Crítica | Nick Drake - Five Leaves Left (1969)

O que o tempo nos mostra?

 
 

Em seu primeiro álbum, gravado aos 20 anos, Nick Drake falava magicamente sobre um mundo que ao mesmo tempo amava e temia.


In my room, the world is beyond my understanding;
But when I walk I see that it consists of three or four
        hills and a cloud.

Of the Surface of Things - Wallace Stevens


Tem dias que passam mais rápido que outros, certo? Dias que abalam toda nossa noção temporal. Alguns escorrem entre os dedos antes mesmo que possamos percebê-los, enquanto outros preservam a atemporalidade rara de uma memória sendo construída ao vivo. E - engraçado que - algum tempo depois, tudo, sem exceção, parece pequeno demais diante da velocidade com que a vida continua avançando (hoje é um dia de sol com frio e eu não lembro o porquê sofria na semana passada).

Então, afinal, o que exatamente o tempo nos mostra?

Essa percepção da temporalidade se torna ainda mais estranha quando tento afastá-la do microscópio cotidiano e dilatá-la em períodos maiores. Já não sei distinguir com clareza o que mudou e o que permaneceu do ano passado - meu cabelo parece diferente; as mesmas roupas me vestem de outra maneira, embora eu não sinta ter ganhado peso; não uso mais relógio, mas ainda carrego no pulso a marca mais clara da pele onde antes eu tentava controlar o tempo. Em suma: é difícil prestar atenção nas discretas coisas acontecendo agora, dia pós dia, escapando.

Talvez essa magnanimidade do momento descartável seja justamente aquilo que nossa geração - por “nossa” me refiro aos jovens adultos entre os 20 e 30 anos - busca incessantemente: uma espécie de prova empírica de que ainda possuímos sensibilidade no olhar e um coração capaz de bater mais forte quando reage ao mundo acontecendo ao redor.

Enfim, não gosto de trocadilhos - ou gosto, também, não sei -, mas nesse caso, a primeira música de Five Leaves Left, Time Has Told Me (ou, o tempo me disse), parece o prefácio e o epílogo da história que lemos hoje sobre Nick Drake, publicada em 1969. O tempo haveria de revelar que aquele disco era um acontecimento raro (you’re a rare, rare find), embora quase ninguém fosse capaz de percebê-lo na época. Com toda atemporalidade que carrega em seus arranjos orquestrais, nos prolíficos dedilhados de violão e em sua voz capaz de desconcertar qualquer tentativa de cinismo, o disco parece ser feito, mais do que para qualquer outro período, pra hoje e, principalmente, para nós, que desaprendemos a observar o tempo como matéria frágil, em constante desaparecimento.


Na Teoria do Romance, o filósofo húngaro Georg Lukács escreve que o romance é a história de um herói insatisfeito em busca de valores autênticos dentro de um mundo degradado. Mas o que exatamente constitui essa insatisfação? - sinto que estou fazendo perguntas demais cuja respostas me escapam, o que pode transformar o texto numa constante divagação - mas gosto de imaginá-la como o resultado inevitável da tentativa humana de impor ordem a uma existência naturalmente instável, combativa e permanentemente em desorganização diante da necessidade de controle do herói lukacsiano.

Mas e se por um acaso um escritor suficientemente sensível subvertesse tal padrão literário. Em Five Leaves Left, o herói de Nick Drake parece ser o próprio mundo. O embate não acontece contra a vida, mas dentro dele mesmo: um indivíduo emocionalmente desorganizado, taciturno, temerário e profundamente vulnerável à magnitude da existência. Essa ambivalência - ser simultaneamente atraído e assustado pela beleza desproporcional das coisas, ser inspirado e golpeado diariamente enquanto observa pela janela tanto a paisagem quanto o próprio reflexo - molda a espinha dorsal de uma das maiores coletâneas musicais da história e naturalmente o torna não só um artista, mas uma pessoa abordável. E tudo começa aqui: nas últimas 5 sedas restantes pro seu tabaco.

Como observador que não gostava de ser observado - conforme demonstra a capa, ele assiste o mundo de uma janela enquanto se esconde do outro vão - ou seja, do mundo lá fora - que também gostaria de observá-lo. Não aceitava que fazia parte desse ecossistema o qual ao mesmo tempo admirava e temia. Tudo era maior que ele mesmo, tudo era objeto de reflexão, o que também justifica a facilidade com que descrevia com tanta delicadeza e cuidado as inúmeras pequenas coisas que acontecem durante um dia, tornando elas em gigantes e comoventes montanhas de sentimentos (Betty came by on her way / Said she had a word to say / 'Bout things today / And fallen leaves - River Man).

Existe um verso de Bob Dylan em Mama, You’ve Been on My Mind - talvez uma de suas composições menos alegóricas e mais mundanas - que parece tocar exatamente nesse ponto onde a linguagem começa a falhar diante de sentimentos grandes demais para serem organizados em pequenas linhas: “Perhaps it's the color of the sun cut flat / And covering the crossroads I'm standing at / Or maybe it's the weather or something like that….

Dylan tenta racionalizar a própria emoção através de imagens concretas, seja a luz do sol, o clima, a paisagem, mas é justamente quando a tentativa colapsa, quando o “sei lá” se sobrepõe a todos os outros elementos nesse quase constrangimento diante da impossibilidade de explicar o que sente, que a canção encontra sua força.

Importante frisar que isso não é uma comparação direta entre os dois como poetas - mesmo se tratando de duas figuras que moldaram o folk como conhecemos - e sim apenas um exemplo da força de Nick Drake como compositor, que opera nesse território lírico que até mesmo Dylan se aventurava pouco e até hoje vemos liristas se aproximarem: Betty said she prayed today / For the sky to blow away / Or maybe stay She wasn't sure (River man).


