Crítica | Natal Amargo (2026)

Deságua na realidade

 
 

Retratando as relações entre realidade e ficção, nas quais artistas apoderam-se do outro como objeto, a nova película de Almodóvar instiga a pensar em como nos apropriamos do que nos cerca.


Natal Amargo, de Pedro Almodóvar, ou Amarga Navidad, no título original, pouco têm de natal ao longo da história, e só presenciamos uma ou outra menção efêmera que se perde no caminho. Neste fato curioso encontramos uma moldura que se dilui ao longo da história, como se o desejo e pulsão fossem reorganizados pelo interesse do autor. Neste caso, quando digo autor, não falo apenas de Almodóvar, apesar dos paralelos entre o filme e sua vida serem evidentes, mas falo da construção entre realidade e ficção que o filme se propõe. 

Logo na abertura, ouvimos os barulhos das teclas que escrevem o título do filme, ao passo que vamos nos afastando de uma imagem pixelada que não toma forma. Com um simples corte estamos em 2004, conforme a legenda nos comunica, e  nos deparamos com uma jovem mulher, na casa dos trinta anos, que aparenta estar com problemas de saúde. Na TV, a que seu companheiro assiste, ouve-se notícias sobre grandes chuvas e tempestades. Nas imagens da notícia diversos carros aparentam fugir da cidade. De alguma forma, com essa breve moldura, logo imaginei que o filme seguiria os debates acerca do antropoceno e as novas dinâmicas que vivenciamos na atualidade. Muito desse paralelo é fruto do último longa do diretor protagonizado em língua inglesa por Tilda Swinton e Julianne Moore,  O Quarto ao Lado (2024). Sem entrar em muitos detalhes sobre a história, pois não lembro muito bem, mas me recordo de presenciar um Almodóvar muito mais sóbrio do que seus outros longas. Frutos da barreira linguística? Pouco sei e nem pretendo responder. Assim, na cadeira do cinema, logo me prontifiquei que talvez seu novo longa, de volta a sua língua materna, acompanharia essa sobriedade e os debates sobre as mudanças climáticas, mas logo a dinâmica se perdeu e a moldura foi substituída.


“O Cinema tem algo de premonitório”. Esta é umas das falas da protagonista Elsa (Bárbara Lennie) direcionado ao seu companheiro Bonifacio (Patrick Criado) para justificar suas escolhas. Por conta da dor de cabeça crescente e a carência de remédios em casa, o casal se direciona para o hospital. Chegando lá, retiram sua ficha e esperam o atendimento. Elsa é atendida, medicada, mas a dor persiste. Assim, o médico decide interná-la para uma avaliação mais detalhada. Na maca, Elsa é direcionada para o seu quarto, porém, intervém, perguntando se poderia ficar no quarto à sua direita. O enfermeiro comunica que sim, mas que deveria verificar a possibilidade. Enfim, Elsa se estabelece no quarto escolhido. E seu namorado, que até agora estava distante e sem muita presença, a pergunta o motivo dessa escolha. Elsa fala que havia gravado um dos seus filmes no hospital e o personagem que sobreviveu estava internado naquele mesmo quarto.  Assim, a  ex-diretora de filmes cults e atual produtora de propagandas, como descobriremos ao longo do filme, diz as mágicas palavras que conferem o início deste parágrafo.  

A partir desse momento, o filme, com sua forma e conteúdo, começa a desaguar nos debates acerca da ficção e realidade. Após essa breve apresentação dos personagens, somos direcionados para o mundo contemporâneo. Talvez seja em 2024 ou 2025, mas a legenda nos comunica com exatidão, ao contrário deste escritor esquecido que vos fala. Encontramos um homem, de cabelos grisalhos, óculos, roupas bonitas, como um típico intelectual. De maneira caricata, a sua aparência se assemelha a de Almodóvar. Por fim, descobrimos que a história de Elsa na verdade trata-se do roteiro de Raúl (Leonardo Sbaraglia). Seu roteiro simbolizaria a sua volta ao mundo do cinema, já que estava a cinco anos sem escrever e filmar. Num primeiro momento, o filme acompanharia a sua primeira crise de pânico nas peles de Elsa. A partir da personagem de Mónica (Aitana Sánchez-Gijón), uma espécie de assistente/empresária, compreende-se que o cineasta é reconhecido e consolidado no mundo inteiro. Entre convites e cerimônias que, na visão de Raúl, não fazem sentido pois ele estaria estagnado e sem ideias novas.

