Jorge Drexler @ Araújo Vianna - 29/05
Nessa praça cabe uma cidade, um jardim numa flor
Jorge Drexler conduziu nessa noite uma travessia. Convidando-nos a acompanhá-lo, um caminho singular fora do tempo administrado da vida real.
Cantautor é uma das muitas palavras da Língua Espanhola, registrada no dicionário com o seguinte significado: cantor que costuma ser também autor das composições que interpreta. Jorge Drexler é, por conseguinte, um cantautor.
Professor é uma das muitas palavras da Língua Portuguesa (se quitamos uma das letras “s”, também da Língua Espanhola), a cujo significado o dicionário costuma referir-se como o indivíduo que ensina uma determinada ciência ou arte. Ou seja, dicionaristicamente, a palavra professor habita o terreno da transmissão. Na noite do dia 31 de maio de 2026, Jorge Drexler foi um professor, mas não um professor em situação dicionária. Foi outra sorte de professor, como se verá - como se viu.
A primeira canção do show do álbum Taracá foi também a primeira canção do disco,Toco madera. É uma boa canção, não há dúvida, mas o impactante desse momento inicial foi ser apresentado ao conjunto, composto por três percussionistas de candombe, um baterista, duas guitarristas/violonistas/tecladistas/cantoras, uma contrabaixista e o respectivo Jorge Drexler. Era um palco denso, povoado. Ao longo das canções, suas partes integrantes se iam movendo, fazendo uso criativo do espaço. Esse movimento permanente deixava uma camada própria de encanto ao acontecimento.
Me dá a impressão de que o cantautor uruguaio é dessa categoria de artistas que são um pouco porto-alegrenses. Posso estar equivocado, transtornado pela emoção do momento, mas não me parece que o apelo que ele exerce sobre essa cidade e seus habitantes, bem como a intimidade com que falava ao público, possa explicar-se por outro caminho. Há vinculação, ao menos isso é certo. Entre as canções, conversava com o público, contava causos, dava ternas explicações sobre a milonga, sobre o candombe, sobre as relações entre Uruguai e Brasil, tudo em um português claríssimo. Fez do Araújo Vianna uma casa e uma sala de aula.
A seleção dos temas era variada, mesclava faixas do Taracá com outras canções de sua discografia. Havia um claro fio temático que tateava questões pertinentes ao disco novo, como a presença da ausência, a infinitude do ínfimo, as distâncias próximas, as relações humanas mais genuínas. Daí vieram Telefonía, Quimera, Transporte, Polvo de estrellas, Movimiento, Soledad, Guitarra y vos e mais…
Talvez não tenha feito do Araújo Vianna exatamente uma casa, mas uma cidade. Cidade, nesse caso, tampouco em situação dicionária, isto é, não um determinado conjunto de construções organizadas de modo a atender um certo número de funções pré-determinadas, mas um espaço vivo de encontro e de experimentação. É desse uso fulgurante do auditório que transcorre a catarse que narro a partir do próximo parágrafo, pois antes se faz necessário tomar um pouco de fôlego e de distância.
Drexler está, do ponto de vista do observador, do lado esquerdo do palco, quando diz que vai fazer algo diferente - ou algo que não costuma fazer, a memória às vezes falha. Nesse momento, a cadência de Las palabras começa a soar. Ele olha o público, desce do palco em direção à escada entre as cadeiras da plateia e começa a subir os seus degraus. A cada patamar, a parte correspondente da multidão se levanta, em efeito de onda. No meio do caminho, começa a cantar a primeira estrofe da canção, e seus passos seguem em direção ao centro do auditório. Ali, há um palco chico, um caixote, em que ele sobe e dá sequência à canção. Todas as pessoas estão em pé, com a atenção direcionada, claro, a Drexler, mas seus olhares e seus corpos se voltam umas para as outras. Em seu movimento inesperado, o cantautor e performer dribla as hierarquias da atenção, produz uma viravolta concêntrica para o encontro, reúne as pessoas em roda.
Nessa nova configuração, os demais artistas do conjunto jogam um essencial papel dramático. Enquanto Drexler canta em meio ao seu público, com o corpo em direção ao palco, lá os instrumentistas encenam outros papéis. Em Las palabras, interpretam uma pantomima afeita à canção; em Amar y ser amado, é o xilofone o protagonista.
Talvez um dos momentos mais lindos do show tenha sido Soledad. Era um dueto entre Drexler e Alejandra Lopez, contrabaixista do conjunto. Além da execução estremecedora, a iluminação do palco era tão intensa que dava uma vida etérea a Alejandra e a seu contrabaixo, como se um outro ar os envolvesse. O cantautor, com seu violão, cantava a uma distância, a um signo, a um espectro, a um anjo, que lhe cantava em resposta. Bom, a letra da canção é um diálogo entre um eu lírico e a solidão. Se dão conta da beleza da performance? Muita gente se emocionou - o que eu jamais faria, crítico compenetrado que sou, anotava em meu bloco de notas todos os elementos técnicos que me fariam atestar a qualidade do espetáculo.
