Crítica | Sonhos de trem (2025)

A SUTILEZA QUE ATROPELA

 
 

A sinopse de Sonhos de Trem (2025) poderia facilmente se resumir em: “um homem comum trabalha para sustentar sua família e enfrenta dilemas inevitáveis da vida.” Sem grandes eventos históricos determinantes nem arcos dramáticos tradicionais. Uma trama aparentemente insignificante, de simplicidade quase radical, não fosse sua profundidade avassaladora.

Adaptação da novela homônima de Denis Johnson, publicada em 2011, o filme é situado nos Estados Unidos do século XX. Seu personagem central, Robert Grainier (Joel Edgerton), trabalha na construção de ferrovias ao lado de outros homens igualmente comuns, cujos únicos bens parecem ser suas famílias e a natureza que os rodeia. E olhe lá.

Aqui, a direção de Clint Bentley merece atenção especial. Bentley organiza a narrativa como quem folheia um álbum de memórias: há saltos no tempo, vazios, lacunas que não pedem explicação. Uma estrutura fragmentada que não soa confusa, mas subjetiva. É como se acompanhássemos não apenas os fatos da vida de Robert, mas a maneira como ele os recorda. A fluidez dos movimentos de câmera em diversas cenas adiciona um caráter quase onírico à experiência, criando uma atmosfera que dialoga diretamente com o título do filme. Não se trata apenas do trem físico, mas da sensação de deslocamento constante, de algo que passa e deixa rastro.

O visual encantador contrasta com os sentimentos angustiantes que o filme desperta. E aqui um adendo: esta é uma obra para apreciadores da melancolia. Caso contrário, a frustração pode ser grande. O ritmo é deliberadamente contemplativo, quase literário. Não há pressa em comover. Não há esforço em tornar a dor palatável. O filme provoca um certo vazio existencial. E faz isso com convicção. Ele reafirma que o cinema pode, e talvez deva, nos confrontar com nossa própria insignificância. Assim como na vida real, nem sempre há reviravoltas ou redenções que organizem o caos dos acontecimentos. Trata-se de passividade, de ausência de controle, de reconhecer que nem sempre estamos conduzindo o trem. E, sobretudo, de aceitar isso.

E é impossível falar em natureza sem mencionar a direção de fotografia impecável de Adolfo Veloso, que enaltece a grandeza dos cenários com amplo uso de luz natural. Há algo quase espiritual na maneira como os enquadramentos lembram, silenciosamente, da quantidade de beleza que nos cerca diariamente e que pode passar despercebida. O homem é pequeno diante da paisagem. E isso não é apenas estético, é temático.

Essa contenção também se reflete na atuação de Joel Edgerton, que traduz a alma de um homem que raramente explode. Sua dor não vem em discursos inflamados, mas em silêncios prolongados, em pequenos gestos, em olhares que parecem carregar mais peso do que qualquer palavra. Edgerton projeta com precisão tanto a angústia diante da brutalidade da vida quanto a delicadeza nos raros momentos de afeto. É uma performance de evolução sutil: acompanhamos o envelhecimento físico, mas, principalmente, o desgaste emocional. E essa contenção é o que torna tudo mais devastador.

Em sua roupagem filosófica, o minimalismo narrativo se reforça por uma escolha que pode causar estranheza inicial: a presença constante de uma narração em off, feita pelo ator Will Patton que, somada ao roteiro, assinado por Clint Bentley e Greg Kwedar, preserva a essência literária da obra original ao estruturar a história como uma sucessão de memórias fragmentadas. A voz é calma, seca, econômica. Limita-se aos fatos e a observações pontuais, recusando qualquer interpretação emocional explícita. Aos poucos, a sensação deixa de ser a de assistir a um filme e passa a se aproximar da experiência íntima de leitura de um romance, em que as lacunas são intencionalmente deixadas para o espectador preencher. A adaptação acerta justamente por transformar eventos cotidianos em reflexões sobre tempo, amor e perda. O que acontece importa menos do que o que permanece.

Não é um filme sobre “o que” ou “quando”, mas sobre “porquês”.

Talvez a percepção mais precisa sobre Sonhos de Trem seja a de que ele próprio se estrutura como o movimento que evoca em seu título. Começa como um ponto distante no horizonte, discreto, quase imperceptível. À medida que avança, ganha corpo, peso e densidade, até que sua força emocional se impõe de maneira inevitável. A direção conduz essa aproximação com paciência quase cruel. Quando o impacto vem, não é estrondoso, mas incontornável: duro, melancólico e, paradoxalmente, de uma beleza devastadora.

No fim, não se trata de um filme sobre trens, nem sobre trabalho, nem sobre uma época específica. É, antes de tudo, uma meditação sobre a passagem do tempo e sobre a silenciosa tragédia de tudo aquilo que só percebemos quando já ficou para trás.

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