Crítica | 10 Anos de: Melhor Do Que Parece (2016) - O Terno
FAZ-SE OURO COM RECICLAGEM
No ápice da banda, O Terno tem em seu terceiro álbum a obra que melhor resume a geração do indie da década de 2010.
No mês retrasado, recebi de uma pessoa próxima uma sacola com dezenas de CDs. Esse evento me fez revirar a pequena coleção de mídias físicas que possuo e, em meio a ela, me deparar com os CDs que me formaram enquanto ouvinte de música. A maioria deles, a pequena coleção que sobrou dos processos de mundanças — não a do físico para o digital, mas — de casas pelas quais minha mãe passou nos últimos cinco anos, música brasileira das décadas de 1960 a 1980. Outra parte dessa coleção tive que atravessar a cidade para encontrar: os CDs de rock do mesmo período que foram a trilha sonora de incontáveis horas sob rodas pra lá e pra cá nas aventuras com meu pai. Agarrado pela nostalgia de um tempo que não vivi, me perguntei: onde andam os meus CDs? Eu sabia que eles existiam, eu os comprava. Claro, a maioria dei de presente pro meu pai (não era bem pra ele) ouvir no carro. E aí em meio a uma estante de livros, que com o tempo parece diminuir, existe um espaço intocado aparentemente deformado, o único que permanece com o mesmo tamanho de antes, onde guardo os mesmo seis CDs desde a adolescência.
Como um metal precioso, Melhor Do Que Parece, não pela cor, mas pela liga entre as duas sonoridades que criaram meu alfabeto musical, parecia a síntese material perfeita da música que eu herdei. A estética vintage, ou hipster (incrível como ninguém mais é hipster), tinha um reinvidicação por identidade. Ali, quem ouvia, podia ser Gilberto Gil, Black Sabbath, Tom Zé, The Kinks, Milton Nascimento, Janis Joplin sem ser nenhum deles. O Terno já fazia música com autoralidade desde o primeiro álbum, 66, mas aqui a música ganha contornos novos que na minha imaginação, não fosse a mudança de panorama no mercado musical, poderiam alçá-la a ser “A Banda” de rock da geração.
No trabalho conduzido por Guilherme d’Almeida, Biel Basile e Tim Bernardes havia tudo que um adolescente semi-esquisito procurava: senso de humor, delicadeza, energia. Acalento e movimento. Tem algo de esperançoso em perceber e nomear as asperezas, dificuldades, a Culpa e o Nó (que nos enlaçam e grudam ao chão, sendo os mesmos que nos dão base para propulsão). Essa é a narrativa que até a quinta faixa, Lua Cheia, consigo reconhecer. Como quem está deitado imobilizado e é convitado pelos grooves e ritmos a se levantar e se deparar com o próprio mal-estar. A energia errática e lúdica da faixa inicial, afinal lidar com a culpa sem uma piadinha pode ser real demais, se dissolve em uma melancolia passageira na faixa seguinte e recebendo uma resolução positiva nos riffs de Não Espero Mais. O encontro com a possível felicidade só dá uma opção: ação.
Não desenfreada e inconsequente, mas planejada lentamente, carregados pela colcha sonora do baixo de Guilherme, Depois Que A Dor Passar é quando a corda do estilingue é puxada. Os momentos de tensão, de preparo, tudo pode dar muito certo ou muito errado. Lua Cheia, finalmente, é a trajetória do projétil e o tiro. Em uma canção esotérica, a catarse vem sendo equilibrada na bateria de Biel até o ponto que a distorção entra na música e a embala em direção ao delírio.
O Orgulho e o Perdão catalisa esse delírio em embriaguez. Aqui os metais dos sopros aparecem pela primeira vez, como se o atingido pelo tiro fosse o mesmo que o disparou. A honra andando de mãos dadas com a dor, em um caminhar cambaleante, circular. A Volta a sobriedade não poderia ser amena. Sendo uma canção com menos energia exposta, é uma faca afiada, que ao poucos perfura e penetra, migrando do dedilhar às colisões de mão inteira nas cordas do violão. Talvez o momento mais memorável do disco inteiro, a entrada do arranjo e música se expandindo e ganhando corpo logo antes do refrão, que volta ao murcho e desanimado pedido por mais um momento.
Fruto de imaginação, a busca pela ideia do que foi um relacionamento se metamoforseia na fantasia de fuga para Minas Gerais. Viver no campo, beber cachaça, envelhecer em paz. A fantasia perfeita do homem urbano que sente demais e vive nos mesmos ciclos a vida inteira. Como ele diz na música, perfeita para cantar “Na estrada com meus amigos, no banco de trás”.
O terço final com as canções Deixa Fugir, Vamos Assumir, A História Mais Velha do Mundo e Melhor Do Que Parece despertam à consciência. A negação da negação, é quando se entende que o amor não vai voltar e que a vida não é tão devastadora assim. A faixa final, em seus justos seis minutos, soa como um mantra não relaxante, mas alarmante, o pessismo derruba a nós mesmos. É nesse claro-escuro de emoções e sonoridades, não exatamente opostas, que se criam os desvios que formam algum caminho.
Melhor Do Que Parece é um album de conjuntura, imaginação, projeção. Apesar aparentar se referir a um interlocutor não-definido, a impressão que fica do conjunto de músicas é a de um monólogo interno. Adiantamento de todo o hiper-estímulo em uma roupagem retro-agradável? Reflexo de tempos que ainda não tinham o dinamismo atual das redes de informações? Autocentrado como se olhar no espelho, e depois para o mundo, e não como uma selfie, estática e permanente.
Antes da banda se tornar um prelúdio para a carreira solo de Tim, existia um Terno coeso, divertido e profundo. Disposto a se arriscar em contar histórias mais velhas que a própria história.