Crítica | Primavera (2026)
Faltou ímpeto
Ideias sobre vida, liberdade, arte e muitos temas esbarram na falta de reflexão.
É mais ou menos na metade de Primavera que a protagonista Cecilia dá aulas de piano para uma duquesa, que estuda música para impressionar a aristocracia depois dos jantares, e diz que ela precisa tocar com mais ímpeto. Essa fala chama atenção em um filme que conta uma história de Vivaldi como contaria a de qualquer estrela pop dos últimos anos. O filme de Damiano Michieletto (que é diretor de ópera) é mais um desses, tão comuns recentemente, que trazem meia dúzia de opiniões mal formadas sobre o mundo e se omitem de refletir sobre si mesmos.
Cecilia, a protagonista, é uma órfã que cresceu em um convento junto com outras meninas como ela. Elas passam a vida inteira sendo treinadas na música erudita até que um dia um homem rico pague o seu dote. Ela, que é violinista, tem um sério problema com autoridade. A ponto de o diretor nos mostrar isso três vezes seguidas na abertura do filme: na primeira cena a diretora do orfanato mata filhotes de gato, na segunda Cecilia fala em off com sua mãe que a abandonou e na terceira conhecemos o maestro mal humorado e desinspirado que conduz as meninas. Primavera é para ser a história de Cecilia se rebelando contra essa autoridade e se tornando livre.
Nitidamente o diretor não dedicou muito tempo para refletir sobre seu filme. Porque nenhuma autoridade oprime mais a jovem órfã do que a câmera de um diretor pouco hábil que se deleita em mostrar suas agruras e se furta de filmar suas alegrias. Quando ela é brutalmente agredida pelo homem a quem ela recusa o casamento, Michieletto filma cada segundo da violência e da brutalidade. Agora, quando ela brinca com seu violino com crianças em um campo sob a luz dourada do sol vemos Cecilia de longe, usando uma máscara e na perspectiva de Vivaldi.
A relação toda de Primavera com a música é, no mínimo, esquisita. Comecei o texto falando de uma cena em que o amor honesto pela arte de Cecilia é contrastado com a tal falta de ímpeto de uma duquesa. Essa também é uma questão que envolve outro personagem importante: Vivaldi. O famoso compositor se torna regente da orquestra de órfãs recebendo um pequeno salário, uma vez que ele não tem outro espaço para exercer sua paixão. Mais de uma vez Cecilia nos conta (em off) que Veneza é regida pelo dinheiro: é o que vai tirar ela do orfanato, é o que a mãe dela não tinha, é o que Vivaldi precisa e é o que os bufões sem talento da aristocracia esbanjam.
Mais uma vez preciso destacar a falta de reflexão em Primavera. Um filme de época, com centenas de figurinos e figurantes, com belíssimas locações na cidade de Veneza e cenas que usam dezenas de instrumentos eruditos é afetado pela falta de dinheiro? Pior, um filme que usa temas de Antonio Vivaldi como se fossem músicas de um comercial de tv, picotadas e escondidas sobre vozes e sons, tem qual autoridade para discursar sobre amor a música? Ironicamente falta ímpeto a Primavera para contar uma história sobre liberdade e sobre amor a arte, o que vemos é um filme que sequer sabe o que é.