Crítica | 50 anos de: Cartola II 91976) - Cartola
Uma tristeza que dança
Muito além de um cronista urbano, Cartola habita os esconderijos. Das madrugadas abafadas pela melanciolia à uma tristeza diurna, daquelas que caminham no meio da rua fingindo normalidade.
Do lado de fora era noite fechada, daquelas que engolem poste e calçada, mas ali dentro existia uma claridade amarelada e confortável, quase clandestina, como se aquele lugar tivesse sido construído apenas para proteger bêbados, sambistas e crianças sonolentas acompanhando os pais madrugada adentro. Eu lembro de um pote de bala, do meu dindo, do meu pai. O meu olhar ainda meio perdido no meio daquele caos alcoólico e barulhento. Lembro principalmente do alvoroço no canto do bar. O recinto inteiro parecia inclinar o corpo na mesma direção, como se algo importante estivesse prestes a acontecer.
Havia pernas demais no caminho, cadeiras demais, fumaça demais, mas a curiosidade sempre foi um vício pior do que qualquer um vendido ali dentro. No meio daquele pequeno clarão humano apareceram um violão e um pandeiro. Podia haver dois homens atrás dos instrumentos, mas minha memória não guarda seus rostos. O que ela guarda são aquelas mãos. Mãos calejadas, lentas, afinando sete cordas de náilon com uma delicadeza incompatível com o barulho daquele lugar. Meu olhar ficou preso nelas como um animal hipnotizado por farol de carro na estrada.
Então veio o violão. Uma frase grave, baixa e ao mesmo tempo absurda de tão presente, saiu do instrumento e cortou o ambiente ao meio. As risadas continuaram, os copos continuavam tilintando, alguém provavelmente pediu outra cerveja naquele instante, mas alguma coisa tinha mudado no ar. A música parecia distante do mundo real, como se tivesse vindo de outro horário da vida, um horário mais cansado e mais triste. E foi olhando para meu pai naquele momento que eu entendi, pela primeira vez, que existia uma forma de sofrimento que carregava um sorriso no canto do rosto. Naquela noite eu conheci a melancolia. E conheci Cartola.
Creio que, para entender melhor o que foi o álbum Cartola de 1976, seja necessário primeiro atravessar um pouco da vida de Agenor de Oliveira, porque esse disco não nasceu apenas de técnica ou inspiração. Ele nasceu de acúmulo. Cartola carregava o peso do tempo na voz como quem carrega sacolas de mercado morro acima. Fundador da Estação Primeira de Mangueira, autodidata no violão e sobrevivente profissional de um país que sempre soube abandonar seus artistas, Agenor aprendeu música da forma mais brasileira possível: na necessidade. Dizem que o apelido surgiu quando trabalhava como ajudante de pedreiro e usava um chapéu-coco para proteger o cabelo do cimento e do sol. O apelido ficou maior que o próprio nome, o que parece apropriado para alguém que virou entidade antes mesmo de virar patrimônio cultural.
Nos anos 30, Cartola conseguiu alguma notoriedade quando Carmen Miranda gravou Tenho um novo amor, parceria sua com Noel Rosa, mas a fama para sambista preto naquela época era quase sempre uma espécie de empréstimo mal explicado. O rosto raramente aparecia, o dinheiro raramente vinha e o reconhecimento costumava parar em algum escritório distante da favela. Existe toda uma tentativa histórica de higienizar o samba, de transformar uma música nascida da pobreza em produto elegante para apartamentos de uma burguesia cega, mas o samba sempre escapa. Porque ele nunca foi feito para conforto. O samba é a poesia dos marginalizados, e não existe nada mais cotidiano para a população periférica do que conviver intimamente com a dor. Cartola entendia isso não como conceito, mas como rotina.
O Brasil já havia feito sua parte para dificultar a existência de Cartola, mas o destino resolveu participar da brincadeira com um requinte particular de crueldade. A morte de Deolinda atravessou sua vida como um atropelamento. Sua primeira companheira morreu de ataque cardíaco e levou junto uma parte inteira do homem que Cartola era naquele momento. Ele tinha 38 anos e desapareceu aos poucos. Se afastou da música, dos amigos, dos palcos e de si mesmo, como alguém que vai apagando as luzes da própria casa antes de sair sem avisar. Durante anos foi dado como desaparecido. Depois, já nos anos 50, Sérgio Porto, o Stanislaw Ponte Preta, encontrou Cartola lavando carros em Ipanema. A cena parece inventada de tão simbólica. Um dos maiores compositores brasileiros reduzido ao anonimato ensaboando automóveis de gente rica enquanto o país fingia não reconhecer o próprio gênio. Sérgio o reconheceu na hora e começou então o lento trabalho de trazer Cartola de volta para a música e, quem sabe, de volta para si mesmo.
