Crítica | Ítallo - CATATAU

tire uma hora pra lembrar

 
 

Em seu quarto álbum de estúdio, Ítallo versa sobre o importante e o desimportante como se tais conceitos não existissem, construindo um lindo universo em que tudo e nada parecem vitais à sobrevivência.


Na última segunda-feira me peguei lamentando, dentro do carro, na saída do trabalho, as horas e a cor das nuvens. Eram 17h47. Sinaleiras vermelhas se espalhavam pelo horizonte e pelos carros parados em todas as direções para as quais eu olhava. Além disso, o cinza-chumbo do céu impedia qualquer rastro de luz de atravessá-lo. Me frustrei, e logo em seguida veio a chuva.

A água começou a cair e a rascunhar qualquer coisa no para-brisa, com o som se misturando aos meus pensamentos e me impedindo de diferenciar o que era música, precipitação e imaginação. Todavia, o delicado arpejo de piano de uma canção que eu havia salvado não muito tempo atrás me recobrou a consciência. O violão irrompeu naquele momento de paz súbita, e a poesia de Ítallo forçou delicadamente sua entrada naquele fim de tarde completamente nublado.

No dia que você não mais ficar
E a vontade não casar com o agora
Tire uma hora pra lembrar de mim
No mesmo instante que eu te perder
Dos olhos ou depois de eu ir embora

De repente, a gota que percorria o vidro do carro ganhou uma beleza estrondosa ao encontrar outra que já não parecia ter vigor, coragem ou motivo qualquer para continuar descendo e empurrá-la pra baixo, num salto de valentia. Os piscas-alerta se transformaram em metrônomos para dezembro, o samba malandro que veio logo em seguida, cheio de vida, me reviver.

Voltei rapidamente à tire uma hora pra lembrar de mim antes de decidir dar play no álbum inteiro, e fui abraçado pela vida que vive no tédio, no trânsito, na chuva, nos meus próprios pensamentos dispersos e tudo aquilo que acontece ao redor deles nessa enorme multidão das horas. Nem demorei muito pra chegar em casa, no final das contas.


O nome ainda desconhecido do grande público e o rosto pueril que protagoniza a capa de Catatau podem sugerir, à primeira vista, que Ítallo é apenas mais um dos vários artistas surgindo repentinamente, pronto para crescer junto à nova leva da MPB que volta a ocupar os holofotes em meio a um desejo quase antropológico de reconexão com nossas matrizes musicais. Se assim fosse, este texto seria apenas um exercício de previsão. Uma aposta.

Mas não é nenhuma coisa nem outra.

A sonoridade e a proposta lírica do cantautor possui raízes profundas. Em seu quarto álbum - capítulo mais recente de uma trajetória que já atravessa uma década de lançamentos - Ítallo se apresenta como um paradoxo que me bagunça: não tenta reinventar a música brasileira e a ama, mas suas canções transbordam personalidade sem evocar ninguém além dele próprio.

Também não parece interessado em disputar protagonismo geracional ou reivindicar qualquer posição dentro dessa dinâmica claustrofóbica de tendências, nichos e ciclos de produção acelerados. Enquanto muitos desses artistas quenãoprecisonomear procuram um lugar para ocupar, Ítallo simplesmente ocupa o seu. Vive e respira música. Pensa nela como existência, religião, política, romance, ócio e lazer. É consumido por ela e nos consome através dela. E, dessa posição aparentemente discreta, dá vida a faixas que são, descartada qualquer hipérbole, clássicos instantâneos.

Tudo isso é sumarizado pela simpática introdução do disco, da barriga. As colagens ambientais de pessoas, carros e vento, captadas à distância, simulam o caminhar de alguém saindo para trabalhar antes mesmo do sol nascer, sustentado apenas pelo desejo de fazer seu próprio samba assim que o crepúsculo terminar seu ritual. A voz de Ítallo é tênue e tranquila em direção a labuta, e nos conduz a uma melodia guiada por acordes vespertinos de seu piano e surpreende com um leve autotune em sua voz, como se decidisse que faz o que quiser de seu dia, não que o dia vai o fazer.

