Crítica | Luiz Barata - Eterno Menino Levado

INFâNciA PERDIDA?

 
 

Sinceramente, isso é um boom bap muito gostoso.


Lembra de quando você era uma criança e tudo era tão vívido e presente que não dava tempo de ser percebido? Não existiam melancolias ou nostalgias, já que o hoje era apenas continuação do ontem e o futuro era inesperadamente mágico. A adolescência chega e o futuro se torna uma urgência tão autoritária que deixa de ser magia, vira uma necessidade. Quando dei por mim, eu era adulto (ou quase) e tudo o que eu queria era voltar a ser criança. Mas o que separa quem eu sou de quem eu fui? Aquela criança ainda sou eu, ou melhor, eu sempre serei aquela criança.

É esse o sentimento que eu tive com ETERNO MENINO LEVADO, terceiro álbum do rapper carioca Luiz Barata. Contando com 8 músicas e incríveis 18 minutos, o que dá uma média de 2 minutos e 15 segundos por música, o artista surfa nessa nova forma do boom bap, apostando em um flow mais melódico, com o 808 não dominando tanto a mix, e trabalhando a voz com efeitos sutis para ampliar a textura e criar uma atmosfera mais imersiva. 

O álbum soa como um desabafo curto e efêmero do compositor, aquela mistura de sentimentos que viraram uma hecatombe, e acaba sendo desenrolada em uma conversa íntima e franca de Luiz Barata. O disco inicia com MPBOY, sampleando a introdução de As Dores Do Mundo (Hyldon,1975) para refletir sobre o processo de amadurecimento, a percepção da falta de oportunidade e de que até a própria arte não é meritocrática. A música caminha como uma sucessão de pensamentos, passeando pela raiva da realidade, culpa, questionamento do passado e, por fim, a aceitação de que o “e se” não existe.

Penso em momentos passados
O que seria de mim se o Nico tivesse desacreditado
O que seria da ilha se não fosse o naufrágio
Se não fosse um mal presságio depois de fumar um prensado
Talvez eu tivesse chegado mais rápido
Pra jogar tudo no ralo
— MPBOY

Em BOMBAPATCH e JULIA, o relato sobre a vida do artista é mais perceptível, cantando sobre amores, amizades e consequentemente sobre desilusões e traições. É interessante ver como Luiz usa o fato de ter sido “magrão” e agora ter engordado como marcação de tempo e de evolução do seu eu artístico, além de trazer a clássica revolta e necessidade de provação financeira - fato que se mantém em COCOROCO e COISAS.

Algumas faixas fogem do boom bap meio lo-fi presente na maioria das músicas, criando um certo dinamismo no álbum. Em GASTARÁ, o artista aposta em uma percussão “seca”, lembrando um tamborim, um chocalho de fundo e um baixo muito marcante. Já em EU QUERO VER ME PAGAR BEM, o beat transiciona para um boogie, relatando a dubiedade entre querer se entregar totalmente e, ao mesmo tempo, ganhar dinheiro. O álbum finaliza com NEM TÃO ETERNO, refletindo sobre como as compreensões do eu lírico no presente poderiam ter mudado atitudes do passado, mostrando que, no fim, a maioria dos conflitos internos nunca se resolvem por completo, já que esse também é o tema da primeira música do disco. 

Já conhecia Luiz Barata por outras músicas, como Marinheiro e Saudade, e agora com ETERNO MENINO LEVADO o rapper consolida ainda mais seu estilo. Embora nenhuma faixa do álbum tenha me chamado mais atenção do que as que eu já conhecia, gostei da temática e da proposta de um álbum de 18 minutos - que por sinal passam voando. Senti que, em alguns momentos, as músicas tendem a ficar em uma espécie de monotonia, fazendo com que seja difícil perceber o fim de uma faixa para o início de outra. Um destaque no som de Barata é a estruturação de várias canções a partir de anáforas e paralelismos, utilizando repetições com variações mínimas para construir tensão e introspecção.

No fim, ETERNO MENINO LEVADO não tenta oferecer respostas definitivas, mas sim organizar dúvidas que atravessam o amadurecimento. Luiz Barata transforma inquietações pessoais em um relato honesto, direto sem excessos e, sinceramente, muito gostoso de escutar.

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