Em 1974, Cartola finalmente lança seu primeiro disco solo. O sujeito já tinha 66 anos nas costas, o que por si só parece um delírio estatístico brasileiro. Um dos maiores compositores da história do país precisou envelhecer até quase virar entidade folclórica para então receber um álbum próprio. Cartola (1974) apresenta músicas como Corra e Olhe o Céu, Alvorada e Alegria, e esse retorno tem uma dimensão monumental, como se um fantasma cansado resolvesse sair novamente pelas ruas do Rio carregando um violão debaixo do braço. O disco é brilhante. Possivelmente o mais brilhante de sua carreira. Mas ainda sinto que ali Cartola estava voltando ao mundo, reaprendendo a ocupar espaço, reaprendendo a existir diante de um público que já deveria ter se curvado a ele décadas antes.
O álbum de 74 funciona quase como uma reintrodução. Um retorno triunfal de um homem que o Brasil havia deixado apodrecer no esquecimento enquanto sambas medíocres recebiam luz e aplausos. Só que, dois anos depois, surge Cartola (1976). E aí a fumaça engrossa. Esse foi o disco que me apresentaram como “o disco triste do Cartola”, definição simples demais para o tamanho do estrago que ele causa. Porque não existe tristeza limpa naquele álbum. O que existe é acúmulo. Décadas de ausência, álcool, luto, madrugada, cigarros intermináveis e uma espécie de cansaço emocional que parece escorrer pelas músicas.
Cartola (1976) é uma ode ao sofrimento, mas não daquele sofrimento performático e exagerado que implora pela atenção dos outros. É uma dor fatigada, madura, quase resignada, dessas que encontraram casa dentro do peito e já aprenderam a pagar o aluguel. A grande força do disco está justamente na maneira como Cartola transforma isso em música sem nunca soar artificial. Ele compõe como quem sofre de maneira contínua, como quem acorda cansado e vai dormir ainda mais cansado, carregando a tristeza como parte da mobília da casa. Daí vem, em grande parte, o susto que o álbum provoca. Cartola não canta a dor como observador. Ele canta como sobrevivente.
Muito além de um cronista urbano, Cartola coloca nas músicas uma intimidade quase desconfortável. Em alguns momentos, tenho a impressão de que não é apenas Cartola cantando. Minha voz também está ali. A voz do meu pai. A voz de qualquer pessoa que já ficou acordada tarde demais encarando o teto e tentando negociar com a própria tristeza. Tudo isso sai da boca de um senhor negro de óculos escuros diante de um microfone, como se estivesse apenas conversando.
Cartola (1976) não é exatamente um álbum narrativo. Não existe ali a intenção de construir uma história linear ou um conceito fechado, mas opera numa chave ainda mais poderosa: a da crônica cotidiana. O disco soa como um retrato do sofrimento atravessando os horários do dia, mudando apenas de roupa conforme a luz lá fora muda de cor. Quando digo que Cartola sofria de noite e de dia, é porque o álbum inteiro parece funcionar nessa lógica. Algumas músicas carregam a melancolia abafada da madrugada, enquanto outras possuem uma tristeza diurna, urbana, daquelas que caminham no meio da rua fingindo normalidade.
E o mais fascinante é a ambiguidade musical que Cartola constrói o tempo inteiro. Em vários momentos, parece até que o sambista está brincando cruelmente com o ouvinte, colocando letras devastadoras sobre percussões mais aceleradas, metais inquietos e harmonias que às vezes parecem sorrir na direção oposta da própria letra. Essa contradição soa profundamente brasileira. Uma tristeza que dança. Uma melancolia que aprende a sambar para sobreviver. Como se a música inteira estivesse tentando esconder um colapso emocional atrás de um copo de cerveja e um cavaquinho bem afinado.
O disco começa sem cerimônia com O Mundo é um Moinho, e a sensação é a de levar um soco no rosto. A música funciona como um conselho, mas daqueles conselhos que já chegam derrotados pela própria experiência. Sinto que Cartola canta como alguém que já viu a vida mastigar sonhos suficientes para entender exatamente o tamanho do abismo que existe fora da ingenuidade.
A figura da musa aparece constantemente no álbum e reforça o impacto brutal que a perda de Deolinda deixou em sua vida. O amor, em Cartola, nunca parece totalmente separado da ruína. Mesmo quando existe carinho, existe também um medo silencioso de perda rondando cada verso. E O Mundo é um Moinho é provavelmente o exemplo mais cruel disso tudo. A letra já carrega um peso devastador por si só, mas os arranjos aprofundam ainda mais a ferida. As baixarias do violão surgem como marteladas lentas no estômago, enquanto a flauta transversal atravessa a música com uma delicadeza fantasmagórica, como se alguém tentasse acariciar uma ferida aberta.
