Crítica | Como Agarrar um Milionário
Glamour e estrelas em Cinemascope
Filme de Jean Negulesco com elenco de peso usa o cinemascope para elaborar ideias sobre a imagem da mulher contemporânea
Como Agarrar um Milionário é um filme de 1953 produzido pelo estúdio 20th Century Fox. Conta a história de três modelos (interpretadas por Lauren Bacall, Betty Grable e Marilyn Monroe) que alugam um apartamento juntas onde elaboram planos sobre se casar com homens milionários mas, durante suas buscas, encontram outros amores.
Uma produção de estúdio nos moldes clássicos nas comédias românticas dos anos 50, o longa esbanja glamour, com belos figurinos que enchem os olhos junto com o technicolor, aliado aqui ao uso do Cinemascope, técnica que deixa a tela do filme em 2:25, também conhecida como widescreen. Um dos primeiros a usar esta técnica, junto a O Manto Sagrado, filme de mesmo ano e mesmo estúdio, Como Agarrar um Milionário, sendo uma comédia romântica, não é a escolha mais óbvia de filme para ser gravado neste formato (normalmente associado a épicos e faroestes), chegando a receber críticas em seu lançamento dizendo que o uso da nova técnica era desnecessário para um filme deste gênero.
A cena inicial mostra uma orquestra tocando por seis minutos e, desconexa do resto do longa, parece uma exigência de algum executivo com a função de mostrar ao público que “com o cinemascope é possível enquadrar uma orquestra inteira”. Este uso demonstrativo que é mais exibição da técnica do que funcional se mostra também presente no próximo momento do filme, em que temos uma quantidade exagerada de planos de estabelecimento da cidade de Nova Iorque.
Entretanto, no momento em que a trama do filme começa e somos apresentados as nossas protagonistas percebemos que o cinemascope não foi em vão e muito menos desnecessário. Na anamórfica temos belos enquadramentos do apartamento de nossas protagonistas, da aventura gelada mas divertida e aquecedora de Betty Grable. E, um grande aproveitamento de planos conjuntos de nossas três personagens principais, como na cena em que as três conversam sobre seu plano em sua varanda. Além disso, longa mostra como na tela larga podemos ter bonitas imagens de personagens deitados, como nas cenas em que Lauren Bacall e Marilyn Monroe estão no telefone deitadas.
Entre as três personagens a que possui mais destaque na trama é a Schatze, interpretada por Lauren Bacall. Uma mulher divorciada, que devido ao seu primeiro casamento possui uma visão cínica do amor, e é quem elabora o plano para ela e as amigas se casarem com um homem rico. Schatze tem interesse em se casar com um milionário 30 anos mais velho, interpretado pelo astro da década de 1930, William Powell, que é incrivelmente simpático e charmoso a ponto de torcemos para que a personagem de Bacall fique com ele ao invés de seu outro interesse amoroso. A diferença de idade entre os personagens pode soar estranha e até problemática, contudo, o filme brinca com o fato de que na época em que o filme foi gravado Bacall estava em seu famoso casamento com Humphrey Bogart, 25 anos mais velho que ela - com a personagem que interpreta inclusive dizendo ser louca pelo ator de Uma Aventura na África, que era ninguém menos que seu marido.
Sobre o ajuntamento e mistura entre a vida pessoal do ator com o personagem, não podemos não citar Marilyn Monroe, que durante sua vida foi vista e estereotipada como uma loira burra, devido aos tipos de papéis que representava em tela.Pola, sua personagem aqui, também representa este arquétipo a que Monroe foi associada. Contudo, se observarmos bem, Pola não é uma pessoa burra. Ela é uma mulher insegura que, preocupada com a opinião alheia, não usa seus óculos que são necessários para poder enxergar e devido a sua má visão e insegurança a personagem se torna bastante atrapalhada, se perdendo e se batendo em coisas e objetos.
Como Agarrar um Milionário, pode não ser bem visto por algumas pessoas no século XXI, pois sua estória se desenvolve no desejo de suas protagonistas femininas de se casarem com um homem rico. Todavia, o fato da personagem de Monroe superar suas inseguranças com seus óculos, aceitando usá-los pelo final da trama, faz com que o filme tenha uma mensagem de aceitação mais avançada que comédias românticas mais recentes, em que personagens femininas tiram seus óculos no momento em que passam por uma grande transformação.