Crítica | Viridiana (1961)

O desespero

 
 

O Cinema e o seu diretor analisam seus sonhos passados e o estado do presente.


Um dos artistas mais importantes das vanguardas modernas europeias foi convidado a voltar ao seu país natal após 24 anos de exílio. Luis Buñuel retornava ao local do qual teve que fugir depois da derrota na Guerra Civil, onde viu seus companheiros executados por Franco (que ainda era o presidente), e de se consagrar no panteão do cinema pelas suas contribuições revolucionárias para a arte nos anos 1920. Nesse contexto contraditório, ele faz Viridiana, filme ultrajante e blasfemo sobre um mundo sem esperança, no qual qualquer expectativa de benevolência e redenção é abandonada.

Essa história - a de um homem que volta do exílio sem que a ditadura da qual era opositor sequer tivesse acabado - é uma sinopse tão boa quanto qualquer outra para Viridiana, um filme sobre uma devota que abandona o hábito poucos dias antes de confirmar seu matrimônio com Deus e que passa 90 minutos em tela convivendo com o pecado. Ela, mesmo após ver seu tio católico entregue à luxúria e depois ao suicídio, acredita que pode consertar o mundo com os recursos que herda dele. Sua expectativa é dar casa e comida para os moradores de rua da pequena vila onde fica a fazenda do tio. Como uma verdadeira católica, não tem preguiça da caridade e nem apego aos bens materiais.

Demonstrando exatamente o que se espera de um militante que volta para um país assombrado por uma ditadura fascista e católica, Buñuel reage a toda essa pureza de sua personagem com cinismo e ironia. A começar por seu entendimento que o próprio ato de fazer cinema é um ato de luxúria, especialmente ao representar a miséria e tristeza, ele se deleita em expor a falta de decência e a imoralidade. Mostra, em plano detalhe, o tio de Viridiana experimentando o sapato de sua falecida esposa e a crueldade sofrida pelo cachorro que anda amarrado à carroça. O diretor, mais do que nunca, sabe que não há mais espaço para a pureza na Espanha, no cinema e no mundo.

A famosa sequência de Viridiana, em que os miseráveis demonstram a mesma capacidade para o pecado e a brutalidade dos ricos, não passa de uma denúncia da farsa católica que comandava a Espanha. Ao rir da desgraça de Viridiana, Buñuel está rindo de si mesmo, por um dia ter tentado salvar o país e também do cinema moderno, especialmente do neorrealismo e suas pretensões transformadoras. Voltando à Espanha, o diretor leva na sua bagagem a desilusão e reencontra o desdém e a crítica tão marcantes no surrealismo. Essa é a sua maneira de passar para a pós-modernidade.

Anterior
Anterior

Crítica | The Strokes - Reality Awaits

Próximo
Próximo

Crítica | Videodrome (1983)