Mac Demarco @ Araújo Vianna - 16/04

três não é demais

Créditos: @enzo_hofmann

Ritual indie no Araújo Vianna termina em discussão baseada em suposições. As oferendas consistiram em bigodes e franjas mal aparadas, ecobags surradas e pacotes de cigarro pela metade. Nenhuma memória juvenil saiu ferida.


Chuvas, parabéns e dupla grenal. No show vampiresco de Mac DeMarco, na sua volta à terra prometida de Porto Alegre, a última cidade da turnê brasileira, contou com hits e uma dominação carnal pelos instrumentos e luzes do Araújo Vianna.‍ ‍

Perante seus lacaios do mundo indie, o cantor canadense demonstrou familiaridade com o espírito provinciano dos gaúchos. Numa variação entre clássicos de sua discografia (Chamber of Reflection, Moonlight on the River, Passing Out Pieces) e grandes músicas do novo álbum (Phantom, Sweeter e Shining), o show carregou uma cadência fantástica, alinhada com o grande trabalho de iluminação que consagrou a dimensão espacial e atmosférica da banda.

Na sua performance corporal, elemento de extrema relevância que pode ser observado em seus clipes e shows, o cantor demonstrou uma variação entre comportamentos e vozes monstruosas; além de conversas com sotaque britânico com o público. Por fim, para estruturar uma presença narrativa que se construiu ao longo da noite, como uma espécie de variação entre Palpatine/Nosferatu do mundo indie, a sua corporalidade necessitava da presença do público para sobrevivência. Entre pedidos de doação de sangue e grunhidos monstruosos de difícil compreensão, Mac DeMarco se divertia com as reações. Lá pelas tantas, no final do show, o cantor já estava sem camisa e plantando bananeira, completamente restituído de energia. A sua pantomima é curiosa quando pensamos que aos trinta e cinco anos, com conversas de aposentadoria, querendo ou não, Mac Demarco se porta como uma figura envelhecida diante do mundo. O medo da morte, presenças fantasmáticas e feitiços, todos são encontrados nas letras de Guitar, álbum que ancora a turnê,  porém seus lacaios e amantes o preservam, talvez de maneira obsessiva,  garantindo a sua presença viva no mundo material. Alimentado e pronto para continuar, a música reverberou pelas paredes do Araújo os medos e anseios que todos nós recebemos. 

"I am terrified of dying
That old gift we all receive
Like a leech stuck on
Your heart belongs
To me and only me"
— Phantom, Mac Demarco

‍Confesso que, ao decorrer do show, só pensava na mudança de local realizada algumas semanas antes pela produtora. O show deveria ser realizado no Opinião, onde sua temática intimista e compatível com o cantor causariam laboriosos sentimentos nos espectadores, porém, por decorrência da grande demanda de compras e a veloz venda de ingressos, mudou-se o local para o Araújo. De qualquer forma, a Redenção já era um local familiarizado do cantor.

Em 2014, na sua primeira vinda a cidade, Mac DeMarco realizou o conhecido vídeo de Salad Days no parquinho da Redenção. Navegando pelos ares e árvores, o cantor desfruta da paisagem porto-alegrense. No vídeo podemos ver uma lotação em certo momento. E pensar que naquela época a passagem custava 4,20. Fico pensando se no show realizado em 2014 e 2015 (na segunda passagem do cantor pela cidade) houveram brigas referente a dupla grenal e parabenizações gauchescas.

Passados mais de 10 anos longe das ruas de Porto Alegre, conversando e interagindo com a plateia, Mac DeMarco consagrou o pacto de sangue entre os porto-alegrenses. Neste encontro, cantou-se direcionado ao baixista da banda, que estava de aniversário,  parabenizações em inglês, português e uma tentativa falha do gauchesco, demonstrando a falta de ritmo e bairrismo da plateia. Tais elementos tomaram  proporções absurdas a partir do momento que jogaram uma bandeira do Grêmio no palco. O alvoroço foi grande, mas a derrota foi clara. O cantor, ouvindo os gritos da plateia, jogou-a no chão e a chutou, só faltava cuspir em cima. Os colorados, que eram maioria no recinto, providenciaram a vinda, dos céus, da bandeira do Inter. Estava proclamada a vitória.

Se prontificando dos gritos de alegria, o cantor canadense, que depois demonstrou em entrevista a sua relação antiga com o time colorado, colocou a bandeira em cima do amplificador. Porém, a choradeira dos gremistas foi tanta que o show não pode continuar até a retirada da bandeira. Entre gritos e berros, o grande Colorado Mac DeMarco seguiu o seu espetacular show na cidade de Porto Alegre, demonstrando que na próxima vez talvez demore tanto tempo para retornar.


Crédito: @enzo_hofmann

‍Em suma, o show foi impressionante, pelo menos pra mim, onde possuo um certo apego nostálgico e sentimental das músicas tocadas. O cantor parecia demonstrar uma empatia com o público que o acompanha a mais de uma década, desfrutando dos gritos irreconhecíveis  e orquestrando as múltiplas palmas em músicas específicas.

‍ Ao final do show, milhares de fãs se prontificaram para doação de sangue solicitada (para interesses pessoais) pelo cantor no seu entre músicas, mas, infelizmente, por motivos incertos, o cantor fugiu pelas sombras e neblinas da Redenção, deixando seus lacaios desesperados aos gritos. Felizmente, este jornalista[1], que vos fala, pode conferir uma entrevista[2] inédita. Amparado pela essência da verossimilhança e verdade, Mac Demarco discorreu sobre o seu amor pelo colorado e suas considerações acerca da “Cena” porto-alegrense.

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           Grandes falas e mensagens do (suposto) primeiro colorado indie canadense porto-alegrense frequentador da Cidade Baixa. (Para acessar a entrevista completa recomenda-se a tentativa de psicografia).  

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[1] Não sou jornalista

[2] Realizado em sonho pelo proponente do texto

Lucas Machado Rodrigues

Graduando em Letras, amante de anacronismos e pinturas que não sei o nome. Pesquiso o cinema do Júlio Bressane e a literatura de Oswald de Andrade. Gosto dos filmes do John Ford, Godard, Alfred Hitchcock e Chantal Akerman.

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