Crítica | This is Lorelei - The Singer in My Band
Bolo de Morango
Terceiro álbum solo do prolífico Nate Amos é capaz de salvar uma alma faminta mesmo que não me deixe completamente cheio.
Já perdi as contas de quantas vezes ansiei por um quadrículo do tamanho da minha cabeça, coberto de merengue e escondendo uma quantidade quase indecente de morangos repousando entre as camadas de recheio, simplesmente porque o dia foi ruim. Há algo de quase-terapêutico nessa experiência de passar o garfo em diagonal numa das quinas daquela esponja doce, que consegue tornar energia negativa acumulada no corpo num resignado, mas grato, suspiro.
(Preciso entender que relação problemática é essa com comida e música? Minha vida não precisa mudar a cada refeição.)
Um pouco de contexto sobre o artista: nos últimos 18 meses, o cantor-compositor que provavelmente escreve mais canções do que bebe copos de água por semana teve suas músicas regravadas por Waxahatchee e Cameron Winter, em Where’s Your Love Now; Hayley Williams, em Perfect Hand; Jeff Tweedy (Wilco), em My Boy Limbo; e MJ Lenderman, que transformou Dancing in the Club em uma das melhores músicas da década. O alcance de sua escrita é evidente. A questão principal é se suas músicas seriam capazes de sobreviver à própria voz.
O riff inicial de I Will Eat My Heart in the Morning Light se posiciona entre a cafonice de uma abertura de sitcom e a ebriedade honesta de Townes Van Zandt - e, ao mesmo tempo, estranhamente, permanece distante dos dois. Sua melodia é doce e sua voz parece apaixonada pela própria mediocridade. Ele nos cede espaço à mesa e nos oferece uma fatia: Yeah, I know there must be better men / But I'm not the kind to hide / I will eat my heart in the morning light.
É difícil não sentir alguma condescendência, porque, na verdade, em tempos de dúvida, ninguém busca a transcendência de imediato. De verdade, lá no fundo, o que todos precisam é uma pequena dose de conforto. Por trás de uma sonoridade essencialmente americana e interiorana - muito diferente do que ouvimos em Water From Your Eyes - Amos pinta a metáfora de alguém que não reconhece nenhuma outra qualidade em si além da coragem de encarar seus próprios defeitos e aflições e os libertar desse conceito fechado e doloso.
Posteriormente, ele abre o jornal e passa a nos narrar, em voz alta, os acontecimentos do mundo. Em Oh No Now My e Billy Came Back, Amos se debruça, respectivamente, sobre a história de um amigo promíscuo e sobre a de uma espécie de estrela de karaokê de sua cidade natal.
São duas composições que apontam para lados distintos de sua escrita. A primeira, um indie-country de andamento ligeiro que pouco acrescenta à experiência. A segunda encontra uma intersecção mais interessante entre o jangle e o folk, evocando bastante da estrutura sonora de R.E.M., embora sem o mesmo carisma narrativo e com uma estrutura de quatro acordes que a deixa banal. Não é o suficiente pra me convencer de que eu não gostaria de estar conversando com outra pessoa.
Mas ele retorna à proposta original do disco. O arranjo ensolarado de Watching Heaven Fall transforma a faixa em uma pequena celebração musical, daquelas em que sorrisos e pés inquietos parecem incapazes de ficar parados. O violão acústico constrói a base harmônica enquanto o restante da banda vem atrás, de braços dados. Bandolim e bateria se divertem em conjunto, conduzindo a canção com uma leveza irresistível, enquanto as notas de sintetizador ao fundo, às vezes quase inaudíveis, encerram a mistura com uma discreta pontada de modernidade.
Do you remember my friend? The rider dressed in red
On the train, telling truths about his love
Do you recall what he said? That it's all fire once you're dead
Well, we laughed it off, it didn't seem enough
And I Haven't Seen My Love in Quite a While explode em simplicidade e objetividade. A poesia é reconfortante - sendo o melhor trabalho de composição do disco - e sua ambição como músico se entrega à sua humanidade melancólica. A princípio, tudo parece uma singela canção country sobre a distância entre duas pessoas, construída em torno de um dueto que troca pequenas frases de saudade - o melhor que ele poderia fazer com sua versão de Boots of Spanish Leather. Conforme os versos avançam, a ausência ganha outra dimensão: é colocada a proposição que a distância não é geográfica e sim astral, e que sua companheira tenha morrido (literalmente). O que parecia uma conversa entre dois amantes se transforma, então, em um diálogo impossível, mas embutido de vulnerabilidade e otimismo. Aí vem o segundo Twist. Ouvimos a voz dela: Yeah, even though you died (aqui, acredito eu que figurativamente), You're still singing all your songs about me anyway. Dou uma garfada, um suspiro, e vida que segue.
Don’t You Cry in Lonesomeness, a canção de ninar para adultos cansados, é construída como uma despedida agridoce e encerra o disco. A sequência de acordes de sua guitarra, sua única companhia ao longo da faixa, transforma a solidão em algo maior do que ela mesma. Suas palavras, então, invadem o melodrama e oferecem uma companhia quase silenciosa, representando apenas a presença capaz de afagar a dor. Deixo um pedaço de bolo no prato pra ele. Por enquanto, é o suficiente.