Crítica | 10 anos de: Castelos & Ruínas (2016) - BK
De Olho No Mundo
Indispensável para entender os rumos do cenário musical brasileiro, BK eleva o nível do jogo.
Motivado pelo anúncio da turnê de uma década, me vi obrigado a escrever sobre esse disco. Obrigado porque é, possivelmente, o segundo álbum de rap que eu mais ouvi na vida (o primeiro também é do BK), e foi um divisor de águas não só para mim pessoalmente. Adiantando em um ano o que viria a ser chamado de ano lírico, Castelos & Ruínas foi responsável por reintroduzir no Brasil, e me apresentar, um hiphop que ia para além da jocosidade de grupos como Costa Gold e Cone Crew Diretoria. Óbvio que haviam outros jeitos de fazer hiphop, mas a essa época parecia que o mainstream só conhecia o Emicida.
Apostando em uma atmosfera de neblina, o álbum constrói a mitologia de um rapper que seria expandida nos trabalhos seguintes. Em busca de equilíbrio entre os polos positivos (castelos) e negativos (ruínas), o reconhecimento da insignificância pessoal em contraste com a vontade de ser gigante não cria imagens, mas um estado de reflexão permanente. Um disco de contemplação em movimento.
Não à toa, três das faixas da primeira metade do álbum trazem a noção de espectador à tona a partir do título: Sigo na Sombra, Quadros e Visão Ampla. A primeira faixa, e inaugural do disco, é um microcosmo do que seremos expostos a seguir. Como um combatente urbano, o narrador observas as cenas das periferias, procura meios de se integrar a esse espaço dividido que é a cidade e busca uma forma de se impor que se oponha a lógica falseada de respeito que já era traçada uma década atrás (“na era onde se impor é digitar com caps lock”). A segunda canção estabelece, em passos lentos, assim como o beat marcado e dilatado, o movimento de quem quer se prova. Sem se expor a riscos desnecessários, é entre a percepção do amadurecimento e responsabilidade que vem com a idade e a palavra que o cantor desmascara a hipocrisia na criação de ícones:
"Heróis vestem capa, salvam pátrias, detêm balas
Medalhas de prata não valem nada
Batalhas são quadros de um passado inalterado
E o que resta sempre são quadros
Os copos gelados trazem corpos gelados à tona
Dizem que a morte é o preço da honra
Eu não sei, homens seguem leis
E mesmo assim morrem por causa das leis"
O rap é, além de crítica, ritmo e poesia, um jogo de exaltação de si mesmo, a construção da autoimagem. Tradição que se estende milhares de anos, a de afirmação da capacidade lírica, é tão séria quanto os temas de desigualde, desamor ou qualquer outro que possa permear as canções. Ainda em Quadros, fica clara a intenção de elevar o nível do rapgame, ao mesmo tempo que para isso precise “destruir” (ou melhor, retomar) o era feito antes (Se não pode com eles / Junte-se a eles, faça parte deles / Infiltre-se neles / E quando tu tiver lá dentro, mate todos eles). Visão Ampla, então, escarara essa violência. De BPM mais alto, é a canção que desperta o ânimo dentro do álbum. Se antes a condução era com a marcha de um soldado, agora ela vem como uma cavalaria.
A partir das próximas faixas, a voz de Abebe Bikila amadurece. Ainda não como homem decidido, mas com a sabedoria da dúvida. Entre antíteses, como o próprio título já revela, a dúvida paira entre o indíviduo e o coletivo que o cerca. Os deuses abandoram os homens e não há onde sustentar a esperança, por isso, as canções ganham a força de um louvor. Em Caminhos, trilhar um caminho entre o céu e o inferno parece a única opção em uma Terra que “não era um bom lugar”, buscando um recomeço pelo próprio ímpeto.
Ápice narrativo, que vem na canção que dá nome ao disco, a dúvida se torna oportunidade:
"Tô de rolé pela minha rua de olho no mundo
Tô de rolé pelo meu bairro de olho no mundo
Quero saber o que que o mundo tem pra oferecer
O que que a vida tem pra oferecer"
No meio de todas os questionamentos e supervalorizações, o disco ainda se mantém terreno. Amores, Vicíos e Obsessões confirma que mesmo em busca da coroa, BK sabe que é humano e não deixará de ser. São dilemas relacionais e de carreira que atravessam, na época, um jovem de 25 anos que não quer esperar o amanhã para ser grande. E sabendo de sua insignificância, só lhe resta tentar a sorte:
"E ela dava pra outro cara,
deu pra mim, viu que eu sou o cara
Já não pode me ver cara a cara,
ser rainha? A coroa é cara
E eu aposto no cara ou coroa, se tu ficou, afunda a canoa
E eu não ligo de gastar palavra,
o problema é gastar tempo à toa, é
Você tem algo a perder?
Ela disse: “Tenho nada”
Perguntou se eu tinha alguém, eu disse: “Tenho nada”"
E a partir daqui o álbum caminha para seu final introspectivo. Um Dia de Chuva Qualquer e O Próximo Nascer do Sol, não apenas mantém a iconografia litúrgica e as oposições que vem desde o princípio da obra, mas ganham força por encerarem a obra e não a vida. O pessimismo da primeira é anteoposto à esperança da segunda mesmo que nenhum dos sentimentos seja permanente.
Transitório em essência, Castelos & Ruínas se tornou o oposto disso. Fundamental para as guinadas que o gênero deu nos anos seguintes, seja por influenciar diversos outros da cena que encontraram no flow e nos beats de BK uma identidade para o seu rap ou simplesmente por tirar o gênero da mesmice e marasmo que a alguns anos prevalecia. É nessas dúvidas (de que caminho tomar?, que homem ser?, o que produzir no mundo?) que podemos olhar para as dualidades que nos compõe e tratar de ser algo diferente. Não abominando desafetos e inflacionando riquezas: “Fecham sinais, avanço. Erguem muros, avanço”.