Cachorro Grande @ Araújo Vianna - 24/07

Túnel do tempo

foto por Milena Alfama

 Serenata de pequenos gatos vira-lata embriagados, desafinados, vagando pela noite com seus instrumentos, varando as ruas até o amanhecer, antes de desaparecerem de volta para casa.


Tenho dois irmãos consideravelmente mais velhos do que eu, com quem convivo muito. São festeiros, gostam de beber, se divertir e encher a casa de amigos. A consequência disso foi ter sido exposto, desde muito cedo, a alguns hinos nacionais e regionais que ajudaram a moldar uma identidade musical geográfica muito específica. Nessas reuniões, um pouco mais sóbrio que eles, eu virava testemunha de canções que deixavam de ser canções e passavam a ser portais para a juventude de uma Porto Alegre que pulsava por artistas que não apenas falavam a mesma língua, mas também exatamente da mesma maneira (Se em alguma hora / O Sol bater e lhe dizer / Tu é um canalha / E se eu achar que eu sou / Lunático, que se dane) o engraçado gauchês.

A Cachorro Grande surge em um contexto histórico curioso. Nascida em 2001, no mesmo ano em que os Strokes lançavam seu disco de estreia (está na hora de admitir que Julian Casablancas já é um senhor idoso), a banda comemora agora os 25 anos daquele primeiro álbum autointitulado. O quebra-cabeça para fazer tudo funcionar exatamente como deveria - e como aconteceu - era difícil: virada do milênio e o grunge ainda vivia o luto pela morte de Kurt Cobain; o britpop sofria após o fim da rivalidade entre Oasis e Blur; e o pop comercial começava a dominar o mundo, embalado por rádios e programas cada vez menos autorais e mais reféns de fórmulas (mesmo que a MTV ainda respirasse sem aparelhos).

Dito tudo isso, há coisas que não se explicam, tampouco se compreendem por completo. Como uma banda que decidiu reviver gêneros “em declínio, se debruçando muito sobre melodias do rock sessentista (principalmente Beatles e Kinks) surgida em uma cidade com uma cena consolidada e diversos modelos pré-estabelecidos do que "funcionava", conseguiu dar certo? A resposta se torna exercício de especulação. Às vezes, caminhar na contramão acaba sendo mais elucidativo que parece. Por mais perigoso que seja, você passa a enxergar aquilo para o que a maioria está de costas.

Pista Livre, por exemplo, funciona como uma paródia clara dessa lógica, mas também como sua melhor síntese. Os ternos pretos, as motos e toda aquela estética em pleno 2005 soava tão deslocada que acabava se tornando autêntica de um jeito quase cômico. Mas o texto de hoje é sobre o show de outro disco.

O Araújo Vianna não estava tão movimentado quanto imaginávamos e, sinceramente, o show teria sido melhor acomodado no Opinião. A impressão era reforçada pelo envolvimento da plateia, que passou as duas horas de apresentação inteiramente de pé, e há boatos de que até pulando. Mas não há necessidade de discutir o local. Uma das maiores bandas da história desta cidade pedia seu maior palco.

A banda contou com três integrantes da formação clássica: Beto Bruno (voz), Marcelo Gross (guitarra) e Gabriel "Boizinho" Azambuja (bateria). Completando o quinteto, Eduardo Barreto (baixo) e Mari Kerber (teclados) pareciam tão à vontade no palco quanto se estivessem no quintal de casa. Ambos deram um verdadeiro espetáculo em seus respectivos instrumentos e ainda encontraram espaço para jams e improvisos que conectavam algumas das faixas. 

Tudo levava a crer que o show seguiria fielmente a ordem do disco, até Beto reclamar em tom irônico para Gross que eles estavam errando a sequência das músicas. Os dois pareciam jovens performando outra vez, assim como Gabriel, incansável atrás das baquetas. Além disso, quase quebrou seu Bumbo no meio do show.

foto por Milena Alfama

Tocar para um público que misturava fãs que os acompanham desde Os Doces Exóticos de Charlotte Grapewine com crianças cujo álbum comemorado já tem praticamente o triplo de suas idades parecia revigorá-los a cada transição. Esse encontro de gerações, além de acontecer nas festas da minha família e nas arquibancadas do Araújo Vianna, também subiu ao palco, quando o filho de Gabriel Azambuja foi chamado para cantar Cleptomaníaca de Corações.

Era essa magia que os fãs de Cachorro Grande estavam procurando e que jovens como nós nem sabíamos que ainda existia. A banda abriu um buraco de minhoca dentro do auditório, trazendo de volta uma época em que o rock parecia não ter envelhecido. O resultado disso foi uma ópera psicodélica no Bom Fim. 

Cercados por pessoas mais velhas e crianças descoladas, tivemos a sensação de entrar em um túnel do tempo onde fazer rock ainda é transgressor e, acima de tudo, ainda é divertido. Os instrumentos se quebrando, a taça de vinho erguida em meio ao caos no palco e o beijo entre os integrantes nos fizeram pensar em como seria esse show há 20 anos. E a única resposta que encontramos foi: exatamente igual.

Fotos por Milena Alfama

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