Crítica | Toy Story 5 (2026)
Anarquismo xuxa-style.
O quinto filme da franquia é um ensaio do lado certo da história; que seria melhor, não fosse um ensaio do tamanho de um post-it.
Para começar, vamos tirar dois elefantes da sala. Primeiramente: apesar de muitas franquias serem ruins, o fato de um filme fazer parte de uma delas não o torna automaticamente ruim, ou seja, não entrei nessa cabine de imprensa pronto para detestá-lo apenas por se tratar do quinto longa do universo Toy Story; e além disso, precisamos assimilar que a Pixar de hoje não apenas é completamente diferente daquela dos anos 90, como o mundo onde ela está inserida, e compará-las é impossível.
Esta última ressalva que faço é especialmente importante quando analisamos a filmografia do estúdio nos últimos anos. As produções que vinham a cada dois anos ou no máximo uma vez por ano até 2010 tornaram-se mais frequentes, e menos conectadas com o espírito do tempo de maneira geral. Soul (2020) é o exemplo mais recente que me vem à mente quando tento recordar o último filme da Pixar que gerou uma conversa, seja pela pauta central ou pela inventividade visual.
Na era do 3D hiperrealista, estilo é crucial para uma animação. Deixou de ser, já faz algum tempo, sobre quão fiel será sua reprodução da realidade, e sim sobre como você usa essa liberdade e poderio técnico para construir uma narrativa cinematográfica interessante.
Neste primeiro ponto, Toy Story 5 não fede nem cheira. Reproduz o que já foi feito nos outros filmes da franquia, mantem as mesmas cores e texturas absurdamente precisas que já impressionaram em Toy Story 4 (2019) e, salvo por duas ou três sequências que brincam com estilos diferentes de animação, trazendo um look 2D ou mais orgânico, não espera nada remotamente próximo ao brilho de produções como Spider-Man: Across the Spider-Verse (2023).
O filme me convenceu a assistí-lo por uma razão somente, que é a premissa apresentada já na sinopse: nossa querida Bonnie ganha um tablet e deixa seus brinquedos de lado. O tablet, por sua vez, é retratado como o vilão.
Isso me levou à ensurdecedora pergunta: será possível que um dos carros-chefe de faturamento de uma das maiores produtoras de cinema do mundo, dona de conglomerados da indústria que se beneficiam diretamente do sucesso de eletrônicos, tablets e de toda e qualquer plataforma viciante onde seus serviços de streaming possam ser instalados teria a coragem de responder ao dilema proposto pela premissa do filme com qualquer resolução diferente de “há um lugar para os brinquedos e para os aparelhos, com equilíbrio, tudo fica bem” ?
A resposta curta: lógico que não.
A resposta longa: isso não aniquila os méritos do filme por completo, é maravilhoso ver, finalmente, Jessie liderando a história, com mais profundidade e espaço para o desenvolvimento da personagem, assim como há algumas piadas genuinamente boas. Mas há certos dispositivos narrativos tão gratuitos que chegam a incomodar (destaque para a trupe Lightyear que deve ter alguma conexão com o filme de 2022, mas se for o caso, eu prefiro nem saber); assim como a superficialidade da resolução dos conflitos.
Em suma, Toy Story 5 sabe o que quer dizer, tenta dizer, e, talvez, para uma parcela do público razoavelmente pouco letrada nas importantes discussões sobre os malefícios da tecnologia na infância, possa levantar reflexões positivas e benéficas. Porém, para qualquer um que não esteja vivendo sob uma pedra, se leva muito, muito pouco do filme.
Mas preciso dar o crédito onde ele é devido (alerta de mini-spoiler): quando o tablet percebe o mal que ele está fazendo e decide se jogar no lixo por conta própria? Brilhante.