando indícios de que o filme não teria um tom tão romântico assim. 

O que se segue a seguir são cenas de perseguição: após decretar que ela se casaria com ele, passa a invadir sua privacidade inúmeras vezes, adentrar seu quarto e impedi-lá de trabalhar. Na cena mais grotesca do filme, Cherie é literalmente  laçada por Bo, tal qual um dos animais do rodeio. Aliás, a comparação foi feita diversas vezes pelo personagem. Cherie, mesmo decidida a não se casar, segue submissa e sem impor suas vontades, valores importantes para as mulheres na época. Chega a ser irritante o quanto a personagem faz pouco ou quase nada para se livrar da situação que ela mesma reconhece como sequestro, praticamente aceitando um destino que nunca desejou. 

Para intervir na situação, foi necessário o reforço masculino. O amigo de Bo e o motorista que levava “os pombinhos”, dessa vez juntos, precisam partir para a violência para salvar a pobre donzela, tão burrinha, frágil e indefesa. Após jurar que havia desistido de atazanar Cherie e disposto a pedir perdão, os dois tem uma aproximação e com uma simples frase o cenário todo muda. Ao dizer que aceitaria Cherie da forma que ela era, sem preconceito com seu passado, a cantora cai de amores pelo caipira e decide, agora por livre e espontânea - pressão- vontade casa-se com Bo. E eles viveram felizes para sempre? O filme não se aprofunda nem na construção de uma história de amor de fato - sem assédios ou abusos - e muito menos em um pós, explorando a relação.

Claro que é preciso considerar que se trata de um filme de 1956. Outros tempos, com outra mentalidade e valores, principalmente nos Estados Unidos, que vivia um pós-guerra e reforçava sua posição de uma superpotência econômica e cultural. No fim das contas, os personagens retratam a família “perfeita”, a la American way of life, com um homem provedor e forte e uma mulher submissa, recatada e do lar, mesmo que para isso precisem passar por cima e esconder os defeitos e passados de ambos. 

Me parece impossível categorizar este filme como um romance, já que passou bem longe de amor e paixão. Como comédia, tampouco se encaixa, visto que para ser considerado uma sátira e criticar os absurdos retratados, precisaria ser muito mais escrachado. Enfim, apesar das boas atuações indicadas a prêmios como Oscar e Globo de Ouro e da presença ilustre de Marilyn, o filme claramente se propõe a passar uma mensagem. E ela só agrada aos homens.

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