Crítica | Phoebe Bridgers - Lost Weekend
Rastejando até belém
Em seu terceiro e aguardado álbum de estúdio, Phoebe Bridgers busca reconstruir uma vida depois que as narrativas que a sustentavam deixaram de existir.
Joan Didion, em um dos ensaios mais definidores de sua carreira, encontrou no conceito de atomização uma forma de nomear a própria sensação de desintegração. Foi para São Francisco porque não conseguia trabalhar havia alguns meses, paralisada pela convicção de que escrever era um ato irrelevante e de que o mundo como ela o entendia já não existia. Durante seu tempo lá, observava e entrevistava crianças e jovens que escaparam de casa e de suas famílias, numa tentativa de emancipação no auge da contracultura hippie, em busca de salvação e inspiração:
Foi a primeira vez que lidei direta e francamente com a evidência da atomização, a prova de que as coisas se desfazem: fui a São Francisco porque não conseguia trabalhar há alguns meses, estava paralisada pela convicção de que escrever era um ato irrelevante, de que o mundo como eu o entendia não existia mais. Se eu quisesse voltar a trabalhar, precisaria me reconciliar com a desordem.
Didion precisava voltar a se sentir viva. De uma forma ou de outra, voltar a ser protagonista de suas próprias decisões. Sem julgamentos ao que se apresenta e sem auto-condescendência: observar novamente de forma ativa, com liberdade, e exercer aquele extraordinário poder de síntese aliado a uma memória tão precisa quanto um disco rígido.
O mais curioso desse ensaio, apesar do tempo dedicado à observação e à coleta de material, é que parece acontecer em questão de dias. Dinâmico e acelerado, com diversas subtramas se desenvolvendo parágrafo após parágrafo, o texto produz a sensação de uma realidade que não apenas está desmoronando, mas sua noção de tempo também.
Lost Weekend, o novo álbum da voz do indie folk desta geração, precisou de seis anos para suceder Punisher, trabalho que consagrou Bridgers ao status mencionado acima. Nesse intervalo, a cantora passou por luto atrás de luto. A morte de seu pai, com toda certeza o mais complexo deles, atravessa sua vida como uma espécie de ruptura do centro criativo e afetivo que organizava toda sua existência, e, por consequência, os anos seguintes se tornaram um intervalo de observação, silêncio e anotação, até que ela pudesse transformar a ideia de um período de descontrole em algo mais amplo: um intervalo de vida em que você se perdeu de si mesmo. Uma semana perdida.
The Outside pega toda essa confusão humanística que é perder alguém tão próximo e a escancara. Totalmente dissociativa, o vocoder transforma a voz da cantora em outra pessoa, enquanto suas composições, metaforicamente diretas, parecem descrever a experiência de assistir a si mesma de fora no funeral do pai: Crying in a suit and tie, but you should see the other guy. Sua voz volta ao normal apenas no refrão, quando retorna ao próprio corpo e admite a si mesma o que está acontecendo. A sensação que fica é a de uma faixa de encerramento, e o fim de algo passa a representar o começo de uma vida completamente diferente.
Em contraste com o clima rarefeito estabelecido pela primeira faixa, a cantora assume o papel de Wendy na típica faixa-single que a define como estrela pop desde Motion Sickness e passando por Kyoto. Sua melodia chiclete, acompanhada por trompetes evocativos das faixas mais animadas de Sufjan Stevens em Illinois, brinca ainda com elementos sonoros medievais e abre espaço para uma leitura quase freudiana sobre si própria: a predisposição a manter por perto homens permanentemente presos à própria adolescência: Lost boys, come find me.
Ela, então, encontra espaço para falar sobre seus romances recentes de forma excepcional. The Governor’s Waltz é quase uma valsa, com sua linda melodia, mas também propõe uma canção de ninar através do delicado dedilhado de violão (mesmo que ela emocionalmente recue quando canta watch me pretending to sleep). Ela perpetua um rito diegético ao mencionar Dancing Ourselves Clean, do LCD Soundsystem, durante um um ano novo, enquanto as pessoas à sua volta começam a contagem regressiva para os fogos de artifício. Sua ponte surge como um rito de passagem religioso, uma desintoxicação, e ela retorna no último refrão - diferente dos dois anteriores - usando o pronome inicial no singular. O We se torna I logo na primeira linha, e ela coloca o ponto final na história com o irlandês de olhos azuis.
