Crítica | Argentina x Cabo Verde (2026)
Ainda há sentimento no futebol?
Em meio ao show de luz e som promovido pela FIFA nos Estados Unidos, ainda se escondem mistérios.
Dois times entram em campo, puxados por seus capitães. Uma música pop toca alto enquanto o narrador grita palavras incessantes sobre a magnitude do jogo que está por vir. Assim começa uma partida de futebol na Copa do Mundo - especificamente o jogo entre Argentina e Cabo Verde no dia três de julho de 2026, transmitido pela CazéTV. Esses primeiros minutos demonstraram o excesso de estímulos que um jogo de futebol tem nesse campeonato: um grande espetáculo televisivo, propagandas e marcas em todos os lugares. Um dos capitães que puxa a fila, Lionel Messi, é uma grande marca por si só e o protagonista desse jogo.
Os times se perfilam no centro do campo e temos um minuto de descanso. O momento dos hinos nacionais é o espaço que restou para alguma ternura e deslumbramento em um jogo de Copa do Mundo. Um dos resquícios do passado do futebol em que os times eram nacionais e os atletas eram pessoas comuns, que jogavam futebol como iam para a fábrica trabalhar - ao contrário de hoje, que vão a campo como influenciadores digitais. De certo modo, a seleção de Cabo Verde é um outro resquício desse passado, ou pelo menos era antes de chegar a Copa do Mundo: jogadores desconhecidos que jogavam pelo seu país ou o dos seus pais.
Ao acabar o momento dos hinos nacionais, retornamos ao show de som e luz que nos acompanhará quase ininterruptamente por três horas. Se não vivêssemos bombardeados por imagens nas redes sociais, seria insuportável assistir a esse jogo: qualquer momento que a bola não rola se torna uma deixa para alguma canção saltar nos nossos ouvidos, as placas de LED na beira do campo anunciarem empresas que estão destruindo o mundo com petróleo e tecnologia e a transmissão passa a ter seu ritmo ditado pelo mesmo algoritmo frenético das redes sociais.
Há muito que a visão lateral do campo já não é suficiente para as marcas que querem vender seus produtos. Há câmeras posicionadas por todo o campo, uma que sobrevoa os jogadores, e até uma na lateral da cabeça do juiz, mas o que chama atenção é como elas pouco se destacam na metralhadora incessante de cortes e replays que elas promovem. Não há uma grande imagem da tal spidercam na Copa do Mundo deste ano, e, além disso, as filmagens do campo são constantemente interrompidas por imagens da torcida celebrando em câmera lenta. De novo, não fôssemos nós tão bombardeados por imagens de baixíssima qualidade nas redes sociais, não suportaríamos assistir tantas vezes aos torcedores cantando em slow motion.
Em meio a isso, há uma partida de futebol acontecendo. O protagonista desse jogo, o melhor jogador do mundo, símbolo dessa copa e do futebol mundial, faz, como costuma fazer, um lance magistral. Dibu Martínez lança a bola do meio campo com a perna esquerda e Messi, na pequena área pelo lado direito, domina com a parte externa do seu pé esquerdo e finaliza com o mesmo pé no lado oposto do gol, tudo isso em um piscar de olhos. Ainda que seja esse o plano da publicidade (uma bela jogada de Messi), há algo de intocável pelo show de luzes em um lance como esse, um mistério sedutor de algo que pode acontecer há qualquer minuto, sem nenhuma previsibilidade e que nenhum de nós saberia reproduzir na nossa própria vida. Esse lance foi transmitido pela câmera lateral.
O gol de Messi, protagonista da partida, é o triunfo da publicidade. Uma contradição entre o intocável e o absolutamente dominante na supremacia das marcas que controlam tal evento. Ele nos impressiona pela sua totalidade, exatamente como um espetáculo de LED. Como artista que é, ele faz algo muito belo em meio ao que há de mais feio. O gol de Messi é a estetização do mal no mundo de um jeito que não podemos parar de olhar, porque nos seduz e nos envolve ainda que nos entristeça.
Além da transmissão feita pela FIFA, há algo de abjeto no modo com que a CazéTV (e a Globo, e o SBT) mediam essas imagens para o espectador. No momento do gol, no momento que algo especial e único acontece, quatro cabeças de pessoas que não têm nenhuma relação com o que aquilo são mostradas no canto dela, reagindo ao vivo a algo que nós mesmos ainda estamos processando. Nos forçando a deglutir algo mais rápido do que conseguimos, tentando nos obrigar a sentir o mesmo que eles, para que, quando tentarem nos vender casas de apostas, aplicativos e camisetas, a gente sinta também o maravilhamento desses produtos.
Esse é um aspecto particularmente atual da transmissão esportiva. A convivência com a publicidade sempre ocorreu, claro, mas era uma troca justa, ao meu ver. Podemos ver a Copa do Mundo em qualquer país do globo porque algumas empresas querem usar o esforço, a habilidade e a excelência técnica daqueles atletas para vender refrigerantes. Mas na transmissão atual, além de termos sido obrigados a ver duas paradas para comerciais que transformaram completamente a maneira que o jogo se desenvolve, somos também bombardeados por QR codes e anúncios que tomam um grande espaço da tela.
Apesar de toda essa feiura, o que acontece em campo é belo. Um time que chegou nos Estados Unidos totalmente desconhecido e se apresentou com um goleiro que faz defesas esquisitíssimas - que sempre parecem acidentais -, dois zagueiros que foram capazes de parar a seleção espanhola sem fazer nenhuma falta e um técnico que usa um exagerado olho grego pendurado no seu pescoço. Esse time faz frente a atual campeã do mundo, contra a expectativa de todos os anunciantes da FIFA que desejavam ver Messi indo o mais longe possível, e fazem frente marcando em linha alta e buscando fazer gols.
E essa contradição inerente ao que se tornou o futebol que me dá alguma esperança. A lógica do mundo da propaganda não permite o sonho, mata o otimismo, revela o segredo, mas, mesmo assim, um jogo com Argentina e Cabo Verde é cheio de mistérios a serem desvendados. O maior deles, permite até o sublime: na metade da prorrogação, com o placar marcando 2 a 1 a favor da Argentina, o lateral canhoto Sidney Cabral, entrando na área pelo lado direito, manda com a perna destra uma bola fazendo curva até o ângulo esquerdo do gol de Emiliano Martinez.
Momento de absoluto encanto. Ao contrário do gol de Messi, isso não estava no roteiro dos anunciantes, um lance em que a boniteza toma conta do mundo e se espalha para a nossa vida. O próprio jogador leva as mãos à cabeça, sem saber o que fazer depois disso, atravessa o campo pula o anúncio de publicidade e vai para arquibancada beijar sua esposa. Era o momento verdadeiramente escondido, a possibilidade de amar e ser feliz frente a uma derrota iminente, de dar um beijo quando se esperavam lágrimas e de celebrar a beleza.
Ao final, Messi levanta a bola na área e Cuti Romero bota a Argentina na frente do placar novamente. Essa seleção de Messi também nos mostrou que é possível sorrir quando o futebol está cada vez mais dominado pela previsibilidade e chatice da publicidade e dos europeus. Eles, os argentinos e cabo-verdianos, celebram os mistérios que uma partida de futebol ainda esconde em meio a tantas câmeras e ao horror que é o mundo contemporâneo.