Dessa parte, há ainda outra instância curiosa. Drexler revela que queria mudar a setlist no momento do show e pede a compreensão dos demais. Então, explica: em suas perambulações pela noite porto-alegrense nos dias anteriores, proseou, em determinado momento, com uma admiradora que lhe mostrou a tatuagem em sua pele que levava um verso do cantautor: “amar la trama”. (Na verdade, Drexler só comentou que tinha visto uma fã com uma tatuagem de uma de suas canções e que, por essa razão, tinha ficado emocionado. As demais informações apurei por fontes muito confiáveis). Por essa razão, resolveu tocar La trama y el desenlace, voz e violão. Foi uma forma linda de chegar ainda mais perto de quem lhe assistia. O retorno ao palco, enfim, foi com Movimiento, puro êxtase.
Quando tocou El tambor chico, fez questão de explicar o funcionamento desse instrumento. A disposição pedagógica era envolvente, pedia que tentássemos acompanhar o chico em seu contratempo usando o som de nossas palmas. Como errávamos rudemente, disse, em tom simpático, mais ou menos nessas palavras: “Isso foi fantástico, porque deu completamente errado”. Risadas e sorrisos do público. Decidiu Drexler, assim, ensinar-nos no e pelo movimento da canção, realizando-a em seu funcionamento concreto. Aulas nomás.
O fim da primeira parte se deu em linda homenagem à canção brasileira com ¿Qué será que es?. A banda sai do palco. Desencontrados gritos de “mais um”. Algumas tentativas de “ole ole ole ole, Jorge, Jorge”. Múltiplos assobios. Retorna a banda, retorna o cantautor.
Com algumas folhas de papel na mão, sobe até o cume da elevação do palco e entoa os versos de Ante la duda, baila, simulando a leitura de uma palestra em uma performance que acentua o caráter expositivo, até didático, da canção. Isso poderia ficar bastante pesado, ou brega, não fosse a presença do cantautor, a força arrebatadora e sinuosa do refrão, o movimento da banda, a vibração das luzes oscilantes. Foi outro momento poderoso de prática docente.
A última canção performada, seguida de Sea, uma homenagem a Mercedes Sosa, foi, em um agrado ao seu público mais amplo, Todo se transforma. Entretanto, é em uma roda de candombe que finda o espetáculo. Instrumentistas e cantautor se encontram no centro do palco, dançam, riem, refletem o público presente e se despedem.
Jorge Drexler conduziu nessa noite uma travessia. A partir de seu trabalho e movimento, o cantautor apresentou, convidando-nos a acompanhá-lo, um caminho singular fora do tempo administrado da vida real. Permitiu, dessa maneira, que o suspendêssemos e existíssemos em outro ritmo. Instaurada essa nova presença coletiva, depositou, em organização sensível, fragmentos da tradição no chão comum da experiência, abrindo veredas a outros lugares. Condensou corpo e intelecto para, uma vez unidos, dar a ver algo até então desconhecido, ao menos na forma tal como se apresentou, convidando-nos a habitá-lo e a atravessá-lo. Finda a travessia, restam sombras da experiência vivida, plenas de seu conteúdo, em potência, à espreita da chama que as faça de novo fulgurar.
Nesse sentido, não só pela organização mediante linguagem que o cantautor faz da matéria do mundo, como também pelos efeitos no aqui e agora que ele busca produzir, deslocamo-nos no tempo e no espaço e, assim, aprendemos. É claro, que, ao final, voltamos ao tempo da vida real, é inevitável, mas voltamos diferentes do que éramos, com formas outras de vivê-lo ou, até, de transformá-lo. O cantautor foi, portanto, professor.
Mais um texto absolutamente elogioso da minha parte, sem nenhum pingo de crítica negativa. Podem achincalhar-me, descredibilizar-me, até desprezar-me, mas mantenho a posição. A fim de evitar o cinismo - uma orientação aprendida nesse mesmo espetáculo - para com as pessoas tão queridas e inteligentes que me leem, não pedirei perdão por essa entrega. Digo objetivamente, tal qual ocorreu: Jorge Drexler fez um brilhante show em Porto Alegre, deu uma verdadeira aula. Foi um exímio professor, não os que encontramos nas estantes empoeiradas, nas falácias das redes sociais ou nos dicionários, mas no tempo presente, no movimento do tempo presente.