Crítica | El Mató a un Polícia Motorizado - El Mató a un Polícia Motorizado (2004)
O despontar da existência
O primeiro passo é o mais importante. Em seu disco de estréia, El Mató não surpreende, mas caminha com as próprias pernas.
"Oh! Que saudades que tenho
Da aurora da minha vida,
Da minha infância querida
Que os anos não trazem mais!"
Vinte quatros é uma idade já distante da infância (e a idade média dos integrantes da banda à época). Não, por isso, que somos menos pueris em relação a vida. O disco, autotintitulado, de estreia da banda argentina El Mató a un Polícia Motorizado carrega consigo o que aparecem letras guardadas desde a adolescência e que, no momento de seu lançamento em 2004, ganham um corpo ao qual não se está completamente adaptado.
Os elementos sonoros são da simplicidade de quem está se acostumando a lidar com um vocabulário, uma maneira de ser no mundo. Envergonhados ainda que plenamente qualificados, a mixagem crua, ao mesmo tempo que favorece uma estética do aprendizado, fica um pouco hesitante entre ser um disco de rock sujo de garagem e um pop rock despretensioso.
As três faixas inicias Sabado, Tormenta Roja e Nuestro Verano constroem a melhor imagem sobre o que é viver o tempo livre do início de vida adulta. Um romantismo exacerbado, a falta opaca de algo ou alguém, onde não se consegue findar.
"Y si te invito a jugar, me dirás que no
Me dirás que no
Y si te invito a dormir, me dirás que no
Me dirás que no"
O disco mantém um ritmo quase constante, que se não fosse por músicas como Escupíme, com sua cadência melancólica, e a raivosa Doctora Muerte, quase um antítese da música anterior, a monotonia tomaria conta. As letras curtas, com verso e refrão se alternando em repetições longas, aliada a baixa complexidade musical transforma o álbum em um exercício de resistência. Talvez um paralelo a vida de poucas expectativas de e aos que dias que, principalmente no início dos anos 2000, podiam ter seu tempo dobrado ou triplicado pelo tédio.
Depois da pouco cativante Rock Espacial, um respiro rompe o sufocamento do desinteresse. Terrorismo en la Copa del Mundo é uma canção que se sustenta no instrumental com dois versos que se repetem poucas vezes. Talvez individualmente não chame tanta atenção, mas no conjunto da obra é uma cola importante. Aqui, o contraste entre a sonoridade intensa e a letra (si vienen a buscarme, estoy dormida), também remete ao caos corre do lado de fora do mundo e ao ambiente confortável do quarto que é mencionado desde a música de abertura.
As duas canções finais Guitarra Comunista e Prenderte Fuego conseguem retomar ao encanto das músicas inicias do início do disco porém agora por uma via oposta. Se no princípio encontrávamos um pressuposto de imobilidade, aqui parece que a autoestima é finalmente conquistada:
"Nadie la merece, ¡no!
Ni yo que soy el mejor"
Desembocando na potencia destruidora de Prenderte Fuego, desvendando um caminho possível para a criação poética.
El Mató a un Polícia Motorizado não é um álbum que muda paradigmas. Começa confortável, como mais uma banda indie de sua época, e aos poucos vai apostando no movimento. Nem que seja apenas o vislumbrar de dentro do quarto, me parece um momento de despertar da banda. Ainda não chegaram no meu ápice, que virá alguns álbuns depois, mas criaram a coragem para caminhar em direção a ele.