Crítica | Hesse Kassel - Morir Saltando
conflagração musical
Em seu segundo álbum de estúdio, a banda chilena continua redefinindo os limites do novo rock de forma provocativa e fundamental, alcançando o clímax de uma trajetória artística ainda jovem, mas prestes a se tornar paradigma. E essa não é a coisa mais importante do disco.
A escolha da borboleta na capa - refletida ou, numa visão mais fantasiosa, ramificada diante dos nossos olhos - é, no mínimo, curiosa. Há uma beleza puritana demais, quase transparente, tentando reintroduzir visualmente uma sonoridade já conhecida (cavernosa, obscura) da banda. No intento de antecipar algo mais requintado, dicotômico e abstrato, sou completamente enganado. Pensar demais faz mal.
A banda chilena, em La Brea, seu primeiro álbum lançado ainda ano passado, nos trouxe suas referências: do timbre vocal grave e falado lembrando Nick Cave ou Isaac Wood, a mixagem inchada e inquieta contemporânea a cena windmill, pescando inspiração em King Crimson. Aqui, eles nos trazem sua real faceta.
Morir Saltando é um trabalho muito mais independente e definidor. Do que se fala ao que se toca, se sente tudo - e por sentir eu me refiro a nosso corpo inteiro sendo tomado por completo por adrenalina, quase em possessão. O coração da obra é guiado por um forte anti-idealismo e por um propósito revolucionário, musical e político, como pouco se viu recentemente em álbuns populares nos sites de listas. Sem malabarismos, sem elefantes na sala, sem tempo para pensar demais e tropeçar em si mesmos: do primeiro ao último minuto, eles ocupam uma posição extrema dentro da tradição, distanciando-se o suficiente para estabelecer novos limites, mas não tanto a ponto de deixarem de ser contemplados.
A ideia é incendiar tudo que pode ser tocado. A conflagração interna precisa ser expelida; a situação política chilena é paralisante, com a extrema-direita no poder e a figura central de tudo isso, José Antonio Kast, sendo um grande apreciador da ditadura fascista estabelecida por Augusto Pinochet, em 11 de setembro de 1973, através de um dos golpes militares mais violentos da história. Como ignorar, dessa forma, tudo aquilo que te cerceia como artista e, mais importante, como pessoa?
Não sei se facilidade é a palavra correta, mas a sensibilidade humana e criativa, além da inspiração composicional e sonora, deixou, em algum momento, de analisar o mundo cru à sua volta. Nos curvamos ao hábito da resignação em prol da própria sanidade. Você vê gente morrendo na esquina de casa e se blinda disso fechando a janela do carro e aumentando o volume da música de algorítimo que fala sobre amor. Não consegue olhar nos olhos do reflexo humano que escancara sua maior falha como pessoa - a própria ausência de raiva - enquanto ele, aquele outro ser humano, vivo, se encara em cada janela fechada durante o percurso humilhante da linha de sinaleira até o oitavo carro da fila, sem ter mais qualquer ideia de como reagir ao status quo.
El Reflejo é justamente a música mais comedida do disco. É o momento de baixa-maré, da dúvida, da oração e da frustração. Os acordes menores, tocados lentamente na guitarra, perpetuam a melancolia que nos cerceia diante da sobrecarga, enquanto vão despejando gasolina e traçando linhas sobre os costumes. Quando acendem o fósforo, abrem mão do controle para que os sons possam simplesmente ser sons. Passa a ser instinto. E por tudo que é mais sagrado e tudo que é mais profano (e por nós, que ficamos entre eles), é o instinto que nos faz sobreviver.
Dessa forma, Morir Saltando se torna rapidamente uma selvageria, fruto do descontrole proposital. Pornomiseria, seu ensaio em três atos, propõe-se a ser um filme e conta com nossa capacidade de criar cenários para o que se escuta. Passa pelo rock progressivo, vai ao black metal e termina em uma espécie de jazz fusion. O primeiro terço começa com o bumbo incitando o burburinho de vozes que ouvimos sobrepostas e termina com o vocalista, Renatto Olivares, completamente sem ar, como se tivesse tomado um soco na boca do estômago. “Aquí no se puede pasar”, aludindo claramente à política anti-imigração do atual presidente.
Sancho Plagio, contradizendo as longas composições que preenchem o álbum, funciona como um grito de rua dentro de uma manifestação lotada. O baixo saturado, a bateria descontrolada e o loop de guitarra simulam a aceleração constante de um carro com o freio de mão puxado. Quando achamos que ele finalmente vai arrancar, algo muito parecido com uma música da banda Crumb surge como ponte. A calmaria antes da tempestade. O surto vem. É uma música de rua, de show lotado e suado, para artistas que tentam a todo custo sair do padrão e também vão morrer por isso. Não importa o quanto tentem nos puxar para a realidade, ele sugere: ainda preferimos a fantasia e a criatividade - ou, em outras palavras, “Ladran, Sancho, que vamos pasando”. Continuarão existindo como confronto a tradição.
Tulpa, faixa de encerramento, propõe uma pausa. Retornando ao jazz, sem abdicar totalmente da violência sonora que atravessa o disco, e abrindo espaço para que o piano flerte, pela primeira vez, com certo protagonismo, a banda chilena nos apresenta uma canção de amor. O fogo já tomou conta de tudo, e sobraram escombros. Eles são humanos o suficiente para trazer o amor como motivação, mas não como resultado. Querem amar, mas a trabalho a ser feito. O amor conta com essa infinitude fantasiosa. É invencível. O amor dura, mas talvez nada mais exista a nossa volta para que possamos amar. Ladra, Sancho. Eles estão passando rumo a algo que me deixa animadíssimo.
No hay frío que apague la llama que llevo dentro
Dame un beso más, amor
Para el recuerdo