10 anos de: Blackstar (2016) - david bowie
Mantenha seus amigos por perto e seus inimigos mais perto ainda
Há 15 dias de completar 16 anos, voltando da praia com minha primeira namorada e os pais dela, o locutor da rádio anunciava: “Morre David Bowie, aos 69 anos vítima de câncer no fígado”. Dois dias antes ele havia lançado, no dia de seu aniversário, Blackstar. Eu conhecia pouco da vida e obra de Bowie, apesar de já cultivar uma admiração pelas diversas figuras em que ele se apresentou. Um misto de curiosidade e aversão. Curiosamente, a morte também é assim.
Não consigo precisar exatamente quando passei a ter medo da morte, mas lembro que foi cedo. Acordar de madrugada suando por ter sonhado com a minha morte e a de meus pais era uma constância na infância. Eu já havia perdido uma avó, mas entender que estava MORTA é bem diferente de apenas não ter mais sua presença.
Passei a perguntar incansavelmente a minha mãe sobre a morte e esse medo virou fascínio. “Para onde vamos?” e “de onde viemos?” se tornam perguntas reformuladas e cotidianas por algum tempo. Talvez essa última pergunta seja mais importante que a primeira. No fim das contas aprendi que somos a história que contamos e que nos é contada. Os mitos que criamos. E poucos inventaram a si mesmos tão bem quanto o camaleão do rock. Porém, esse é um mito de desabamento.
A faixa de abertura ★ (Blackstar), incorporando sonoridades ocidentais e orientais (assim como o sistema pessoal de crenças de Bowie — que incorpora alguma coisa de judaico-cristão, tendo passado por uma fase budista na juventude e também ocultista), trata justamente se não se afirmar em nada. Uma postura corresponde com sua carreira sempre em reformulação estética. Sendo a faixa mais experimental do álbum, é devastadoramente linda, e extremamente autoconsciente, a afirmação dessa existência autodestrutiva por natureza.
“I can’t answer why (I’m not a gangstar)
But I can tell you how (I’m not a flam star)
We were born upside-down (I’m a star’s star)
Born the wrong way ‘round (I’m not a white star)
I’m a blackstar,I’m not a gangstar
I’m a blackstar, I’m a blackstar
I’m not a pornstar, I’m not a wandering star
I’m a blackstar, I’m a blackstar”
’Tis a Pity She Was a Whore utiliza da metáfora da morte como essa mulher agressiva e gananciosa que rouba todo o prazer. Miscelânea sonora que utiliza dos sopros como ápice do desconforto. Lazarus, provavelmente a música mais famosa do disco, melancolicamente é como um oráculo. Aproximando-se do destino final, percebe a finitude e entende como o tempo foi desperciçado. Exatamente como deveria ser.
“By the time I got to New York
I was living like a king
There I used up all my money
I was looking for your ass
This way or no way, you know I’ll be free
Just like that bluebird now, ain’t that just like me?
Oh, I’ll be free, just like that bluebird
Oh, I’ll be free, ain’t that just like me?”
Na seção mais abstrata do disco, Sue (Or in a Season of Crime), a guitarra guia a canção mais rockeira do conjunto funcionando como ponte ao resto da obra, indicando um romance deturpado. E, em um surto extraído de uma viagem de anfetaminas, Girl Loves Me carrega influências de hip-hop contemporâneo em sua sonoridade, enquanto a letra se apoia no livro Laranja Mecânica, um dos favoritos de Bowie.
Dollar Days é nostalgica temática e sonoramente, lembrando um jazz antigo no fim de uma noite com mais amarguras que conquistas. A luxúria nunca foi o caminho para a salvação. I Can’t Give Everything Away, a última faixa, íncorpora a música eletrônica e poderia ser o momento transcental de uma rave. Algo entre a aceitação e a recusa.
Tão humano. Amendrontado, maravilhado, arrependido, orgulhoso. Ao esperar o fim David Bowie teve a sorte de poucos em poder revisitar-se em vida. Não sendo um personagem mesmo em seus momentos mais excêntricos, em seu último álbum finalmente o vemos ainda assim fantasiando a própria existência. Cria a morte que quer ter. Se destina ao desconhecido nos seus próprios termos, embelezando-o assustadoramente.