Crítica | The Strokes - Reality Awaits
Dance enquanto pode
Uma sequência excelente de hits muito bem executados com um final trágico no tecnoapocalipse de The Strokes.
Quando penso em The Strokes penso em uma banda de rock’n roll. E por mais que realmente seja uma banda rock’n roll no sentido irado da palavra, eles nunca se prenderam dentro das quatro paredes do gênero. Desde seu primeiro álbum é óbvia a vontade de dar ao seu rock de garagem nova iorquino uma atmosfera cada vez mais eletrônica e adepta ao seu tempo. Se seus primeiros quatro álbuns já construiram uma barreira entre a banda e o rótulo de meros garotos punks, então Comedown Machine (2013), The New Abnormal (2020) e Reality Awaits (2026) fizeram questão de mostrar que uma banda com os mesmos integrantes de sempre pode evoluir para outra completamente diferente sem perder sua essência.
A base simples de seu rock e os arranjos mais eletrônicos e ultraprocessados da banda sempre me soaram como uma maneira de suavizar as melodias quase épicas cantadas por Julian Casablancas. O épico é sensacional mas se torna fatigante em um contexto de pop rock. Nesse álbum em específico, o banho de autotune que o vocal recebeu ajuda a dar uma qualidade mais despreocupada a essa suavidade e acrescenta o elemento da surpresa em melodias que já são por sua própria estrutura imprevisíveis.
A primeira faixa, Psycho Shit, abre o álbum em uma ambiência sombria aliviada pelo tremelico do pedal chorus da guitarra e por notas de sintetizador que dão certa luz ao tema tão obscuro. Julian usa imagens quase pós-apocalípticas de placas neon, barcos afundados e bombas de chumbo para descrever o que na verdade é a nossa realidade atual. A distorção do instrumental vai escalando e tensionando até o ponto alto da faixa com o vocal agudo robótico. Após um momento de ruptura, tudo começa a voltar para o marco de origem.
Sem pausa alguma, Dine N´Dash, começa com um passo mais acelerado e dançante marcado pelo hi-hat, ainda que permaneça no ambiente sombrio da canção anterior. Essa é a faixa The Cure do álbum (registre-se que todo álbum tem uma faixa The Cure). Gosto do contraste entre o vocal grave das estrofes e a suavidade do refrão, ambos muito característicos do Julian, embora diferentes um do outro.
Considerando o resultado inquestionável de The New Abnormal, pode parecer bobagem, mas sinto maior confiança na estrutura das canções neste álbum atual em comparação com o anterior. Formatos mais claros, possibilidades de hits mais redondos e menos faladaria de estúdio entre as músicas me soam como sinais de uma banda mais segura e menos temerária em seus experimentos sônicos. Isso me parece óbvio nas quatro faixas seguintes, que são as mais propensas a serem hits divertidos para você dançar como se ninguém estivesse vendo.
Lonely in the Future é dançante em um nível que torna impossível não bater o pezinho, além de extremamente pegajosa e humorística em sua letra. Com certo tom de ironia, Julian coloca os Strokes como artistas ao mesmo tempo pioneiros e à frente de seu tempo – não só implacaram sua estética anos atrás, como se mantêm uma inspiração para a música atual. A ponte dessa canção talvez seja minha parte favorita do álbum: a bateria bagunçada cede espaço a um sintetizador estouradasso que junto ao vocal robótico chama de volta o refrão.
Em Falling out of Love nossos passos de dança se acalmam para se adaptar a uma bela balada de 6 minutos. Uma harmonia simples mas eficaz acompanha os imaginários de uma ilusão amorosa e o processo de se desapaixonar e cair na dura realidade: “Dancing in the acid rain alone with you”. Nos minutos finais da canção, ela se desintegra como o apaixonado sob a chuva ácida e seu som ganha um tom etéreo quase subaquático abordando o tema de maneira mais autocritica: “you’re being a child, no one wants to play”. Realmente a canção mais adorável do álbum.
Going to Babble On e Going Shopping me parecem canções gêmeas. Ambas mostram perfeitamente a coisa mais interessante desse álbum: a precisa sincronia entre os cinco integrantes. A banda parece mais unida do que nunca, todos muito bem agarradinhos em saborosa harmonia. Digo isso principalmente sobre a maneira como as guitarras se acertam com o vocal meloso do Julian. Em Going Shopping, essa união resulta na canção que mais soa como um hit da banda nos últimos anos. Tanto em letra quanto em estrutura, ela é extremamente pop e cativa de maneira única.
No entanto, as últimas três faixas fecham o álbum de uma maneira anêmica demais. Liar’s Remorse não tendo bateria nem direção se torna doída e maçante muito rapidamente. The Fruits of Conquest até se salva por recuperar o molejo infeccioso das canções anteriores, mas logo é amassada por Tyrants of the Mellow Moon que fecha o álbum como quem diz “você esperava que eu tivesse algo mais pra te dar, mas acaba aqui mesmo, até a próxima”. Ela não compõe o final que um álbum tão excêntrico como Reality Awaits merece e só me faz querer que realmente acabe. Não tem gostinho de quero mais ou uma explosão para acabar bem acabado mesmo. Só um fim frio e repentino que inclusive conseguiu me pôr para dormir e sonhar com um final mais apropriado.
Depois de ouvir algumas tantas vezes, o tão criticado autotune me parece ser peça fundamental do álbum. É injusto e mesquinho resumir um projeto rico como esse a seus experimentos com tal efeito. Quando retirado de seu contexto, o autotune pode soar estranho, sobretudo nas faixas mais lentas, mas como um todo é eficiente em compor um álbum cativante e com muita personalidade, além de casar lindamente com o ritmo das músicas mais animadas.
Como se percebe, tenho uma predileção maior pelos primeiros dois terços do álbum. As primeiras faixas magnetizam o ouvinte pouco a pouco, chamando para essa bizarrice toda que se prova maravilhosa quando o centro envolvente e dançante do álbum nos alcança. Este é, sem dúvida, um momento de alto nível da performance da banda. É uma pena que, considerando seu histórico, o próximo álbum vá sair só daqui a no mínimo cinco anos. Ficamos na ansiedade de ver os próximos passos dessa banda cada vez mais coesa em seus arranjos. Até lá, teremos de nos contentar em assistir as performances ao vivo pelo YouTube.