Crítica | Amarcord (1973)

perto e longe

 
 

Obra pessoal de Fellini retrata o tempo dentro dos tempos


Às vezes é preciso olhar de longe para entender o que está próximo.

Amarcord (1973), filme semi-biográfico da vida de um amigo de Federico Fellini, retrata dias de fim de inverno em uma pequena vila italiana, próxima à cidade de Rimini. Mais especificamente, o crescimento do jovem Titta por meio de suas interações com uma coleção pitoresca de personagens.

O filme se inicia com cidadãos comemorando a chegada da primavera marcada por pequenas sementes de álamo, mais parecidas com pequenos algodões, que voam pelos ares do vilarejo. A substituição da neve pelos flocos é daquelas rimas que nos fazem lembrar o quão bela e harmônica é a natureza, mas se há graciosidade, Fellini a encontra ao não buscá-la. Sua encenação, como de praxe, traz um certo histrionismo de seus intérpretes, geralmente filmados em planos médios e abertos onde conseguimos ver também o ritmo do vilarejo em diferentes cenários.

Diferente da cadência de um Demy ou do rigor disfarçado de um Tati, o cotidiano em Fellini é mais individualizado, mais marcado pela performance de cada ator. Os personagens fazem parte do todo, mas ao longo do filme chamam atenção para suas próprias questões, estruturando o longa como uma série de vinhetas que volta e meia têm, como ponto de reinício, planos abertos das casas na praça principal.

Algumas destas vinhetas descambam para o absurdo, outras para o contemplativo. Em uma sequência, um tio de Titta, mentalmente debilitado, sobe em uma árvore e começa a berrar que lhe encontrem uma esposa. O tom cômico recua, as texturas carregadas do vilarejo dão lugar ao pastoral, e o sol pinta a cena com uma beleza que remete à Vittorio de Seta. Em outro momento, vemos alguns personagens na bruma, quase desaparecendo. O filme é como que uma coleção de quadros impressionistas, com motivos caricatos, combinação curiosa e curiosamente frutífera.

Em uma cena, Titta se masturba com os amigos pensando nas mulheres do vilarejo (todas mulheres comuns, com corpos variados e entrouxadas de roupas de frio), em outra, ele se aproxima cadeira a cadeira de uma delas no cinema, enquanto esta assiste a Gary Cooper como que em um transe. Nestes momentos Fellini se aproxima de Pasolini, até de Vittorio de Sica, em um tipo de cinema bastante comum na Itália entre os anos 60 e 70.

Assim como ambos, e talvez como praticamente todos os grandes cineastas italianos, o Cinema de Fellini é também um comentário sobre o que ocorreu, ocorre e há de ocorrer na Itália. Em outras duas cenas, vemos os efeitos do regime fascista nas escolas e também o interrogatório do pai de Titta por meio de oficiais que patrulham pela cidade, mas diria que são o que o filme menos tem de político. Pois não é que tudo é política, essa coisa que inventamos para nos desgovernar em direção a civilização, mas que há a vida, e há a política independente de como ambas caminham, até que uma se insira na outra. Em ano de eleição, mais um, nesse formato tenebroso de recálculo constante de rota que nos deixa em um navio à deriva que aceitamos como o ideal, nos perguntamos o quanto as coisas podem mudar se penderem para um lado ou para o outro. E sim os preços vão subir ou descer, e sim os cinemas vão abrir ou fechar, mas de alguma forma a vida continua, essa coisa que levamos tentando entender onde estamos e para onde devemos ir. Assim como continua a política, coisa essa liderada por homens pequenos, fazendo coisas de homens pequenos com poderes de homens grandes dados a eles por homens burros.

Se há genialidade em Fellini, que talvez só agora esteja conseguindo começar a compreender, ela reside em seguir seu filme não com a sombra do Fascismo, nem em diminuir suas repercussões, mas em mostrar que há algo nas pequenas coisas que ultrapassa todas a ações da política. Todos precisamos acordar de manhã, ainda. Se há genialidade, ela reside na constatação inversa a que abre este texto: às vezes é preciso olhar de perto para entender o que está longe.

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Sandra Sá @ opinião - 29/08