Martinho da Vila @ Araújo Vianna - 15/08

Devagarinho é que a gente chega lá

Aos 88 anos, Martinho da Vila é ritmo, riso e samba


No dia 15 de agosto, quando o cantor Martinho da Vila subiu ao palco, o calor do sol da tarde ainda aquecia Porto Alegre, e a temporada de chuvas, um clássico para o mês de agosto, ficava temporariamente de lado. Muitos diriam que foi coincidência, um evento meteorológico ou até milagre, mas assim que o auditório Araújo Vianna foi preenchido com sua imponência, passei a acreditar que uma força da natureza reconhece a outra. E nenhum clima seria melhor para receber o sambista do que aqueles 23 graus em meio ao inverno gaúcho.  

Sob luzes azuis, com os punhos cerrados junto ao corpo e uma voz capaz de atravessar a multidão, iniciou Martinho, à capella.

Surgi nadando
Na bolsa d'água
E dei um choro
Quando nasci

Mamei no peito
Fui bem criança
Já trabalhando
Adolesci

Tive direito à
Felicidade
E como todos

Também sofri

Da grade, três coisas me chamavam a atenção: seu sorriso ao declamar os versos; seu corpo em movimento, que parecia vibrar embalado pela própria melodia; e a energia - como se o senhor que entrou caminhando lentamente pelo palco ficasse para trás e ali, uma criança arteira se deliciasse fazendo o que ama: arte.

Fiquei adulto
Já estou maduro
Fui muito amado
E muito amei

Se Deus quiser, eu
Vou ficar velho
A morte é certa
Depois não sei

Depois não sei, Martinho da Vila

Na plateia, crianças, adultos e idosos se misturavam - todos ali para ouvir os maiores sucessos dos 59 anos de carreira do cantor. Aos 88 anos de idade, ele carrega uma trajetória que ganhou o público de todo o Brasil. Seu legado iniciou ainda na década de sessenta, quando se consagrou como um dos grandes nomes da Vila Isabel, escola de samba da qual ainda faz parte e que ganhou homenagem naquele sábado.

Entre paisagens brasileiras e seus principais títulos, como: Casa de Bamba e Canta Canta, Minha Gente, a performance foi uma homenagem à cultura negra, tema que perpassa sua obra nas letras, nos ritmos e na sua existência como pessoa e artista. Ainda no início do show, Zumbi dos Palmares foi um dos homenageados no telão.  

Apesar do tempo e de uma carreira marcada por tantos sucessos, o show não se fez apenas de nostalgia. Ele fez do samba um fio condutor entre poesia, comentários sociais e histórias de vida, algumas das marcas mais fortes de seu legado.

Ao introduzir O Pequeno Burguês, falou sobre sua própria trajetória e sobre a importância da educação. Contou:

“Prestei vestibular para Relações Internacionais aos 75 anos. Depois, fiz o curso presencial, e meus colegas tinham todos 18, 20 e 22 anos. Foi uma das melhores coisas que já fiz. Quando passei, gritei: ‘Felicidade! Passei no vestibular! Mas a faculdade é particular!’”

Para fazer uma pausa - super merecida - deixou o palco aos cuidados dos filhos Alegria e Preto Ferreira, que reforçaram o que vejo como maior trunfo no trabalho de Martinho: a beleza inegável da negritude. 

De volta ao palco, ele mostrou que a idade não reduziu em nada a sua ginga e sambou com a filha Analimar percorrendo o palco inteiro. O público vibrou novamente, e em meio aos passos, os clássicos Disritmia, Ex-Amor e Devagar ganharam coro, coreografia, aplausos e até lágrimas.

O show se estendeu por cerca de uma hora e meia e terminou como havia começado: com o público querendo mais. Vieram os pedidos de bis, os gritos pelas músicas que ficaram de fora e uma vontade imensa de ver Martinho da Vila novamente. Ao fim, ele deixou o palco como entrou: imenso. Com uma força deliciosa e profundamente brasileira.

Iza Domingues

Estudante de Jornalismo na UFRGS. Escrevo sobre música erudita, mas é no pop dos anos 2000, na MPB e no folk que passo a maior parte dos dias. Se você gosta de histórias interessantes, um bom livro, um refrão chiclete e um humor questionável, a gente se entende.

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