Sandra Sá @ opinião - 29/08
O melhor é encontrar o inesperado.
Ou melhor, maestra Sandra Sá .
Quando me candidatei para ir ao show da Sandra Sá, e escrever sobre ele, eu não estava preparado. Confesso: não conhecia muito da artista, sabia o nome e talvez três músicas realmente famosas. Pensei em pesquisar antes, me preparar direito, mas como toda boa procrastinação isso não aconteceu. Cheguei ao show cru.
A apresentação começou ao som de Não Vá, e logo vieram Madalena, Retratos e Cancoes, Sarará, Sozinha, Bye Bye Tristesa. Foi ouvindo essa sequência que vieram os primeiros arrepios e lágrimas. Foi ali, aliás, que a ideia de "maestra" ficou mais clara pra mim: num momento ela cantou sozinha e dividiu a plateia em dois — lado esquerdo e lado direito. Cada um respondendo um pedaço do refrão, como se ela estivesse regendo o público como parte da própria banda.
E a banda também merece ser descrita: teclado, percussão, baixo, atabaque, cuíca — uma sonoridade que já ia construindo, por si só, aquele clima de música preta brasileira em estado puro que atravessou a noite inteira.
Desde o primeiro minuto, antes mesmo de reconhecer a letra, eu já reconhecia o sentimento: memórias de domingo em família, parentes ao redor da mesa, cada um com seu instrumento ou seu timbre, cantando e batucando — sem saber, eu já tinha a tracklist inteira guardada em algum lugar.
É engraçado pensar que fui despreparado e saí de lá tendo entendido Sandra Sá talvez mais fundo do que se tivesse estudado antes. Ouvir como adulto, além de reativar a memória de infância, me deu a compreensão que faltava naquela época. As palavras dela, que antes eram só o som de fundo do domingo em família, agora fazem sentido como as minhas.
E talvez o momento mais bonito da noite tenha sido justamente essa passagem: várias faixas terminavam desembocando numa roda orgânica e espontânea — música nascendo ali, sem roteiro — muito parecido com aqueles mesmos momentos em família onde primeiro ouvi essa obra, sem saber que um dia ela ia voltar assim, ao vivo, pra mim.
Foto por Sofhia Piqueres