Crítica | Videodrome (1983)

A nova carne nunca foi sobre o futuro

 
 

Há quem veja Videodrome como um filme profético, uma obra que antecipou a internet, a deep web e as redes sociais. Eu não acho que seja exatamente isso.


Cronenberg não prevê o futuro, ele identifica um potencial da tecnologia que inevitavelmente seria explorado. Seu interesse nunca foi a televisão em si, mas a forma como toda tecnologia acaba transformando o corpo e o desejo de quem a consome.

Uma das obsessões mais visíveis do diretor sempre tratou da relação entre o corpo e os objetos. Em Crash, são os automóveis. Em Crimes do Futuro, a própria evolução do organismo. Em Videodrome, o objeto é a televisão. Mais do que um aparelho, ela se torna uma extensão do corpo, se fundindo lentamente até se tornarem um só: THE NEW FLESH.

Consigo entender facilmente os porquês que tornam Videodrome um clássico aclamado até hoje. É um filme muito atual em termos de fatores que constroem o enredo. Talvez seja injusto comparar, mas é inevitável: quem chega em Videodrome vindo de Crash ou Crimes do Futuro carrega uma expectativa de cinza, de frieza clínica. E ali algo destoa - uma sensação de estranheza total às cores e opções de figurino, com muitos cortes diferentes e estampas. Acostumado com um Cronenberg mais cinzento, Videodrome é um filme colorido. Por vezes, uma obra do Cronenberg que não foi filmado pelo Cronenberg. É uma inconsistência que incomoda, mas talvez seja a única forma honesta de filmar um história sobre perder o controle.

Existe também um debate moral muito interessante em torno de Max Renn. Até que ponto o conteúdo extremo que ele exibia era apenas entretenimento? Em que momento aquilo deixou de ser prazer e passou a ser horror? O protagonista percebe que cruzou um limite, mas nunca consegue localizar exatamente onde ele estava.

Cronenberg, como quase sempre, se recusa a moralizar esse encontro entre carne e objeto. "Vida longa à nova carne" não soa como um alerta, soa como uma saudação. O aspecto mais impressionante do filme não é a tecnologia, mas a lógica social que ela produz. Antes da globalização da tv (mídias digitais num geral) e da internet, pessoas com desejos, fetiches e interesses considerados desviantes ficavam isoladas ou encontravam poucas pessoas semelhantes. Depois desse fator, milhares de estranhos passaram a formar comunidades, e aquilo que antes era um desvio individual transforma-se em identidade compartilhada.

O canal Videodrome representa exatamente isso. Pessoas torturadas são transmitidas para espectadores que nunca vemos. Hoje fazemos exatamente a mesma pergunta diante de conteúdos extremos encontrados em fóruns obscuros, plataformas clandestinas ou comunidades fechadas. Não importa tanto quem produz, importa que sempre vai ter alguém procurando. Cronenberg percebeu que a tecnologia não cria novos desejos, ela apenas cria caminhos para que eles se encontrem.

Videodrome não é perfeito, não é o Cronenberg mais bem filmado, mas talvez seja um dos mais necessários. É fascinante pensar que em 1983 ele lançou essa bomba. Dentre todas as perguntas e devaneios que tenho ao assistir esse filme, tem uma que nunca muda, que nunca deixou de se passar pela minha cabeça: quem está assistindo?

Denzel Porto Barcelos

Estudante de moda, viciado em colecionar mídias físicas e cacarecos at all. Sou fascinado pelas emoçoes humanas e tudo que podemos criar a partir delas e talvez o maior fã de Trainspotting no mundo (inserir monólogo final do Mark Renton).

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