Bobby se torna quase um show de stand-up, mergulhado em cordas (banjos, violões e diversas guitarras) e exageros narrativos. Abandona os arranjos mais silenciosos, predominantes até aquele momento, e dá vida à faixa mais energética de toda a sua discografia solo, pontuando com excelência lírica o amor em suas contradições, não em suas semelhanças:
Now I sleep in your shirts and you live in my house
You sing in the shower, I talk to myself
We've got stars on the ceiling and clothes on the floor
And a thing in a box I don't touch anymore
Haunted é a música mais Taylor Swift do disco - ou o que as músicas dela deveriam tentar soar depois de folklore. Bebendo de sua grande fonte de inspiração, Conor Oberst (I've been daydreaming about sleeping / But by the evening, I'm wide awake), a faixa, com seus lindos violinos em consonância com o intenso violão, produz um quase otimismo, sempre sabotado pela autodegradação. No último refrão, a faixa se entrega por completo à sonoridade americana/country, a percussão explode, e as botas marcam o compasso sobre a madeira desse salão assombrado.
Essas novas explorações, no que tangem à sonoridade e estrutura, aparecem justamente como a distração e a mudança de ares necessárias para um eventual retorno a si. Seu som, depois de metade do disco ouvido, parece menos expansivo que seus trabalhos anteriores e conta também com mais músicos à sua volta, ajudando-a - como acontece na linda I Can’t Wait, com Cameron Winter e o já mencionado Conor Oberst. Quando, porém, as distrações cessam, é quando o disco perde um pouco de apelo - como em Kill Me, uma espécie de réplica de Scott Street, ou Other Plans, canção que parece querer avançar mais do que o próprio corpo dela consegue acompanhar.
Todavia, é justamente após a oitava faixa que ela finalmente acha forças para retornar ao ponto central da narrativa: sua relação com o pai. Em Still Standing, a gaita introduz uma revisitação a um passado distante, mas que não deixou de acompanhá-la por toda sua vida com sua carga traumática. Os sintetizadores funcionam como bons ornamentos atmosféricos, mas, apesar de tudo, este é o tipo de canção que carrega toda a potência acústica de Phoebe Bridgers. Sua versão cantora-compositora brilha, e os holofotes miram nela, sentada em um banco, com seu instrumento de madeira. Apenas isso seria necessário para uma faixa como essa. Porém, o outro ainda surge como uma catarse necessária e fantasmagórica, justamente no momento seguinte àquele em que ela agradece ao pai por tudo.
O último grande momento do disco acontece na cinematográfica As Above. Aqui, uma representação do que muito ouvimos em Punisher reaparece: Bridgers tensiona a atmosfera até o limite, acumulando silêncio, espaço e expectativa pra, enfim, romper tudo com a potência emocional de sua voz. É o único momento em que se permite abandonar completamente a contenção que atravessa o disco e simplesmente gritar como se tudo aquilo que vinha sendo cuidadosamente reprimido finalmente encontrasse uma fresta para escapar.
Sua chegada a Belém, na reprise de Lost Weekend, é acompanhada por um órgão típico de catedral. Escutam-se sussurros e latidos de cachorro na mixagem. Ela não pode ser a mesma. Conheceu pessoas, amou e decepcionou-se com elas, viu versões de si mesma refletidas na retina de outros que jamais imaginou conhecer. Viu um pedaço seu morrer e percebeu que toda essa jornada não é sobre cura. Não há verdadeira salvação em lugar nenhum, apenas novos centros de desordem que, inevitavelmente, nos fazem sentir vivos e funcionam pra nos inspirar a escrever.
Now I can't see any stars in the sky
When a dream comes true, a fantasy dies
But we're gonna be alright, me and you
You love me and I won't еver let you forget, not yеt