Depois da madrugada mais escura representada por O Mundo é um Moinho, Preciso me Encontrar parece acontecer algumas horas adiante, quando o sol começa a aparecer por trás dos prédios e a tristeza já não está gritando tão alto. O curioso é que a música costuma ser lembrada como uma canção de esperança, e ela realmente é, mas de uma esperança cansada. Não existe euforia ali. Não existe a promessa de que tudo ficará bem. O que existe é alguém que finalmente percebeu que não pode continuar vivendo da mesma maneira. Cartola não canta como quem encontrou respostas. Canta como quem aceitou a necessidade de procurá-las.
Na arquitetura emocional do álbum, Preciso me Encontrar ocupa o lugar da esperança fatigada do amanhecer; Peito Vazio, O Mundo é um Moinho e As Rosas Não Falam formam seu núcleo mais devastador.
Em Peito Vazio, a ausência é tão grande que ganha dimensão física. O amor não foi embora apenas da vida do sujeito. Foi embora do ambiente, da casa, do ar e dos objetos. A sensação é de alguém caminhando pelos próprios cômodos e encontrando ecos onde antes existiam pessoas. Já em As Rosas Não Falam, Cartola alcança algo raro na música popular: transformar saudade em paisagem. O compositor procura respostas nas flores, nos jardins e na natureza porque os vivos já não conseguem oferecê-las. As rosas não falam. Nunca falaram. Mas continuar perguntando é um gesto profundamente humano.
Por isso as canções seguem ecoando: falam sobre a recusa em aceitar completamente essa perda. Uma teimosia emocional atravessa cada verso. Como se uma parte do compositor continuasse procurando Deolinda em cada esquina, em cada flor e em cada madrugada mal dormida. Não por acreditar que irá encontrá-la, mas porque esquecer seria uma segunda morte.
Enquanto essas canções habitam o território do luto e da ausência, Aconteceu, Não Posso Viver Sem Ela e Meu Drama exploram outra forma de sofrimento. Menos definitiva, mas igualmente humana. A desilusão. A quebra de expectativa. O instante em que a realidade resolve ignorar completamente os planos que fizemos para ela.
Não transforma a dor em espetáculo nem procura culpados fáceis. Pelo contrário. Muitas vezes a sensação é a de alguém sentado sozinho após o desastre, tentando entender em que momento exatamente tudo começou a dar errado. As traições, os desencontros e os abandonos aparecem menos como eventos isolados e mais como parte inevitável da experiência de amar. Afinal, amar alguém é também entregar ao outro a capacidade de nos destruir.
Mas nem toda tristeza chega acompanhada de tragédia. Nem toda dor se apresenta vestida de luto, álcool e madrugada. Algumas aparecem de maneira muito mais discreta, escondidas dentro da rotina. E é justamente aí que entram Sala de Recepção e Ensaboa.
Em Sala de Recepção, composta com Dona Zica, Cartola assume uma posição mais observadora. O foco já não está apenas nas próprias feridas, mas no cotidiano da Mangueira. A música descreve a comunidade com leveza, carinho e orgulho, mas o curioso é que, por baixo dessa aparente simplicidade, quanto mais o compositor exalta aquele lugar, mais percebemos o tamanho das dificuldades enfrentadas por quem vive ali. E então surge a pergunta: Como podes, Mangueira, cantar?
É impossível não sentir que essa pergunta ultrapassa a própria comunidade. Ela parece escapar da música e voltar na direção do autor. Como pode Mangueira cantar? Como podem aquelas pessoas sorrir? Como podem continuar dançando depois de tanta pobreza, tanta violência e tanto abandono? E, principalmente, como pode o poeta ser tão triste e continuar fazendo samba?
O disco inteiro parece tentar responder essa pergunta.
E então chegamos a Cordas de Aço, uma das canções mais bonitas do álbum. Depois de tantas perdas, tantas ausências e tantos fantasmas, Cartola direciona seu afeto para aquilo que nunca o abandonou: o violão.
Esse gesto é profundamente comovente. Depois de um álbum povoado por ausências, Cartola encontra conforto justamente em um objeto incapaz de partir. O violão não morre. Não trai. Não desaparece. Apenas permanece ali, aguardando que suas cordas sejam tocadas novamente. Em um disco onde quase tudo fala sobre perda, Cordas de Aço soa como uma rara declaração de permanência. A idealização perfeita de uma companheira. Quem sabe, a única que esteve presente durante toda a sua viagem.
Cinquenta anos se passaram desde o lançamento de Cartola (1976), mas o disco continua produzindo uma sensação rara: a de estar ouvindo alguém dizer a verdade. Não a verdade dos fatos, dos jornais ou da história, mas aquela verdade mais difícil de encarar, que aparece quando a música consegue dar nome a sentimentos que normalmente permanecem escondidos. Cartola morreu há décadas. O bar da minha infância provavelmente já não é o mesmo. Muitas das pessoas que escutaram essas canções em 1976 já não estão aqui. Ainda assim, o álbum permanece. E permanece porque fala de coisas que insistem em permanecer conosco também. No fim das contas, talvez a maior qualidade de Cartola (1976) seja esta: transformar a dor de um homem em companhia para milhões de outros.