Crítica | Jão - Memórias Póstumas

Conceito algum é mais importante do que a música.

 
 

Consigo contar nos dedos de uma só mão os artistas que tem o impacto de Jão. A cada novo lançamento, mais fã-clubes e shows lotados. Mas será que esse sucesso comercial compete de igual para igual com a qualidade dos seus trabalhos?


Hum, me parece que não.

Isso porque ele é um daqueles artistas mais preocupados com o lado visual dos trabalhos, a fotografia da capa, o teaser de lançamento do álbum, o videoclipe, do que com o serviço que ele exerce na praça… música. Tudo pensado em prol de uma teatralidade performática, claro.

Essa performatividade vem embalada no nome do mais novo projeto dele: Memórias Póstumas. Aí você, assim como eu, dá o play na sua plataforma de música esperando encontrar letras sobre a vivência do artista com o luto pela perda do pai. Ledo engano. Vai receber uma sequência de canções tileles sobre um relacionamento possivelmente problemático que o artista vive. Sabe aquele meme “você ganhou, mas não vai levar”? É isso.

O problema não é falar sobre a frustração da lida com o amor. Grandes discos da história registram esse sentimento e suas consequências possivelmente nocivas, como o apoteótico Back to Black (2006), de Amy Winehouse. O cerne da questão está na falta de maturidade da caneta que mesmo diante de arranjos até inventivos não consegue esconder a superficialidade da obra como um todo. É como se a gravadora tivesse dado toda a estrutura financeira para um adolescente no auge do terceirão produzir um disco sobre um menino com quem ele ficou na saída do colégio e que, depois, deu um fora nele.

Algumas canções têm sacadas bem inteligentes, liricamente falando, como o verso 1 de 'Amor': “Você andou por muito tempo? / Elas pеrguntam, curiosas / Eu sou um homem de pecado, estou sujando suas mãos limpas / Mas elas dizem que até gostam mais”, com alguns rompantes do artista que demonstram sua capacidade de ter ideias inventivas. Mas ele cai na própria armadilha criativa ao voltar para o lugar-comum, na mesma canção, com ideias do tipo "E o menino adolescente na aula de educação física / Brigando com seus olhos nos colegas sem camisa". Sinto como se a guarda criativa dele fosse dividida na mesma música entre Caetano Veloso, de um lado, e Taylor Swift, do outro.

Música não é uma ciência exata onde caibam fórmulas certeiras para cair no gosto de todos. Elas até funcionam quando o artista se preocupa apenas com números e evidência midiática, o que não parece ser exatamente o caso de Jão. Ele busca, a duras penas, fazer algo na contramão de uma indústria cada vez mais preguiçosa e acomodada. A intenção dele é boa. Só que... nem todo intérprete é um grande compositor.

Beth Carvalho, consagrada como a madrinha do samba, não teve problema algum em reconhecer compositores e dar espaço para que outros artistas com papel na mão e ideias geniais também construíssem seus trabalhos. Tá na hora de João Vitor Romania Balbino, o Jão, nadar nessa corrente e dar espaço lírico para artistas que podem desenhar ideias melhores do que as dele. E também largar de mão desse namorado que até pode ser um bom publicitário, mas de música entende tanto quanto eu entendo de japonês.

Caio Profiro

Manauara. Penso e escrevo sobre música desde 2021. Beatmaker nas horas vagas e pesquisador musical em tempo integral. Autor do artigo científico "O samba como território da folkcomunicação: a trajetória do genêro musical de cultura marginal a símbolo nacional".

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