Em janeiro, dentro dessa dinâmica constante de subverter padrões, Ítallo se aproxima de um protótipo de nova música brasileira - ainda em estado embrionário. "Juntar o pensamento e o som, é como se tenta a canção" soa como uma catarse óbvia, linda e humilhante ao mesmo tempo, trazendo a mesma sensação de procurar o celular pela casa inteira com ele na própria mão. Existe algo profundamente simples nessas linhas, que brincam com imagens abstratas enquanto o baixo percorre a faixa com a mesma tonalidade alaranjada e acolhedora de Sweet Life, de Frank Ocean, sustentando o ambiente sem jamais exigir protagonismo. Sobre ele, pequenos licks de guitarra ampliam o groove e criam espaço para que Ítallo e Tori se divertirem livremente pela melodia.

A faixa dorinana, por sua vez, pega a estrutura de uma samba-canção sobre o amor jovem e suas consequências inaugurais em alguém ainda despreparado para sentir tanto, e a corrompe com elementos contemporâneos. A confusão organizada que atravessa CATATAU reaparece aqui de uma de suas formas mais cativantes: acordes herdados da bossa nova convivem com sintetizadores discretos e uma guitarrada que surge como a feliz surpresa do amigo antigo que não confirmou presença depois de receber o convite de aniversário. Amor chegando sem pedir licença, bonito e desordenado.

O álbum, além de contemplar um pouco de todas as coisas, também reserva momentos de candura capazes de aquecer o corpo inteiro. É o caso de alô alô, Lolô ("Eu amo muito você, Lolô / Quero você zen / Se azedar me mande um 'alô' / Amor é de cuidar"), uma quase cantiga infantil conduzida por uma melodia medicinal, feita exatamente para confortar. A canção sugere diferentes diálogos possíveis: entre pai e filha, entre neta e avó, entre amigos ou até entre duas versões da mesma pessoa separadas pelo tempo. Pouco importa qual delas é a correta. O que permanece é a sensação de cuidado.

Sol e chuva, casamento de viúva. A sessão final do disco surge como esse outro tipo inesperado de temporal agridoce (depois vou precisar investigar essa compulsão meteorológica que tomou conta deste texto). Mais do que a expectativa pelo arco-íris, existe o desejo de se molhar. Em meio à curiosidade constante pelo tema da próxima canção e por neologismos - tema da canção ou temogamia - o álbum assume uma postura mais melancólica e estilisticamente mais noturna do que em seus momentos anteriores. "Meu coração não finca o pé / Nem o querer / Sabe de fato se quer continuação" e “Vale ser só, pela paz que eu ganho?” trazem questões pela primeira vez no álbum, estabelecendo a toada emocional do restante do percurso.

Bom, a resposta à pergunta supracitada é não.

drive my car (pra marina) e última roupa dão continuidade a essa invasão ao diário de Ítallo sublinhando a importância do amor a dois. Os arranjos seguem imprevisíveis, de certa forma subversivos às baladas brasileiras tradicionais, ao mesmo tempo em que parecem perfeitamente encaixadas em cada acorde, se recusando a obrigação de crescer continuamente rumo a um clímax. Explodem quando bem entendem e retornam logo em seguida à introspecção. Preferem terminar comedidas e reflexivas, confiando no peso das palavras em vez da grandiosidade dos gestos.


Quando o disco terminou, de volta à cotidianidade lírica de lelé dotô (com destaque para o verso "corrida no fim do jogo, o medo ali de algum modo representando o sabor, bebida pro jogador") e da minha própria rotina, me dei conta de que já estava em casa. Resolvi permanecer mais uma hora dentro do carro pra uma segunda audição, afinal aquela volta para casa em meio ao caos urbano havia passado rápido demais.

Outra gota repetiu o ato de coragem da sua amiga e se lançou rumo ao imprevisível de cada ato.

Pietro Stefani

Advogado predisposto a fazer tudo menos advogar e quando faz é ouvindo música no processo. Demasiadamente extrovertido e fã exagerado de muitas coisas.

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