Crítica | A Professora de Piano (2001)

A ANGÚSTIA DO DESEJO: UMA FERIDA DE AMOR MORTAL

 
 

O que o filme traz é uma relação complexa entre tensão e liberação, desejo e frustração, contenção e violência – a vontade de perder a autonomia e de se apagar completamente que atravessa o sexual e o existencial.


Celebrando seus 25 anos em 2026, A professora de piano (2001), filme dirigido por Michael Haneke, foi restaurado em 4K e redistribuído pelas salas de cinema. No dia 4 de julho, a nova versão foi incluída no catálogo da Filmicca e agora pode ser acessada pelo serviço de streaming.


Quatro anos atrás eu assisti o filme pela primeira vez e ele virou imediatamente meu favorito do ano. Revendo essa semana, parece que esse olhar se desfez, ainda que muitas das qualidades do filme se mantenham. Rever um filme é sempre um exercício de nos depararmos com a mesma obra enquanto pessoas diferentes: o sentimento muda, a experiência muda. Muitas vezes a relevância dessa história, em específico, é resumida no caráter chocante e violento, mas é na delicadeza e nos pequenos detalhes da mise-en-scène que a autenticidade do filme se revela.

Com uma temática intrigante e atuações excepcionais, ele logo se tornou um dos mais relevantes na filmografia do diretor. Em obras como Violência gratuita (1997) e Caché (2005), Haneke explora a violência como arma de opressão e suas consequências sociais (ou a falta dela). Já em Amor (2012) e A professora de piano, o destaque é a tensão entre duas dinâmicas: o amor e o desejo contrapostos à violência e à repressão. Neles, o papel do espectador é realçado: obrigado a ser conivente e cúmplice dos acontecimentos, suas consequências são inevitáveis.

Erika Kohut (Isabelle Huppert) dá aulas de piano no conservatório musical austríaco e tem sua rotina vigiada pela autoridade da mãe, com quem compartilha um apartamento. Dividida entre controle materno e desejos reprimidos, ela encontra Walter Klemmer (Benoît Magimel), que admira seu talento e insiste em ser seu aluno. A relação de aluno-professora é atravessada por tensão sexual que, aos poucos, se evidencia e toma forma de interesse amoroso.


Revendo agora, um detalhe que me chamou a atenção foi a tradução do título. Enquanto o original se refere à personagem como pianista (La pianiste), as traduções geralmente deixam de lado o caráter promissor da pianista para transformar a personagem em A professora de piano/The piano teacher/La profesora de piano. Desde o início ela já está nos bastidores, no fim da sua carreira e do seu estrelato – o sucesso desejado não veio e não vai vir. Nessa pequena distorção do título na tradução (ainda que não intencional), já vemos o movimento que o filme propõe investigar.

O que me parece marcante no desenrolar da narrativa é o foco nas interações entre os personagens por meio de diálogos curtos. Aqui, são as expressões e os pequenos gestos que ganham destaque, o peso da tensão transposta na tela. 

Se o filme é tímido no diálogo, o que ganha peso é a música ou a falta dela. Quando Erika está sozinha, somos invadidos pelo silêncio e podemos sentir o desconforto que ela carrega na própria pele. Em outros momentos, a música toma corpo e alterna entre Schumann e Schubert, que são as especialidades de Erika – é nesse instante que ela consegue, enfim, externalizar seus sentimentos. Ainda assim, só a vemos tocar uma única vez, num pequeno recital privado, um dos raros momentos em que ela pode ser protagonista – mas o enfoque está na reação de Walter.


Nesse reexame, fica claro o quanto as escolhas estilísticas ressaltam cada aspecto que se segue: a neutralidade da câmera, a contenção dos diálogos. Erika se esconde em meio à multidão e a câmera acompanha esse movimento. Quando ela não está escondida no enquadramento de perfil e de costas, ela reprime qualquer emoção – é nessa falta de expressão e contenção contínuas que tudo transparece, e o enfoque no seu rosto é reservado para os momentos breves ou determinantes.

