10 anos de: Everything You’ve Come To Expect (2016) - The Last Shadow Puppets

 
 

Alex Turner e Miles Kane percorrem às tangentes do mundo indie da década de 2010. Submissos às paixões e entregues a própria espiral de excessos.


Ligeiramente afastado do sucesso mundial do Arctic Monkeys e tendo menor repercussão que o álbum anterior The Age of the Understatement, o projeto de 2016 é lançado durante o hiato (2013 a 2018) da banda de Alex Turner. Ainda hoje, dez anos depois do lançamento do segundo (!!) álbum, o nome The Last Shadow Puppets chega como novidade em a alguns ouvidos. Alcançando visibilidade enorme no Reino Unido logo após o lançamento, para o resto do mundo pode ser visto como curiosidade sobre uma das figuras mais populares da música do século XXI.

Unindo-se a Miles Kane, músico de menor alcance a época, e a John Ford na produção, Everything You’ve Come to Expect tem o som recheado pela pressão sonora. E, junto do tumulto do apaixonamento, nos suspende temporalmente, atuando entre o nostálgico e o futuro — os violinos e as guitarras. Longe do retrofuturismo de Tranquility Base Hotel Casino (2018), a música da dupla britânica brinca com texturas barrocas, setentistas e o indie contemporâneo (da época).


Assim como um teatro de sombras, no qual as mãos dão forma a uma determinada imagem, a paixão muitas vezes aparenta ser algo que não é. No maravilhamento pela projeção imaginamos encontrar o amor que de fato sentimos em um amor que nunca esteve lá. Impulsionados por essa prisão que é o desejo, Kane e Turner trabalham tão bem a palavra que as cenas imediatamente se projetam na mente do ouvinte. Permeado pela sensualidade, mesmo retratando uma relação de partida delirante, é impossível não se contaminar pela voz aveludada e a necessidade de ver o que há por trás da cortina.

Como quem espia uma sala, Aviation desde a primeira nota sugere a ideia de um terreno desconhecido, que aos poucos revela sua beleza e seus perigos. Que a partir da dinâmica romântica que conduz a obra evidencia a necessidade de errar caminhos e posturas para acertar na sequência. Miracle Aligner, em ritmo valseado, desenha o encontro maravilhado entre amantes que nada esperam um do outro, mas estão dispostos a dar tudo. Dracula Teeth, impulsionada pelo violino cortante e conduzida junto ao baixo, provoca uma vaga mudança na atmosfera de deslumbramento. Um primeiro momento de dúvida se instaura. Do céu ao inferno, as relações aparentemente inofensivas tem efeitos irreversíveis.

Embarcando em uma trajetória ébria, a música título do álbum nos conduz as espirais da paixão. As artimanhas são tantas quanto o magnetismo. De algum modo se sentindo especial por causa dessa relação, tirando um pequeno deleite da destruição que a relação causa. The Element of Suprise, assim como a canção anterior, é um diálogo interno. Como a guitarra rítmica, a agonia de não ter autocontrole desemboca em Bad Habits, onde a pulsão se desloca da perseguição incansável, obsessiva e delirante da paixão diretamente para o corpo da música. O som, sendo matéria ,se expande e contraí, sendo emoção, encanta assustadoramente. Ganha mudança de ritmo e direção na música que melhor exemplifica a intensidade de ter imaginado se encontrar e se ver repentinamente perdido, sem qualquer ponto de apoio.

Não por acaso, encadeia-se Sweet Dreams, TN. Ponto alto da orquestra que acompanha as composições; a música perfeita da saudade doentia.

"I just sort of always feel sick without you, baby
I ain’t got anything to lick without you, baby
Nothing seems to stick without you, baby
Ain’t I fallen in love?"
— Sweet Dreams, TN

Os vícios são mais fortes que as virtudes em Used To Be My Girl. Atestando a fragilidade, aqui o jogo é dúbio. Mesmo afirmando que ela é a única que ainda exerce poder sobre o eu-lírico; por outro lado, afirma que ele é uma mentiroso é uma cobra pronto para receber amor e devolvê-la ódio.

"Finally I slipped out of reality.
It must all be imaginary.
She used to be my girl."
— Used To Be My Girl

Como um espectro que ronda, She Does The Woods e Pattern trazem de volta o tom assustador (o suspiro ao final de SDTW é um detalhe sublime), que paralisa. Caindo nos mesmos ciclos repetitivos, se arrepende.

"Midnight I’m like her specialty
She’ll outmuscle me
In the end
...
Midnight has got the hots for me
And I’m about to be
Born again"
— Pattern

The Dream Synopsis, um retrato humilhante do apego e da repetição no erro, em uma manifestação obsessiva da impossibilidade de libertar-se. Enquanto The Bourne Identity opera uma tentativa de distanciar-se de si mesmo, existindo um verdadeiro e um falso eu. Nesse jogo de espelhos, novamente sucumbe.


Talvez monotemático, Everything You’ve Come To Expect é contagiante pela forma. Muito maduro liricamente, além de divertido em suas pequenas piadas internas (vale a pena conferir a página da Genius sobre o álbum), expõe exatamente a mistura entre medo e fascinação dos amores pulsionais. A orquestra agregada a banda consegue criar uma sonoridade para fora do tempo. Não se escuta e imediatamente percebe-se quando foi gravado, agregando para a longevidade e para capturar possíveis fãs de outros repertórios musicais.

P.S: O álbum foi lançado em abril de 2016. Em dezembro a versão deluxe (masi facilmente encontrada que a primeita versão) vem ao mundo com quatro canções novas e duas regravações, todas já apresentadas no EP The Dream Synopsis (2016). São elas: Aviation — The Dream Synopsis EP Version; Les Cactus; Totally Wired; This Is Your Life; Is This What You Wanted e The Dream Synopsis (The Dream Synopsis EP Version). Nelas, o grupo experimenta um pouco mais a loucura que encontramos em canções como Bad Habits (Les Cactus; Totally Wired), assim como o derrotismo de The Dream Synopsis (This Is Your Life; Is This What You Wanted).

PC Peixoto

Narciso às avessas. Meu personagem favorito da Turma da Mônica é o Do Contra. Estudante de Letras, ciclista amadoríssimo, ouvidor de música e visualizador de filme.

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