Chico César @ Araújo vianna - 12/04
um espetáculo em formato de show
Escuridão e aquele silêncio que antecede qualquer show. Cadeiras do Araújo Viana repletas de um público que aguardava ansiosamente. Músicos se posicionam e luzes despertam, mas não as do palco e sim de acessórios luminosos: óculos que se acenderam. A imagem era futurística, mas os instrumentos eram clássicos. Assim foi a entrada da Nova Orquestra ao palco, antecipando a chegada do Chico César. Ao entrar e já com as luzes brilhando, Chico inicia seu show como um ritual.
Aliás, tem apresentações que a palavra “show” não é suficiente para descrever. Foi o caso deste espetáculo protagonizado por Chico César, no último dia 12. Em comemoração aos 30 anos de um álbum que já se tornou clássico da música popular brasileira, “Aos Vivos”, o cantautor dividiu o palco com a orquestra, trazendo toda a dramaticidade e ainda mais emoção às suas canções, já marcantes por sua voz e presença de palco inesquecíveis. Menção honrosa aos figurinos que, em tons de azul e vermelho, deram todo o destaque ao palco, ressaltando o tom ritualístico.
Aos Vivos trata-se do primeiro e um dos mais importantes álbuns de Chico César, que o consagrou como grande nome de uma nova geração da MPB, com grandes sucessos como À Primeira Vista e Mama África. O disco conta com letras de artistas como Itamar Assunção e Luiz Gonzaga, além de participação de Lenine e o guitarrista Lanny Gordin, nomes citados e homenageados durante o show.
Na quinta música do álbum, por exemplo, compartilhou a história por trás da canção Dúvida cruel, escrita por Itamar especialmente para a voz de Chico. Relembrando o amigo, brincou que, caso o público ouvisse uma voz grave cantando, seria a dele.
A poesia das letras não tem como passar despercebida. Em A Prosa Impúrpura de Caicó, Chico faz diversas brincadeiras com as palavras, chegando até a inventar algumas logo no início de seus versos. A canção faz referência a questões como crença, fé e saudosismo, trazido também no contexto dado pelo cantor. Ele explicou que a letra foi sim escrita em homenagem à cidade de Caicó, no Rio Grande do Norte, porém enquanto ele estava em Florianópolis, sentindo saudades daquele lugar que mora no passado.
A próxima do álbum, Saharienne também traz uma poesia intimista e romântica, definida pelo próprio Chico como sua faixa mais introvertida. Apesar disso, a música precedeu uma história engraçada de uma de suas apresentações no nordeste. O show prosseguiu com Mulher eu sei, que também integra a minha lista de preferidas do cantor, com os mistérios e sensibilidade do refrão.
“Eu sei como pisar no coração de uma mulher. Já fui mulher, eu sei.”
O disco seguiu com Clandestino, outro hit que foi agregado pela Nova Orquestra. Em “Paraíba”, canção de Luiz Gonzaga, Chico fez um pedido: alterar a letra, fazendo um revisionismo histórico e exaltando a feminilidade. O verso que era “Paraíba masculina mulher macho sim senhor” passou a ser cantado como “Paraíba feminina mulher massa sim senhor”, arrancando aplausos e elogios da plateia majoritariamente feminina.
O show prosseguiu com as últimas do álbum Dança” e Nato, junto à apresentação de toda orquestra, com muitos aplausos, principalmente ao baixista, que se destacou por dançar e cantar todas as músicas ao lado de Chico. E, como prometido, o show seguiu com extras. Logo no início do bis, no entanto, o som do Araújo foi de arrasta, durante a música “Palavra Mágica” praticamente inteira. Mesmo assim, a voz imponente de Chico e o coro incansável do público mantiveram o refrão “no gogó”.
Já com as questões técnicas resolvidas, Chico veio com a mais aguardada por mim: “Estado de poesia”, que certamente integra minha lista de músicas mais bonitas da língua portuguesa.
“Para viver em estado de poesia
me entranharia nesses sertões de você.”
Após cantar talvez sua canção mais conhecida, que furou a bolha da MPB, Deus me proteja, o espetáculo já caminhava para o final. Para finalizar, não podia faltar um protesto político claro, mesmo que, subjetivamente, todo o show tenha sido político. O público se despediu de Chico César ao som de Pedrada gritando “fogo nos fascistas” e com punhos levantados!