Terno Rei @ Opinião - 16/05
A simetria é tão sem graça
Qual o ímpeto de repetir algo que se faz há tanto tempo? O que sustenta a curiosidade de criar e, dessa forma, a urgência de ainda querer mostrar algo ao mundo?
Já não tenho o mesmo tesão em fazer coisas que comecei quinze anos atrás e muitas permanecem apenas pela comodidade de evitar o risco de recomeçar, de me lançar a algo capaz de desorganizar a estabilidade construída ao redor da repetição.
Terno Rei é uma das bandas mais influentes dessa geração (a minha). Perpassando diferentes gêneros centrais do rock alternativo, o quarteto eventualmente encontrou a fundamentação do próprio existir debruçados sobre a sonoridade nostalgia. Os timbres de guitarra que se dissolvem em sintetizadores evocam não apenas um período e suas bandas (The Cure, New Order), mas sensações de déjà vu: rostos sem face, esquinas vazias, São Paulo, incertezas frias e memórias quentes. Tudo isso cozinhando em fogo baixo, pela voz quase falada de Ale Sater, até explodir nas pontes instrumentais. É nesse interstício melancólico entre um verso e outro - quando a banda parece finalmente se transformar numa coisa só - que tudo faz sentido.
Ao criar uma estética muito bem definida, naturalmente herdaram a posição deixada vaga pelo hiato do Los Hermanos. Logicamente não pela semelhança direta entre os sons - são pouquíssimas na verdade -, mas pela capacidade de transformar sonoridade em atmosfera cultural e experiência coletiva. Lá, Rodrigo Amarante e companhia construíram seu estilo baseado em calor humano, intimidade, melancolia verbalizada e, como processo, falhar, aprender com o erro e querer falhar de novo.
Aqui, Ale Sater, Bruno Paschoal, Greg Maya e Luis Cardoso partem na direção oposta. Moldados pela impessoalidade de uma cidade que te esmaga e te metaliza pouco a pouco, transformam memórias fragmentadas de um passado mais importante que o presente em uma matéria-prima estética onde toda e qualquer pessoa pode se jogar (e toda e qualquer banda pode tentar beber da fonte, inclusive eles mesmos).
Então me questiono, neste 16 de maio de 2026, no meu terceiro show da banda paulista, se eles ainda queimam em desejo por se apresentar - desta vez com uma setlist fracionada entre três discos - ou se apenas seguem em frente empurrados pela própria nostalgia a qual se tornaram especialistas em versar.
Saí com um gosto agridoce do Opinião. Toda vez que vejo a Terno Rei novamente eles parecem melhores, mais confortáveis, mais precisos, mais conscientes da própria identidade e, paradoxalmente, menos vivos do que na apresentação anterior.
Sábado, 16 de maio, fez um dia lindo em Porto Alegre.
O show do Terno Rei abre com Solidão de Volta, música que carrego desde uma noite na estrada em que ouvi a banda pela primeira vez, repetidamente, até ela se misturar à paisagem turva, às luzes borradas, à noite nublada, ao trânsito barulhento abafado pelos fone de ouvido e a nostalgia daquela rota em que me vi tantas vezes. Tudo isso parecia combinar essencialmente com a estética da banda.
Mas, ao escutá-la no show, o que mais chamou minha atenção não foi a nostalgia nem a paisagem turva, e sim a solidão. Solidão presente nos espaços que os integrantes ocuparam entre si em cima do palco. Esses vazios pareciam preenchidos por uma estrada muito distante, em que cada um seguia em um meio de transporte diferente, direcionando-se para suas próprias cidades de destino final. Mesmo a quilômetros de distância uns dos outros, a banda em conjunto dirige bem; não infringe nenhuma lei de trânsito e não passa nenhum sinal vermelho. Mas quem colocaria cinto de segurança para ir a um show de rock?
Ainda assim, os instrumentos são atravessados por nuances de quem quer tentar se aventurar medrosamente, e pouco a pouco conseguem criar uma atmosfera sonorabrutal. Em alguns momentos, parece que batem o carro e simplesmente abandonam tudo no acostamento, como se finalmente tivessem permitido que algo escapasse do controle. São instantes rápidos, mas suficientes para mostrar que quem não tem mais medo é rei.
Porém, a cada momento em que fogem dos movimentos mecânicos, retornam logo em seguida ao próprio lugar, presos novamente no trânsito, estáticos. As luzes (de Natal), dessa vez não borradas, acompanhavam as músicas de um jeito encaixotado, como se tentassem conter a intensidade do show. Talvez tenham conseguido fazer com que a banda se comportasse, mas não os fãs, que permaneciam intensamente envolvidos.
A apresentação teve uma hora e vinte, tempo que não basta nem para chegar a outra cidade. Nada parecia realmente encerrado, o show terminou da mesma maneira que começou: emoldurado e, em alguns momentos, inexpressivo. Ainda assim, a banda se destaca justamente em suas canções mais instrumentais, como Casa vazia, Luzes de Natal, Brutal, Dia Lindo, momentos em que conseguem escapar da rigidez que tantas vezes os prende. E, o pequeno solo de Ale Sater em Olha só me faria bater o carro em meio ao trânsito.
A setlist segue uma simetria que é tão sem graça. Há harmonia nos instrumentos e nos dedos que os tocam, sem dúvida, mas quando o terreno já está pronto e cheio de certezas, pouco sobra para repercutir além do que já foi previamente estabelecido. O som ecoa, bate e volta do mesmo lugar de onde surgiu. As palavras divagam sozinhas e não conseguem preencher completamente o espaço tornando o Opinião uma casa vazia.
A banda não mergulhou na pequena imensidão que o ambiente do Opinião pode materializar, não engoliu os fãs, muito pelo contrário, os expulsou com uma frieza tímida e incerta, ainda tentando decidir se queriam estar ali ou não. A prosa com o público foi quase ilusória, talvez por medo de acabar fazendo uma confidência e, que qualquer espontaneidade acabasse revelando o quanto tudo já parecia limitado demais.
Confesso que, durante o show, me perguntei por que nenhum deles estava vestido de terno. Mas acho que essa já é outra banda.