Crítica | Olivia Rodrigo - you seem pretty sad for a girl so in love

Uma relação gasta.

 
 

O pior álbum de Olivia Rodrigo até agora, por mais contra intuitivo que soe, possui algumas das melhores canções de sua carreira.


O conceito de álbum nunca foi tão vasto. O que é um álbum? Uma porção de músicas? Uma ideia? Uma obra? Longe de mim a prepotência de arriscar lançar-me ao árduo trabalho de Aurélio para cravar uma definição, mas posso falar do que me agrada: um álbum não precisa ser conceitual, não precisa ter uma narrativa, não precisa seguir uma ordem cronológica… Assim como pode fazer todas essas coisas. Não acho quem um bom disco precise de muitas regras para ser um bom disco. Mas, quando o artista se propõe a seguir alguma linha… Eu gosto que ela seja seguida.

O terceiro trabalho de Olivia Rodrigo, you seem pretty sad for a girl so in love, tenta fazer tudo isso. E, assim como a relação que é dissecada ao longo do álbum, a própria tentativa dessa construção acaba da mesma forma: dissecada, revirada, gasta. Olivia parece ter tentado construir tudo de forma muito fidedigna, tão linear, que sacrifica, para colocar de forma polida, a margem de erro que enriquece uma obra de arte. Espaço para interpretar, para discutir, para aprofundar. O Lado A é o apaixonar-se, o Lado B é o desapaixonar-se, conhece o cara, ama, termina, supera, relembra, segue a vida. O conceito não é o problema, meu único incômodo é que ele acaba soando como uma aula introdutória à ideia de um álbum conceitual. Entretanto (!), no âmbito musical, carece da coesão que seria, no mínimo, agradável nessa missão de tornar o disco super “fechadinho”: expectations e stupid song soam como singles de outro trabalho no meio dessa tracklist que, de resto, oscila muito bem entre baladas e hits pop-rock que referenciam de forma honrosa os melhores atos dos anos 80 e 90.


Dito isso: algumas de minhas composições e performances favoritas de Olivia estão nesse álbum. purple; the cure; less; begged; what’s wrong with me. Diversas facetas pegam a caneta aqui; descobri, nesse processo, que gosto quase tanto da Olivia triste quanto gosto da Olivia braba e irritada (minha eterna favorita, aquela que me representa na assembleia dos karaokês, threads do Twitter e, se tudo der certo, dos céus). A versão triste da artista, contudo, faz melhor aqui o que ensaiava em ótimas faixas como favorite crime e making the bed. A dor de coração é muito expressiva, é descritiva sem ser cafona, o que é sempre um desafio. Destaque para a notável (e apreciada!) referência às irmãs Staves em cigarette smoke, que poderia muito bem ser uma faixa bônus de If I Was (2014).

Justamente por isso, pela verdade e pela consistência dos temas explorados, numa dinâmica tão introspectiva (seja no desabafo do amor, ou da dor), que faixas como my way e, novamente, expectations, soam tão profundamente deslocadas nessa tracklist. Precisava mesmo de uma diss track para a ex do boy nesse disco? Essa é uma adição verdadeiramente positiva no todo? Precisava mesmo de uma faixa que é, sem tirar nem por, o que poderia a versão hétero de um hit da Chappell Roan?

Os melhores momentos de you seem pretty sad for a girl so in love são realmente brilhantes, e são os momentos onde Olivia parece menos presa à ideia de ser cronológica e milimetricamente diarística na construção do álbum. E, para mim, eles são mais do que suficientes para retornar a uma porção de faixas com muita alegria.

Que no próximo disco, a artista siga em contato com essa compositora fantástica que vem se apresentando cada vez melhor, especialmente quando atende às suas reflexões mais adultas, menos adolescentes - sejam elas enérgicas, introspectivas, ou 100% noiadas.

Amanda Machado

Analisadora over-pensadora daquilo que mais amo no mundo. Eterna estudante do cinema. Natural de Manaus, vivendo em Lapinha da Serra. Early bird.

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