Artigo | LA Who Am I to Love You?
We dance on the H of the Hollywood sign,
’til we run out of breath,
gotta dance ’til we die.
(LANA DEL REY, 2017, Lust for Life)
Hollywood 900028 (1973) acompanha Mark, um jovem que se muda para Los Angeles em busca de um lugar na indústria cinematográfica. Diante das frustrações e das promessas não cumpridas, ele se deixa absorver pela indústria pornográfica que, nos anos 70, começa a emergir e ocupar espaços cada vez mais visíveis, principalmente em LA. Mark, formado em fotografia atravessado por essa imersão, desvia de seu caminho e encontra na indústria pornográfica as oportunidades de trabalho que não encontrou na indústria cinematográfica. Mesmo não sendo exatamente o que queria, se agarra à ideia de que pelo menos está fazendo cinema. Pouco a pouco, ele também é absorvido pela violência da cidade, passando a assassinar mulheres como uma resposta à junção de seus traumas de infância e a devoração silenciosa que a cidade exerce sobre ele.
O filme soa como uma sinfonia da decadência de Los Angeles, não apenas nos anos setenta, mas como um eco que atravessa toda a sua história. Em setembro de 1932, nove anos após a construção do letreiro de Hollywood, a atriz Peg Entwistle subiu cerca de 14 metros e se jogou da letra H. Aos pés da placa, deixou uma carta de suicídio, encontrada dois dias depois, na qual dizia “I am afraid, I am a coward. I am sorry for everything. If I had done this a long time ago, it would have saved a lot of pain.” Para Christina Hornisher, diretora e produtora do longa Hollywood 900028, a alma trágica de Peg não assombra apenas a letra H, mas toda a cidade de Los Angeles.
Peg, em seu último filme, Thirteen Women (1932), interpretou uma mulher comum que vivia em Los Angeles e que, atravessada por superstições e delírios, é levada à loucura até assassinar o marido. Na trama de Thirteen Women, o fim catastrófico de Peg é antecipado, como se Hollywood pudesse roteirizar o destino de quem tenta fazer parte dela. A coincidência transforma a atriz, inicialmente da Broadway, em um dos primeiros fantasmas de Hollywood e uma de suas vítimas de alma mais trágica.
Não só Hollywood carregava sua própria decadência, mas os Estados Unidos viviam uma crise no início dos anos 1970. O final da década de 60 foi marcante no país por uma série de acontecimentos fatídicos que romperam com a ideia de esperança construída ao longo dos anos, com o movimento da contracultura e os novos modos de vida que pareciam se encaminhar para uma transformação. Esse mesmo movimento acaba por encaminhar um início de década conturbado. A derrota no Vietnã, milhares de soldados mortos ou profundamente afetados e uma inflação crescente aprofundam esse cenário de esgotamento no início dos anos 70.
Christina Hornisher traduz isso por meio de uma câmera suja, uma imagem atravessada pela poluição, meio nublada e, na maioria das vezes, distante. Os planos frequentemente mostram grandes partes da cidade de longe, como se alguém estivesse registrando tudo às escondidas, algo que não pode ser totalmente revelado. Durante o longa, Mark habita de forma crua uma cidade fragmentada por vícios, prostituição e abismos, aceitando pertencer a apartamentos cercados de poluição, sempre às margens do letreiro.
Assim como Peg, Mark também é engolido por Hollywood. A queda do letreiro é brutal, mas o caminho até essa destruição é lento e moldado pelo desgaste cotidiano. Estrelas em ascensão são apagadas antes mesmo de existirem por completo, transformadas em lendas emblemáticas das muitas vidas que Hollywood engoliu para conseguir sobreviver. Em Hollywood 900028, há dois serial killers operando dentro do filme, Mark, o fotógrafo, e a cidade de Los Angeles. No fim, já não é mais possível distinguir onde um começa e o outro termina.
Ao fazer suas vítimas, o enquadramento insiste em nos mostrar o reflexo do olhar de Mark. Não há prazer e não há mais humanidade, apenas um olhar vazio e distante a Hollywood. As luzes da cidade já não brilham em seus olhos, e a promessa do sonho americano se torna um pesadelo. Suas vítimas são sempre mulheres com quem ele estabelece algum tipo de relação, o que soa inquietante pois em nenhum momento do filme ele consegue se relacionar de verdade com a cidade. Mark sente a necessidade de matar ao mesmo tempo em que parece não querer fazê-lo, diferente de Hollywood, que se alimenta de almas com prazer.
Ao realmente cometer o ato, Mark flutua entre lapsos de consciência e apagões, e só se dá conta do que fez quando tem uma mulher morta em seus braços. Assim acontece com Michelle, sua última e mais dolorosa vítima. Mesmo não querendo matá-la, Mark acaba fazendo isso sem perceber, em uma cena de sexo abstrata, que soa deslocada em um filme tão atravessado pela pornografia, mas que rapidamente se contamina pela violência. Alinhado com tudo o que há por trás dessa indústria, ele não consegue extrair dessa relação nada além da própria violência. E então, Mark se torna a personificação de todas as lendas hollywoodianas em um único corpo, reunindo em si tanto as vítimas quanto seus próprios assassinos.
Já as vítimas de Hollywood se espalham pela cidade freneticamente, onde tudo se torna descartável ao mesmo tempo em que vira consumo. A sequência de cenas do Mark passando pelos vários murais de LA sugere que ele já não tem mais nada a observar, ele nem sequer cogita olhar para aquelas pinturas. Ele já virou mais um mural da cidade, participa das imagens, é colocado dentro delas como um vestígio cinza, uma pixação em meio aos murais, aceitando pacificamente esse papel, conformado em ser apenas uma imagem a ser ignorada, juntando-se a Peg Entwistle e a todas as quase ascensões de Hollywood.
Mesmo sendo uma figura ignorada, Mark, em seu último ato, decide fazer um outro tipo de filme, igualmente obsceno. O câmera e fotógrafo que nunca tira retratos de si mesmo faz então o primeiro e último, no letreiro de Hollywood. No fim, o que resta para ele é isso, ele não tem amigos, não tem valores, está sozinho com a sua própria imagem obscena e turva projetada na tela. Ao lado do corpo já sem vida de Mark, na letra L, a palavra love, acompanhada do símbolo hippie aparece pichada no letreiro, e assim o letreiro ganha mais uma assombração. E eu me pergunto, não há amor em HollYwood?
LA, I'm from nowhere, who am I to love you?
LA, I've got nothing, who am I to love you when I'm feeling this way and I've got nothing to offer?
LA, not quite the city that never sleeps
Not quite the city that wakes, but the city that dreams, for sure
If by dreams, you mean in nightmares
(LANA DEL REY, 2019, LA Who Am I to Love You)