Entre idas e vindas, o filme se estrutura entre os paralelos da realidade (de Raúl) e da ficção (de Elsa). O percurso se torna inventivo e caricato a partir das transformações que ocorrem no roteiro de Raúl. O que em um primeiro momento representaria a experiência unívoca do diretor, começa a desaguar e contaminar com a realidade dos outros. O seu Eu/Roteiro é constituído pelo Outro/Experiência. Assim, Raúl começa a subordinar a sua história a partir dos acontecimentos de Mónica. A assistente havia sido dispensada, por interesse próprio, depois de 20 anos de trabalho, para auxiliar uma amiga com problemas de família. Com um meio sorriso escondido, Raúl esquece da sua trama acerca das dores de cabeça e tempestades na cidade, para direcionar a câmera para a crise familiar vivida por Patrícia (Vicky Luengo) e a interpelação de Elsa no drama familiar.

Notamos como o filme demonstra as interferências da realidade na ficção e como Raúl se posiciona diante delas, chegando a um ponto de total descontrole de seu poder perante aquelas pessoas transformadas em personagens. Na mesma toada, ontem (20/05/2026), em Cannes, Almodóvar conferiu à imprensa uma conferência astuta prontificando que o cinema “deve falar com a cara descoberta sobre o pior que está acontecendo, e coisas terríveis demais estão acontecendo conosco a cada dia". Em sua fala, o autor nomeou Donald Trump, Benjamin Netanyahu e Vladimir Putin como monstros. Neste momento, Amarga Navidad, está competindo pela Palma de Ouro no Festival de Cannes. Mas, o que confere o seu filme sobre as coisas terríveis que atropelam o mundo e a nossa experiência visual. O turbilhão de notícias acerca da Palestina, Guerra do Irã, desastres e genocídios todos condensados no Instagram como um breve choque para ser substituído por outro. Hoje, colecionamos e perdemos imagens do mundo em destruição.


Neste sentido, o gesto caricato, paródico, cômico, profanador de Almodóvar em sua nova película, direciona uma autocrítica dos tempos de crise vividos. Onde  encontramos cineastas omissos, que fazem filmes “políticos” mas que não verbalizam e nomeiam os seus atos. Não há muito tempo atrás, Wim Wenders, no Festival de Berlim, disse, direcionado aos cineastas, que “Precisamos ficar fora da política porque, se fizermos filmes dedicados à política, entramos no campo da política.” Fala esdrúxula e paradoxal, atravessada da piedade redentora e messiânica do colonialismo. Como diria Glauber Rocha, “tanta violência que foi cometida em nome da paz e do humanismo".

O novo filme de Almodóvar brinca com a sua própria trajetória como cineasta e de outros autores, demonstrando como é patético não ver as ruínas do presente. Alienado e distante, Raúl, no tédio maligno e oscilante, não olha, mas apenas observa da sua posição privilegiada o mundo, se escondendo e se omitindo atrás das cortinas da ficção e realidade. Na sua fala em Cannes, Almodóvar decreta a morte de Raúl e seus semelhantes. Mas, agora, o que resta para além disso?

Lucas Machado Rodrigues

Graduando em Letras, amante de anacronismos e pinturas que não sei o nome. Pesquiso o cinema do Júlio Bressane e a literatura de Oswald de Andrade. Gosto dos filmes do John Ford, Godard, Alfred Hitchcock e Chantal Akerman.

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