Almir & gabriel sater @ Araújo Vianna - 01/08

Quanto tempo vive uma árvore?

Me senti diante de raízes que voltam muito antes de mim e que, por muito tempo, permanecerão aqui.


Almir Sater é um dos grandes da história da música brasileira. Um virtuosista da viola caipira - extensão de seu corpo e principal companheira de palco -, um apaixonado pelo pantanal mato-grossense e um poeta de vocabulário simples. O devaneio corriqueiro de largar tudo e partir para o campo, viver do pouco, do verde e do mundo ao redor, torna-se quase uma imposição durante a 1h30 de espetáculo. Minha irmã e colega neste dia ficou de pés descalços na metade da apresentação.

Quando ele e Gabriel, por exemplo, harmonizam a narração de Touro Mocho, os sorrisos tomam conta do Araújo Vianna não porque tudo o que é dito seja essencialmente engraçado, mas porque a imaginação se deixa conduzir por uma realidade belíssima e, talvez, quase morta maioria de nós, da cidade grande Porto Alegre: "Olho no horizonte, vejo o sol se pôr / Volto bem ligeiro pra beijar o meu amor / Logo no quintal, vem o cheiro bom / De fogão à lenha e panela de feijão."

Não quero parecer presunçoso, mas creio que era a pessoa mais jovem presente no auditório. Culpa do meu pai, que me apresentou Tocando em Frente ainda muito rapazinho e, com ela, ensinou que é preciso a chuva para florir. Os celulares naturalmente ergueram uma multitude da mesma imagem quando a melodia que antecede o primeiro verso começou a ser dedilhada por Gabriel. A grande banda sobre o palco, sabiamente, deu um passo para trás e cedeu ao público o privilégio de completar, em uníssono, aquilo que pai e filho guiavam.

Porém, por óbvio, esse momento ficou guardado para o fim do show. Antes dele, percorremos o longo caminho de Chalana, aproveitando cada curva do rio. Venha Me Ver nos reuniu em torno de uma fogueira para contemplar versos que aqueciam tanto quanto as chamas figurativas à nossa frente. O acordeão brilhou pela primeira vez - algo que se tornaria recorrente ao longo da apresentação - e os seis instrumentos de corda em cima do palco (se não me engano eram 4 violões, um contrabaixo e uma guitarra) transformaram a balada numa valsa e fizeram do Araújo Vianna um grande salão de baile, onde o maior inimigo dos casais se tornou a arquibancada fixada ao chão.

Pai e filho se alternavam no repertório, transitando entre a serenidade e o vigor que distinguem suas respectivas vozes. Conversaram bastante com o público entre uma canção e outra, demonstrando um carinho genuíno por Porto Alegre - algo que sempre valorizo quando vou a um show e que, a essa altura, já virou tema recorrente dos meus textos. Tornam-se um só em Paula e Bebeto, numa delicada interpretação do clássico de Milton Nascimento, e, em Luzeiro, dispusemos de toda proficiência de Almir Sater em sua Viola.

Após o bis, um abraço demorado entre pai e filho. Nessa noite bucólica, tivemos a oportunidade de enxergar todo o processo que culminou naquele instante. A importância desse grande artista que representa esse enorme ipê do Pantanal, fazendo sombra para que a árvore ao seu lado, recém-florida, encontre espaço e sombra para crescer com tranquilidade.

Eis Almir e Gabriel Sater no Araújo Vianna. Intocáveis de qualquer ameaça, banhados por sol e chuva no último sábado em Porto Alegre, seguirão crescendo por muito tempo num ritmo de vida que eu ainda quero compreender.

Pietro Stefani

Advogado predisposto a fazer tudo menos advogar e quando faz é ouvindo música no processo. Demasiadamente extrovertido e fã exagerado de muitas coisas.

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