Crítica | O Fim da Rua (2026)

imax, director jail e dinossauros maneiros

 
 

Um filme, além de tudo, comercial, mas com alguns asteriscos. Marcando a volta de David Robert Mitchell às telonas depois de oito anos.


Acho importante começar falando sobre o IMAX, que no caso dessa crítica, o considero um assunto mais relevante* do que o filme.

Teve todo o bafafá envolvendo a exibição de A Odisseia (2026) — tem crítica no site caso queiram ler — que não vou comentar pois não participei da discussão e não assisti ao filme. Porém o tema está em alta e tenho alguns comentários a fazer.

Casualmente, a cabine de imprensa em que assisti a O Fim da Rua era a mesma que estava exibindo o filme de Christopher Nolan. Até agora, não foi anunciada em Porto Alegre uma sala que vai exibir o filme em IMAX, ou seja, eu e meus colegas de sessão vamos ser os únicos gaúchos a vê-lo dessa forma. 

Ficamos na altura do meio da tela, possibilitando uma sensação de estar sendo engolido pela projeção, sensível a cada mudança na encenação do filme. Ajuda muito também entender inglês fluentemente, sem ter que abaixar os olhos para ler a legenda. No caso de um filme como O Fim da Rua, que não se esforça tanto para direcionar o olhar do espectador em algum ponto do plano não faz tanta diferença, mas…

Esses dias assisti, no cinema, a Bom Dia (1959), de Yazujiro Ozu**. O filme é em japonês, mas mesmo sem entender a língua, devo ter passado mais da metade do filme sem ler legenda. Tamanha a importância da blocagem e enquadramento no cinema de quem eu considero o diretor mais importante de todos os tempos. Não sei o que não faria por ver um filme dele em IMAX.


David Robert Mitchell estourou com Corrente do Mal (2014), teve um fracasso comercial com O Mistério de Sliverlake (2018) e agora entrega O Fim da Rua, um blockbuster de 100 minutos. They Follow, a sequência de Corrente do Mal, que atualmente está em filmagens, foi anunciada em outubro de 2023, bem antes da estreia de O Fim da Rua — as filmagens dele, aliás, atrasaram por causa da greve de Hollywood daquele ano.

Para os padrões do blockbuster contemporâneo, é um filme curto. Isso é raro num momento em que os filmes precisam ser longos para justificar a ida a um cinema de shopping cada vez mais caro. Fico me perguntando se não é uma questão contratual — o compromisso com They Follow (que já está filmando agora, no verão de 2026) pode ter empurrado Mitchell para entregar isso logo e seguir adiante. Me lembrou uma entrevista que eu li um tempo atrás:

Todos nós queríamos fazer parte do studio system. Eu era o mais iconoclasta do grupo e o mais desencantado com o studio system, porque ele tinha um efeito corrosivo sobre os seus filmes. Basicamente eles querem que você duplique a mesma coisa repetidamente. Eu sempre achei que isso não era bom para um artista. Eu entrava e saía do studio system. Mas você precisa fazer sucessos de bilheteria para poder fazer filmes. Então eu entrava e fazia um hit, depois conseguia fazer alguns filmes estranhos, mas no fim tinha que recomeçar tudo de novo.***

— Brian de Palma, em entrevista para o IndieWire


A partir daqui, o filme em si. Por mais que seja um blockbuster tradicional na superfície, tem momentos muito autorais: a lente split diopter, zooms muito agudos. Técnicas que o diretor empregou em O Mistério de Silver Lake como referência para invocar uma genealogia do suspense de conspiração hitchcockiano, mas que aqui ele já apropriou como estilo próprio. Dá para ver que ele se diverte muito filmando, acho bonito vê-lo se encontrando artisticamente.

O olhar destinado aos dinossauros é de diversão

O olhar destinado aos dinossauros é de diversão

Cada um dos personagens da família Platt tem suas tretas no mundo real, e o filme usa isso, mais ou menos, para dizer que os problemas dessas pessoas só existem, em algum nível, quando elas estão inseridas na sociedade. Greg (Ewan McGregor) perdeu o emprego, está fazendo bico como entregador de pizza escondido, bebe escondido. Denise (Hathaway) esconde da família um romance que escreve em segredo, sobre uma mãe que sonha largar tudo e recomeçar. É esse manuscrito, descoberto pelo pai da família, que detona a crise do casal. Audrey, a filha mais velha, sonha em estudar astronomia longe dali e se sente desconectada dos colegas. Brian, o caçula, sente o fim do casamento dos pais se aproximando e começa a dar os primeiros sinais de rebeldia — como quando ele derruba um menino de sua bicicleta, fazendo com que seu irmão mais velho o perseguisse em vingança.

O filme, gosta do fato de que os dinossauros vieram e, de certa forma, consertaram a vida de todo mundo, como quando os bullies do Brian desistem do bullying porque aquilo simplesmente deixa de fazer sentido nesse mundo novo. Tem também aqueles pequenos momentos: a cena da menina chorando ao escutar a música de que ela gosta, num mundo que não tem mais música. Denise e Greg, se resolvem, ao ver que seu amor importa mais que quaisquer tensões da contemporaneidade.

Esse gosto pelos dinossauros aparece na forma como eles são “filmados”. Sempre no centro do plano, a câmera “acompanha” o movimento dos répteis, interessando-se mais no que eles estão fazendo, do que no terror e destruição que estão causando. Pouquíssimos close-ups de rostos aterrorizados ao longo do filme, há um momento muito bom no miolo do filme que ilustra bastante minha argumentação. Ao encontrarem dois braquiossauros copulando, ao invés de fugir, Greg e Denise, ao invés de fugir, escolhem tirar uma foto.


Uma coisa que reparei é a noção de espaço que Mitchell usa aqui, diferente do jeito que ele constrói espaço nos outros filmes dele, os dois com muita correria, com uma diegese que se renova constantemente. Em O Fim da Rua parece que ele tem uma noção mais fixa de que "essas coisas estão nesse lugar". Tem uma cena, claro que é uma técnica básica, mas a Anne Hathaway fala do leite na geladeira que vai estragar com a falta de energia. Depois disso, a bebida se faz um objeto cênico muito presente, voltando várias vezes na tela. É um tipo de blocking que reforça essa ideia de espaço fixo, quase doméstico, em vez do espaço fugidio de perseguição que domina o resto da filmografia dele. Denotando as relações das pessoas, ao invés de retratar a relação com os locais.

No fim, é um filme de família muito divertido.


* Se estivesse escrevendo uma crítica sobre They Follow, talvez a discussão sobre a crítica em si fosse mais interessante do que a da sala de projeção. Estou com altas expectativas.

** Recentemente saiu no site uma crítica de Pai e Filha (1949). Filme colossal e ótimo texto.

*** Tradução própria.

León Tourrucôo

Fã de xis vegano e de caminhar de noite. Uma vez programei Brown Bunny (2003) pra passar às quatro da manhã no cinema e ja vi a Luisa Arraes na rua e falei: "Meu deus, a Transe (2022) da silva", acho que ela não ouviu.

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Martinho da Vila @ Araújo Vianna - 15/08