Crítica | Jim Legxacy - Black British Music
A soma de tudo que se vive
Em sua terceira Mixtape, Jim Legxacy flutua entre vulnerabilidade e confiança, misturando gêneros sem qualquer padronização ou hesitação.
Indo direto ao ponto, Black British Music não é um disco que nasce da inspiração no sentido romantizado do termo. Tampouco parece fruto de um esforço disciplinado, dessa lógica quase industrial de criação que pressupõe método, repetição e lapidação contínua. Não há aqui o gesto de alguém que acorda antes do sol pra dizer que já tem sua primeira vitória do dia. Jim Legxacy vive em meio a perdas (context), então o que se impõe é outra coisa: impulso. Um impulso que não se deixa enclausurar por conceitos fechados. Que recusa a esterilização criativa em nome da coerência estética. Ao contrário, o disco permite que novos organismos surjam e coexistam dentro dele, mesmo que isso implique em contradição. E dessa contradição nasce algum tipo de felicidade.
Nesse sentido, é, antes de tudo, um trabalho sobre escrevivência e, sobretudo, uma história sobre riscos - principalmente de ser quem se é. A aparente altivez do título funciona quase como uma armadilha semântica. Longe de propor um modelo ou reivindicar centralidade dentro de um cânone da música negra britânica, ele parece interessado em deslocar a própria ideia de cânone: não como algo a ser seguido, mas como algo a ser dissolvido. Pra ele, musica não é identidade imutável, é extensão direta do sujeito, de tudo que ele já viveu e com todas as suas instabilidades.
Então, sob a alcunha de rapper, ele tensiona expectativas ao inserir faixas como dexters phone call, um desabafo hipersentimental que une cordas acústicas a teclas futuristas. A languidez vocal se apoia sobre um violão seco e abafado, que parece se recusar a reverberar para além de si mesmo. Ao fundo, latidos inofensivos - possivelmente de seu próprio cachorro ainda filhote - atravessam a mixagem e, nesse gesto quase irônico, acabam por amplificar o peso do que é dito: “There’s plenty things I can’t see, but I feel them come to bite me / I’m stuck in a loop, been away for some time / I could hide in a corner, pretend that I’m fine, but I’m not.”.
Há também uma recusa deliberada da obsessão contemporânea pelo “novo”. Jim Legxacy se debruça sobre a nostalgia sem o peso da obrigação de reinvenção constante, como quem entende que revisitar também é um gesto criativo legítimo. Afinal, o que ele constrói aqui não é um álbum, e sim uma mixtape em seu sentido estrito - uma colagem de músicas que tomam forma como um arquivo emocional e cultural fragmentado.
Em 06 wayne rooney, essa operação se evidencia com ainda mais precisão. A escolha do título não é gratuita: Wayne Rooney, um dos grandes jogadores de futebol da história inglesa, em 2006, encarnava uma promessa em estado bruto.
Então Jim Legxacy se apropria dessa imagem saudosista não para celebrá-la, mas para deslocá-la para um ponto de vista diferente. Dos timbres de guitarra - que evocam uma nostalgia quase imediata dos anos 2000 - ao refrão deliberadamente simplificado e melódico, tudo parece operar no campo do reconhecimento. É uma memória coletiva acionada de forma quase automática. Comentários no youtube ecoam em uníssono: “isso me lembra tanto algo da setlist do FIFA 16”. Justamente aí que reside o gesto mais interessante: ao construir esse ambiente familiar, quase confortável, ele cria uma superfície de acesso fácil apenas para tencioná-la por dentro. A forma acolhe e sua escrita desestabiliza. O que se infiltra por baixo dessa camada saudosista são questões muito menos palatáveis: encarceramento, falhas estruturais na educação da população negra britânica, o apagamento de identidade e uma corrosiva ausência de crença em si mesmo, afinal os únicos ídolos de uma geração eram alguns brancos desequilibrados - e que podiam recomeçar quantas vezes quisessem.
De alguma forma, Jim Legxacy encontra esperança justamente naquilo que parece inevitável. Não se trata de abdicar da mudança, mas ele reconhece que, para além do desejo de transformação, há uma persistência estrutural da dificuldade. Se os sintetizadores de context nos arrastam para uma espécie de lama densa e emocional, stick surge como o sol entre as nuvens, abrindo espaço para uma luminosidade inesperada. O coro e os vocais quase angelicais não negam o peso música anterior, mas o ressignificam. Aqui há uma virada sutil: a aceitação abre o panorama, e ele não proporciona a exclusividade de sua atenção pra algo que ele não vai mudar.
Essa oscilação revela uma das qualidades centrais do disco. A versatilidade de Jim Legxacy é a de um canivete suíço: não porque ele tem todas as respostas, mas porque pode improvisar e encontra saídas provisórias dentro de um repertório amplo de possibilidades. “She don’t like no rapper, so I told her I’m a singer”, canta ele, encenando uma espécie de persona instável dentro de sua fantasia caótica de David Bowie.
Essa instabilidade reflete na própria estrutura sonora: violões de notas dispersas, quase desordenadas em new david bowie, dão lugar abruptamente a uma ambiência lo-fi que flerta com o R&B, sustentada por uma percussão mais orgânica, atmosférica e dançante.
Nessa toada, percebe-se que não há transição suave entre as faixas. O que se constrói é uma simulação divertida de uma estação de rádio FM, não apenas pela justaposição das músicas, mas também por esses pequenos interlúdios, quase como anúncios, que funcionam menos como ponte e mais como uma lembrança que isso, de fato, não é um álbum (We're listening to Jim Legxacy right now, so shut the fuck up). É no descartável a olhos nus e no excesso que o disco encontra sua coerência, estimulando nossos sentidos e nos deixando desconfiados de que qualquer elemento, por menor que seja, pode atravessar a superfície e desencadear novas explosões de sentimentos.
"I’ve always been scared of being myself
Of letting my heart speak before I speak
I will rise, but I may fall
And my heart’s filled with issues of trust when my dad
I still cannot talk about it"
issues of trust surge, então, como uma espécie de assombro dentro desse fluxo. Uma colagem fantasmagórica em que camadas se sobrepõem e se retraem sem qualquer aviso: violinos que sopram rente ao ouvido enquanto o dedilhado ancora a faixa com delicadeza, e vozes femininas que evocam a presença íntima de sua irmã mais nova. No centro disso, ele está à beira do colapso, como se cada verso pudesse ceder a qualquer momento. Há aqui uma sensibilidade rara, que remete tanto à sensibilidade de Frank Ocean e à vulnerabilidade mais crua de Kevin Abstract em seus melhores momentos.
brief, a faixa de encerramento, encontra seu lugar sobre um groove que flerta guiado pelo afrobeat e com teclas que cintilam como um sonho em estado frágil. Ele retorna para o que talvez seja o eixo vetorial do disco: a convivência entre perda e permanência. “Always, I live my life like a heathen / Daddy’s mistakes I’m repeatin’ / The loss of your life, I’ve been grievin’ / I wish I could ask how you been keepin’ / There’s a hello, then there’s goodbye.”
Por mais que doa, tudo se constrói nesse ciclo inevitável entre chegada e partida. Entre “ois” e o “tchaus”, acumulam-se experiências que nos atravessam e nos refazem, nos expandem, nos quebram, nos transformam. Somam-se as infinitas possibilidades de existir, das mais belas e contagiantes as mais tristes e vulneráveis.
Esse é o início do legado de sua música.