Toda essa simplicidade emocional também se manifesta nos elementos sonoros que sustentam cada composição. Evidentemente, não na construção harmônica, onde rapidamente percebemos músicos absolutamente sofisticados moldando as hipnóticas melodias de Drake, mas na forma como essas canções se apresentam, recusando o excesso. Em Time Has Told Me, talvez a mais definidora introdução da carreira de um artista, ouvimos apenas o essencial: o violão do protagonista conduzindo a estrutura, uma guitarra discretamente reforçando o otimismo melódico, um piano preenchendo os espaços vazios e um contrabaixo sustentando tudo sem jamais romper a delicadeza da cena que ele pinta.

Os momentos mais dramáticos do disco estão em Way to Blue e Day Is Done, faixas onde a delicadeza dos dedilhados como principal guia da jornada dá lugar ao grupo de cordas orquestrais que tensiona certezas e reverberam o esgotamento existencial do eulírico. Seu violão é seu estabilizador emocional, e, dessa forma, se sentindo impotente em encontrar algumas simples mas filosoficamente intricadas sem ele, Way to Blue, atesta a esperança do cantautor no mundo. Só ele pode salvá-lo.

Já em Day Is Done ele resigna a qualquer tipo de fé. Retorna ao violão, seu escudo de madeira e aço e estabilizador emocional, mas agora não há mais conforto, apenas desesperança. Construída sobre 7 versos e nenhum refrão, causa a sensação de um ataque de ansiedade como se não existisse qualquer possibilidade real de alívio. Transforma o fim de um dia em algo muito maior do que um encerramento cotidiano: o crepúsculo serve como metáfora pro desgaste inevitável da experiência humana dia após dia, e o quarto verso, em específico, é a epítome da solidão musicada: When the bird has flown / Got no one to call your own / Got no place to call your home / When the bird has flown. Não há explosão dramática ou autocomiseração, apenas a aceitação cansada de alguém que parece emocionalmente exaurido pensando em viver o dia de manhã ao invés do hoje.

Mas esse tipo de postura é exceção a regra. Os acordes em Cello Song voltam a irradiar calor, ressoando dentro de mim como a lembrança de um lugar que eu havia esquecido existir. Os dedos dançam sobre as cordas mais despojados do que nunca enquanto as congas e os chocalhos ampliam sua potência imagética. Aqui eu ondulo junto a maré que me abraça e lentamente me devolve à segurança da margem.

Drake raramente parece apaixonado de maneira explícita, mas é perceptível quando uma canção nasce fora do eixo entre desilusão e melancolia (a flauta bucólica de Thoughts of Mary Jane evidencia isso com clareza). Essas composições contradizem diretamente o desalento de Day Is Done, sugerindo uma paciência contemplativa digna de alguém muito mais velho do que o jovem de vinte anos registrado na capa do álbum: “So forget this cruel world where I belong / I’ll just sit and wait and sing my song.”

Em Man in a Shed, o cantautor atravessa outra fronteira emocional importante. Durante quase toda sua obra, suas composições parecem habitar um monde onde não há amor interpessoal, apenas imagens naturais ou abstrações melancólicas dessas mesmas paisagens.

Aqui, porém, ele vacila e fica curioso pra deixar sua janela e desaguar pela porta de entrada. Quando canta “Well this story is not so very new / But the man is me, yes, and the girl is you”, essa vulnerabilidade inédita se transforma no arranjo mais embriagado do disco. O piano conduz a faixa com uma leveza errática, otimista, como se alguém te puxasse para dançar sem saber exatamente como conduzir - e ainda assim acertasse todos os passos. Existe um improviso e uma alegria torta percorrendo cada tecla, enquanto ele abertamente se disponibiliza a abrir a porta de seus celeiro desorganizado e aceitar ajuda do mundo exterior.

"Well this story is not so very new
But the man is me, yes, and the girl is you
So leave your house, come into my shed
Please stop my world from raining through my head
Please don’t think
I’m not your sort
You’ll find that sheds are nicer than you thought"
— Man in shed

Então, o que o tempo nos mostra?

Bom, o sol de sábado encerra o dia - e o disco - trazendo conciliação com a inevitabilidade das coisas, e explica como tudo acontece sem aviso ou padrão pré-determinado. Ou seja? Absolutamente nenhum controle sobre nada. E o próprio arranjo da faixa parece concordar com essa percepção. O vibrafone, surgindo de maneira inesperada pela primeira vez em todo o disco, colore a canção com uma inocência quase infantil, suavizando aquilo que, nas mãos exclusivas do piano melancólico, facilmente poderia soar apenas como uma canção triste sobre como a chuva de domingo se sobrepõe completamente ao sol de sábado.

Mas não se tornou. Pelo contrário: Saturday Sun funciona como um pequeno mantra sobre imprevisibilidade e sobre a confiança que depositamos na memória das coisas boas em meio aos maus dias. Também eternizou Nick Drake como meu escritor favorito nos momentos em que preciso sentir o próprio peso do meu corpo fazendo força contra os meus tornozelos. Sentir que estou vivo apesar de todas inseguranças, e que esse peso ainda prova que posso levantar, assim que a última das 5 sedas restantes acabe, pegar minhas chaves, abrir a porta e sair pra comprar mais.

O tempo não nos mostra nada, o que mostra são nossos olhos.

Pietro Stefani

Advogado predisposto a fazer tudo menos advogar e quando faz é ouvindo música no processo. Demasiadamente extrovertido e fã exagerado de muitas coisas.

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