Crítica | Da Colina Kokuriko (2011)

De longe E DO MESMO LUGAR

 
 

Filme de filho de Miyazaki é bela viagem a um passado que ainda machuca


Estudando a “história básica”, termo utilizado por David Bordwell para se referir ao cânone cinematográfico mais comum, a tendência é, quando chegar ao Japão, que os estudos sejam limitados aos três nomes que todos parecem conhecer do país. Em ordem decrescente de popularidade (e, para mim, crescente em qualidade): Akira Kurosawa, Yasujiro Ozu, Kenji Mizoguchi.

Nenhum outro país, e é possível recorrer à hipérbole sem receio de estar exagerando, possui um trio tão onipresente e onifluente de diretores em seu imagético, e é discutível se qualquer outro possui um trio de tamanha qualidade.

É comum que, mediante sombras tão longilíneas, outros cineastas sejam preteridos, em especial aqueles que com eles dividiram época. É o caso de Masaki Kobayashi, Mikio Naruse e, sem sombra de dúvidas, Hiroshi Shimizu.

Cineasta da transição, Shimizu fez filmes mudos, falados, e alguns poucos filmes que pareciam existir entre um e outro (Uma Mulher Chorando na Primavera, 1933), mas ficou conhecido especialmente por seus filmes com protagonistas crianças. Em sua maioria, filmes neo realistas, onde os efeitos da guerra são sentidos visual ou conceitualmente no cotidiano de um grupo.

Goro Miyazaki, filho de Hayao, talvez o maior nome do cinema japonês para o ocidente após os tempos áureos do trio, carrega consigo duas limitações: a primeira de ser filho de quem é, a segunda de que mesmo seu pai não escapa às limitações impostas às animações. Todos gostam de Studio Ghibli, todos gostam de Pixar, mas há um tom condescendente que parece separar um espaço inferior à seus filmes na valoração de obras. Como se animações pudessem ser cinema! Mas não vamos misturá-las com os filmes de verdade…

Mesmo quando, e aí no caso dos Ghibli e de alguns momentos inspirados da Pixar e Disney (que estão estes cada vez mais no passado), estes filmes são não apenas mais maduros tematicamente que os “filmes de adulto”, mas artisticamente. E é este último que mais importa.


Da Colina Kokuriko é um filme sobre, assim como aqueles de Miyazaki, o conceito de wabi-sabi. Encontrar beleza na transição da vida, no curso entre a infância e juventude. Alguns filmes sentam mais confortáveis de um lado (Meu Amigo Totoro, 1988), outros desconfortáveis entre os dois (A Viagem de Chihiro, 2001), mas todos são, de uma forma ou de outra, sobre o crescer.

Mas o crescer em Miyazaki, e também no filho, não é um recurso puramente narrativo, e sim um elemento adormecido no andar do dia a dia. De diferente de seu pai, Goro parece menos adepto ao movimento: seus protagonistas, já adolescentes, ensaiam problemas de adulto. Os protagonistas de Da Colina Kokuriko são os jovens estudantes de uma escola que querem salvar o prédio do clube estudantil da demolição. Para isso, decidem limpar e reformar o local por conta própria, e passam a maior parte do tempo em tarefas menos fantásticas que os voos de Kiki ou as jornadas de trem de Chihiro. Lavar, escovar, organizar, escrever, martelar. Quase um filme do verbo.

Entre tudo isso, os dias passam, até que pequenas síncopes levam essa amálgama de momentos a lugares inesperados. Uma paixonite adolescente que escava uma memória borrada: o filme se passa em 1963, na antecipação das Olimpíadas de Tóquio, e suficientemente perto para que entendamos que todos aqueles jovens são filhos da Segunda Guerra. Nossos protagonistas, Umi e Shun, filhos talvez do mesmo pai, ambos órfãos deste. Sua busca é quase paralela ao processo de revitalizar o quartier latin (como chamam o prédio), e os leva a uma viagem desconfortável e ansiosa ao passado de seus pais (no caso dela, a mãe biológica, no dele, os pais adotivos), marcada tanto pelo passeio de barco de Shun com o pai adotivo (em uma cena onde diz para o rapaz que: “está cada vez mais parecido com seu pai biológico, mas você é nosso filho”) como pela cena onde Umi revela seu amor e então entra em um trem.

Herança de Miyazaki pai, é claro, mas por meio justamente de Shimizu, do qual Miyazaki filho recria mais que uma vez os belos planos de Garotas Japonesas no Porto (1933), ao passo que toda a narrativa da escola remete diretamente à Torre da Introspecção (1941).

Do que parecem ser traços seus, Goro Miyazaki enfatiza o modo como os fios de um Japão em modernização a vapor conectam e adornam cada espaço, a difusão das luzes e o abarrotamento das ruelas.

Em certo momento, Shun e Umi acompanham o presidente da classe até Tóquio, que é reconstruída como uma coleção de texturas, sons e cheiros. O mundo dos adultos é menos fantástico, é preciso esperar para ser atendido, é preciso olhar para cima e ser educado com seus veteranos. Me perguntei, nesta cena, se os livros nas estantes e os posters nas paredes seriam recriações exatas. Não importa, só por o parecerem já é o suficiente. E então os três sentam com o presidente, uma conversa rápida, que deságua em uma ligação para remarcar planos para que este possa visitar sua antiga escola. Os tempos de uma conversa dessas, quantas Miyazaki não deve ter observado com seu pai.

O presidente então revisita o prédio que conhece bem e, ao ver a dedicação dos alunos, decide por construir um novo prédio onde possam seguir as atividades do clube. A decisão é celebrada com lágrimas. A viagem ao passado se completa com um aceno ao futuro: a própria natureza do único país que parece ter dominado essa transição.

Shun e Umi ainda tem sua missão paralela para resolver. Precisam mais uma vez descer a colina e entrar abordo de um outro navio, do terceiro homem na foto em comum de seu possível pai. O homem conta a eles que Shun é, na verdade, filho de seu outro companheiro, e que o pai de Umi o havia salvo de ir para um orfanato, e então entregue a seus pais adotivos, que recém haviam perdido um bebê. História complexa e complicada, como muitas outras. O capitão do navio mostra a mesma foto aos dois, e se alegra ao poder mais uma vez dividir o mar com seus companheiros.

Há um quê de melodrama em como tudo se desenvolve e se resolve, que talvez fosse próprio de Miyazaki filho e que infelizmente não vimos se desenvolver nos anos desde o lançamento deste filme que, só agora, se torna adolescente como seus protagonistas. Como uma memória de tempos futuros e passados, me parece também um dos mais belos filmes de toda sua década. Também por trazer Shimizu de volta, também por lembrar Miyazaki pai. Mas principalmente por buscar suas próprias origens sem esquecer de suas heranças.

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