Crítica | Backrooms (2026)
Um não-lugar.
A estreia de Kane Parsons nas telonas do cinema tem muito mais a se apreciar do que a se criticar.
A primeira vez que ouvi falar de “backrooms” foi por meus filhos. Ambos podem ser definidos naquela famosa jurisprudência, se auto-intitulam como “cronicamente online”, apesar dos esforços meus e da patroa para controlar de forma saudável o tempo de tela desde que nasceram. Não se engane, nosso esforço é, de modo geral, bem sucedido! Mas ao que se nota esse termo quer dizer, de forma mais pé-no-chão, “estar por dentro”.
Faz uns três ou quatro anos que o conceito de “NO CLIP” (que demorei uns bons tempos para captar) me foi apresentado, na mesma época em que a TV da sala era recheada, noite após noite, de vídeos compilando “espaços liminares”.
No meio dos tantos males da internet, essa possibilidade de construções coletivas, de histórias, narrativas, universos, é um dos pontos de luz dos quais eu mais gosto, e mais me afeiçoei com o tempo. Talvez por ter pego, ainda no início da vida adulta, a magia de descobrir um novo mundo ligando meu monitor Itautec quando chegava cansado em casa da UFMG.
Décadas depois, e assistimos aos primeiros cineastas cuja carreira começou no YouTube.
Fascinante.
Kane Parsons é o nome verdadeiro do garoto de 21 anos que criou o canal Kane Pixels, onde desenrolou uma série audiovisual baseada na história dos “backrooms” (quartos dos fundos) que tomou a internet em algum momento, quando uma foto muito misteriosa apareceu em um fórum. De lá para cá, com muitos outros canais gerando conteúdo, essa história dos backrooms ganhou infinitos desdobramentos, conteúdo pra todo gosto.
Mas o trabalho de Kane Parsons tinha algo diferente. Dos vídeos que vi antes de ver o filme, é nítida a intenção de criar algo maior do que apenas a estética. Há uma inquietação. Um senso do terrível, do ansiogênico, da constante ameaça daquele que é o maior vilão e fantasma da nova geração… o tédio. O ar parado.
Essa virtude do trabalho levou à oportunidade de produzir um longa-metragem junto à grande produtora independente A24 Films, que lança, com direção de Kane, “Backrooms" (2026). A pergunta é retumbante: o jovem talento conseguirá levar para um filme de 110 minutos a tensão dos vídeos na internet? Conseguirá, também, desdobrar esse conceito que funciona bem para vídeos curtos em um filme que pare em pé, ou ele vai ser como as criaturas horrorosas desse universo, bambas e cambaleantes para todo lado?
De modo geral, pode-se dizer que sim. Para quem nunca ouviu falar de “backrooms”, o filme introduz a ideia de modo muito engajante, vende o mistério, e submerge o espectador apostando no cinema, na imagem, e não em um roteiro pitoresco e explicativo. Só isso já seria uma grande vitória para os tempos modernos! Grata surpresa, não para por aí: Parsons sabe dirigir o universo que criou com excelência, e a inventividade de cenários, situações, o uso de diferentes câmeras (especialmente a que faz o found-footage) onde faz sentido para o filme, tudo isso joga muito à favor do filme.
É justamente quando ele tenta fazer demais, inserir mais complexidade no roteiro, que ele se perde. Talvez para dar uma margem maior à possíveis continuações, desdobrar o longa em uma franquia de terror? Muito provável que sim. Mas a inegável verdade é que essa decisão mercadológica, em busca de futuro, sacrifica o presente. A segunda metade de “Backrooms” inventa demais, tenta adicionar camadas para aparentar uma temática mais séria, foca nas coisas erradas. O universo é a parte mais interessante, e permite que histórias simples virem cinema muito bom. Poucos universos tem isso a oferecer! O melhor é aproveitar, e não sobrecarregar algo que já está rodando bem.
Apesar disso, o filme tem seu valor. Para quem não conhece nada sobre, deve ser uma experiência e tanto; para quem já está familiarizado, é a oportunidade de ver esse mundo sob outra lente, muito mais interessante. Se Kane Parsons e companhia ouvirem da melhor forma às críticas, têm oportunidade de ainda realizar um grande filme: seja nos backrooms, ou em qualquer outro cômodo!