Crítica | Charli XCX - Music, Fashion, Film
NADA VAI NOS SALVAR
Em seu novo álbum, Charli XCX se despede do hyperpop e discute as mazelas de finalmente ser uma estrela.
Em 2024, vivemos o brat summer. Verde-limão, estética party girl, descolada e imperfeita - é difícil descrever a magnitude do fenômeno que o sexto álbum de estúdio de Charli XCX provocou. A artista, que saiu de uma carreira morna, com álbuns bons, mas que nunca furaram definitivamente a bolha, estourou quase que instantaneamente com BRAT.
O maior precursor desse sucesso foi o TikTok, que transformou o disco com uma sonoridade fora da curva, considerando os padrões da plataforma, em uma febre. Nesse meio tempo, Charli protagoniza The Moment (2026) - um mockumentary, ou falso documentário, dirigido por Aidan Zamiri, que satiriza a sua própria era BRAT. Nele, a artista se entrega à indústria e à fama, “traindo” sua própria atmosfera e mergulhando de cabeça no que é esperado de uma diva pop, o que vai totalmente contra os princípios do estilo de vida reiterado por ela no mundo real. Ainda não sabíamos, mas o filme estava fechando a era BRAT e nos aquecendo para os tópicos abordados em Music, Fashion, Film.
A primeira coisa que chama atenção no álbum é a capa, que traz John Cale, Marc Jacobs e Martin Scorsese em uma fotografia em preto e branco. É, para dizer o mínimo, impactante. Já na faixa de abertura do álbum, Charli declara que a pista de dança está morta, quebrando a expectativa de quem esperava ouvir um som parecido com seu trabalho antecessor. Rock Music, o primeiro single do então não anunciado Music, Fashion, Film, nos apresenta a mudança sonora, porém, nos lembra que a artista continua a mesma em essência. Com sintetizadores contracenando com guitarras distorcidas, Charli fala sobre o próprio processo criativo da música: sair com os amigos, criar coisas com eles e vibrar ao som da própria obra.
Junto com Wink Wink e 2007, Rock Music é uma das músicas mais divertidas do álbum. Nela, a artista desvia do modelo pop rock que tem sido tão exaustivamente reproduzido ultimamente, mas sem deixar de ser carismática e completamente sua cara, dando uma nova forma à sua identidade festeira vista em BRAT - e particularmente amo a referência que a letra faz ao infame vídeo em que The Dare, seu amigo e colaborador, pula do palco durante um show e ninguém da plateia segura ele.
I hope they catch you today
But if they don’t, it’s ok
I think the dancefloor is dead, it’s so dead
Logo em seguida, temos SS26, uma balada que conta com baterias sintéticas e suaves e, novamente, guitarras assumindo o controle da faixa.
Spring Summer 26
When the world is gonna end no hope for any of it
Yeah we’re walking on a runway that goes straight to hell
Nothing’s gonna save us not music fashion or film
Aqui, Charli escreve do lado mais vulnerável do álbum, assim como em I’m Afraid e Camera. Ela aborda diversos aspectos da fama, como, por exemplo, o uso do posicionamento político de celebridades como estratégia de marketing - inclusive, referenciando a associação da campanha de Kamala Harris com a estética BRAT. A ironização de temas como a cultura do cancelamento e o posicionamento tosco dos famosos em SS26 remetem inexoravelmente à The Moment - pense o que pensar sobre o filme, é essencial assisti-lo antes de mergulhar em Music, Fashion, Film. Essa ponte precisa ser mencionada ao falar de Card Declined, por exemplo: a letra discute o materialismo ligado à ideia de felicidade de uma forma que pode soar quase brega, mas que, dada a atmosfera do álbum, sai ilesa.
Camera, é um dos grandes destaques do álbum, refletindo sobre recomeço, sobre a insegurança de falhar, de seguir outro caminho, mas também trazendo o caráter inspirado de Rock Music. O clipe também é icônico, estrelando Vincent Cassel em um set de filmagem caótico. I’m Afraid também abrange tais temas, porém, agora, focando em relacionamentos amorosos - em especial, em seu recente casamento, com um instrumental mais contundente que cresce e te engole por inteiro.
A última faixa, No One Lasts Forever, com participação de David Cronenberg, resume muito bem o álbum. O disco fala de experiências muito pessoais e específicas da artista e como elas afetaram seu processo criativo e sua relação com a arte. Aqui, especificamente, a letra reflete sobre até onde a arte deve ser feita para sobreviver eternamente ao artista - e se ele mesmo não terá a oportunidade de colher os frutos de sua própria criação e do seu sucesso.
Nem tudo precisa ser atemporal e ultrapassar gerações, e o fato de que as coisas inevitavelmente acabam não enfraquece em nada a experiência. A segunda metade da música inclui trechos de uma conversa de quase uma hora que Charli teve com Cronenberg, em que ele relata uma experiência de quase morte, e diz não ter pensado em sua arte naquele momento. A faixa acaba com ele repetindo, como um mantra, “they’re dead, they’re gone, no one lasts forever”.
But, um, no, I wasn’t thinking about art as endurance
As, as, uh, immortality, you know
I mean, we can talk about immortal artists of various kinds
And it can turn out that, yes, some artists
Have created art that has really survived thousands of years
And that’s fantastic
But experientially, for the,
They are dead, they are gone
They are not experiencing that
These are true things
And thank goodness for that
É muito bonito ver Charli lançar um álbum tão intencional e íntimo após anos de uma carreira em que precisou “atirar para todos os lados”. É uma maneira certeira de se reconectar com o próprio trabalho depois de BRAT (no texto Death of Cool, que a própria publicou em seu substack em dezembro de 2025, a cantora diz que sente que o álbum começou como uma verdadeira expressão dela, mas, quando ficou popular e virou o verdadeiro fenômeno que vimos acontecer, sofreu uma “morte da sua coolness inicial”), não necessariamente por causa da popularidade, mas sim por conta da “alma” que ia sendo um pouco perdida a cada reprodução, a cada interpretação.
Music, Fashion, Film retoma a coolness que Charli tanto almeja, mas de um jeito diferente, ainda imperfeito e desajeitado, porém mais maduro e que quer se desvincular da atmosfera comercial em que BRAT caiu. Ele prova que a pista de dança não está, de fato, morta, apenas mudou de gênero, combinando o êxtase com a ressaca, a inspiração com o tédio, e os altos com os baixos.