Crítica | Os Garotin - Força da Juventude

Consolidação de Identidade

 
 

O segundo álbum de Os Garotin chega com uma qualidade rara: a de surpreender sem parecer que está tentando.


A Força da Juventude (2026) mantém o frescor do disco de estreia, mas cresce em repertório, personalidade e direção musical. Há mais estilos circulando pelas faixas, mais ambição nos arranjos e uma confiança perceptível nas escolhas do trio. Ainda assim, tudo soa vivo e espontâneo. Parte desse mérito passa novamente pelas mãos de Júlio Raposo - produtor que reedita a parceria que rendeu ao grupo um Grammy Latino no ano passado e conduz essa expansão sem deixar que Os Garotin percam a própria essência. Talvez esse seja o grande trunfo do disco.

Hoje eu Vou me Dar Bem começa suave, na humildade, quase tímida. Como toda boa introdução, já apresenta a identidade de cada integrante: o molejo de Cupertino soma-se ao gingado de Anchietx com os metais surgindo aos poucos sobre uma pulsação pop, até Léo Guima entrar com seu groove arranhado para completar o quadro. Juntos, provocam aquela explosão de sensações que virou assinatura do grupo. A letra praticamente avisa: o que vem pela frente é coisa boa.

Na sequência, Se Joga mantém a energia acesa. A guitarra suingada de Cupertino conduz a faixa com naturalidade, enquanto BK’ e Marina Sena entram sem esforço nessa mistura agradável de rap, groove e pop alternativo. É uma música que entende o próprio charme.

Então chega Baby Não Vá, abrindo espaço para um R&B mais denso e melódico. O piano ganha protagonismo e os coros preparam o terreno para Anchietx mergulhar sem medo nos melismas e na atmosfera sentimental, em seu primeiro momento de maior destaque neste novo projeto. O mais curioso é sua curta duração: a faixa é tão audaciosa a ponto de interromper um solo de trompete para imediatamente engatar a música seguinte, como alguém mudando de estação num rádio que só sintoniza música boa. Essa transição para Deixa eu Te Encontrar acelera novamente os passos rumo a um soul ensolarado e abrasileirado, embalado por metais precisos e pela voz aveludada de Malía, que surge cantando em inglês com naturalidade absoluta. Os encontros promovidos pelo trio ajudam a desenhar a identidade do álbum: uma obra aberta à experimentação e à mistura, onde os estilos conversam sem disputa por protagonismo.

E por falar em encontros, Soul Brasileiro talvez seja a faixa que melhor sintetize a alma do disco. O sotaque nordestino de Lenine cruza com o bandolim de Hamilton de Holanda em uma travessia tropical que costura samba e bossa nova com soul. É uma celebração da identidade brasileira sem cair em caricatura, daquelas músicas cativantes que parecem abraçar quem a escuta.

A faixa-título, Força da Juventude, ressurge mais intensa, carregada de atitude e senso de propósito. Coros e metais acompanham os vocais rasgados de Léo Guima no refrão: “sinto a liberdade e a força da juventude”. É a nova MPB pulsando sem medo de ocupar espaço. Esse clima transborda para Falador, em tom de desabafo e indignação, reforçado pelo rap de 2ZDinizz, reafirmando que a black music continua sendo a espinha dorsal do trio.

Logo depois, Gimme Just One Night funciona como um breve interlúdio. São apenas 30 segundos de neo-soul com pegada retrô atravessado por elementos contemporâneos de R&B. Uma pausa pequena, mas suficiente para mudar o clima antes do próximo mergulho. E esse mergulho atende pelo nome de Calor e Arrepio. Já conhecida do Session 2 (2025) e presente nos shows da última turnê, a faixa deixava claro que a estreia do grupo era só o começo. O verso “A noite voou e a gente nem viu” quase parece acompanhar a ascensão desses três jovens de São Gonçalo, que encontraram uns nos outros a medida exata entre técnica, carisma e identidade. Agora, a música ganha um refrão expandido em um coro coletivo pensado para ecoar nas plateias das próximas turnês.

Não Vá desacelera a rotação sem perder intensidade, entregando talvez o momento mais sedutor do álbum. O órgão junto às harmonias vocais melodramáticas de Anchietx criam uma atmosfera quente, quase cinematográfica. E, mesmo em uma música com pouco mais de um minuto de duração, a voz rouca de Léo Guima consegue roubar a cena sempre que aparece. A capa de A Força da Juventude até tenta escondê-lo, mas o disco inteiro conspira contra isso. 

Em Fantástica, a guitarra dançante de Cupertino retorna para conduzir um funk setentista cheio de si. A faixa evidencia o talento individual de cada integrante antes de celebrar o encaixe entre os três: a malemolência de Cupertino, a malícia de Anchietx e a malandragem irreverente de Léo Guima convivem com uma naturalidade difícil de fabricar.

Outra conhecida do Sessions 2, Simples Assim finalmente ganha sua versão oficial mantendo intacta sua essência múltipla e frenética. A grande novidade fica por conta da participação de Liniker, que adiciona a potência merecida à música e conduz a faixa com novos versos adicionados até chegar ao refrão, agora ainda mais vigoroso. 

Para o encerramento, Uma Noite Só entrega uma despedida à altura de um álbum feito com evidente devoção. Léo Guima flutua sobre uma trilha que remete ao pop global de Bruno Mars, mas atravessada por um tempero brasileiro impossível de reproduzir artificialmente. Entre soul, funk e MPB, a faixa recebe a sofisticação dos arranjos e pianos de Arthur Verocai. Existe ali um clima de fim de festa, de luzes se apagando devagar numa madrugada muito proveitosa. E Os Garotin fazem isso novamente: encerram o disco deixando no ar aquele inevitável gosto de quero mais.

O novo trabalho de Os Garotin não soa apenas como um segundo álbum promissor. Soa como a consolidação de uma identidade musical brasileira pulsante, moderna e viva. Um trabalho sofisticado sem perder espontaneidade e experimental sem romper com o calor popular. É raro assistir ao nascimento de algo que já parece destinado a permanecer. Talvez seja essa, afinal, a força da juventude.

Rod Rott

Cético quanto ao futuro da humanidade, ainda assim enxerga a vida como um acontecimento fascinante e encontra na arte (de Beatles a Belchior) uma forma de ampliar a experiência de existir. Transforma encantamentos e inquietações em palavras. Nas horas vagas, também é publicitário.

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