Ela não tem e não abre espaço para se permitir algum prazer. Mesmo sozinha, em momentos em que tenta substituir o sexo por estímulos sensoriais, na sua automutilação e no voyeurismo, não exprime qualquer reação. É essa mesma repressão que se espalha em todos os aspectos de sua vida: ela não pode fugir do controle da mãe, do isolamento social, do passar da idade e do futuro que não vai ter, já que o tempo de conseguir o sucesso que almejava se esgotou. 

Erika se esconde na autoridade dentro do conservatório e Walter tenta contornar a parede que ela ergue ao seu redor, buscando abrir as portas para concretizar o seu desejo – dele e dela. Mas ao revelar seus fetiches, a diferença entre fantasia e realidade se choca. A repressão de uma vida parece se esfacelar diante disso e tudo implode. É o único momento em que ela se permite ser vulnerável e, enquanto implora, ela chora. É aqui também que a fantasia de Walter se quebra e a admiração pela professora vira repulsa, abrindo caminho para a violência e agressão que se seguem. 

É impossível não sentir a distância que o filme busca ressaltar, e tudo se centra na crueldade e impotência – nossa e dela. Se antes nosso incômodo era singelo, agora ele é absoluto. Ao fim, Walter fala que uma ferida de amor não é mortal e deixa Erika desamparada.

Na sua espiral de desilusão, a agência da personagem se desfaz e ela retorna aos bastidores, voltando a ser uma figura passiva na sua própria vida. Com esse movimento, a dinâmica do filme se intensifica, ainda que trazendo uma perspectiva desoladora: Erika vira uma sombra, quase um fantasma, o roxo no seu olho ignorado tanto quanto a sua presença. Se antes ela se escondia na multidão, agora ela some. 

Quando Erika e Walter conversam sobre Schumann e Schubert no início do filme, ela fala sobre o crepúsculo da mente de Schumann: antes da perda total da consciência para a loucura, ele perde a si mesmo e é abandonado. Depois de toda a violência, ela finalmente encontra Schumann: a loucura antes da queda se torna não mais inspiração artística, e sim realidade. Assim como ele, Erika se depara com a frustração para então ser abandonada.


A recepção do filme pelo público é um pouco curiosa: A professora de piano é muitas vezes aclamado pelo caráter subversivo desses fetiches. Inclusive, não faltam comentários sobre como alguma mulher gostar desse filme é uma prova de uma sexualidade desviante, enquanto algumas mulheres usam o filme para insinuar esses desejos.

A dualidade normativa de submissão feminina e dominação masculina constantemente se apoia em papéis de gênero, apesar de isso não apagar a realidade da fantasia. Por outro lado, é muito fácil falar que o filme “não é sobre sexo, é sobre repressão”, mas isso seria igualmente limitante e exagerado – até porque um filme nunca é só uma coisa, uma temática, um plano.  

Essa dinâmica é abordada por diversos filmes, desde A bela da tarde (1967) e Serpente do amor (2002) a filmes contemporâneos, como Culpada por romance (2011). A diferença reside aqui na forma e intensidade da violência do desejo e seus limites, enquanto o fetiche é um mecanismo de externalização dessa relação.

A vontade de perder a autonomia e de se apagar completamente – que atravessa o sexual e o existencial da protagonista – se contrapõe a uma necessidade de controle que vira agressão. A relação entre tensão e liberação, desejo e frustração, contenção e violência é, ao fim, uma faca de dois gumes mais complexa do que deixa transparecer.

Brenda Lombaldo

Ex-advogada estudando história da arte e o cúmulo da cinéfila performática. Fascinada por palavras e imagens intensas, me aventuro com filmes e músicas melancólicas que fazem qualquer um chorar ou sair imediatamente da sala de cinema.

Próximo
Próximo

Crítica | Hesse Kassel - Morir Saltando