Crítica | Mitski - Nothing’s About to Happen to Me
L&PM POCKET
No seu oitavo disco, Mitski soa como uma edição compacta e mais acessível de si mesma - sedutora para novos olhos, mas excessivamente familiar para quem já percorreu suas páginas.
Existe um núcleo não oficial de músicos que habitam essa categoria imaginária dos artistas incapazes de errar. Mitski é um deles. Desde 2012, são oito álbuns de estúdio e um ao vivo compondo uma das discografias mais contundentes do século - um corpo diverso, quase sempre guiado por protagonistas femininas (seus alter egos), explorando a feminilidade sob uma lente íntima, individual e às vezes cruel.
Na primeira fase de sua carreira, o piano - propulsor de alguns dos acordes mais melancólicos da música indie recente - foi seu aliado mais fiel; depois, a guitarra assumiu o protagonismo com outra espécie de urgência. Ao longo dos anos, ela atravessou o jazz, o chamber pop, o rock de garagem e o country. Ouvir suas dez faixas mais populares em sequência em qualquer serviço de streaming é uma experiência errática: estilos mudam abruptamente e planetas colidem. Ainda assim, há algo que permanece reconhecível: emoção. A assinatura de Mitski é emocional, não sonora. É ela que causa ou sustenta as rupturas de todas suas personagens, por consequência, de si mesma.
Aqui, em Nothing’s About to Happen to Me, ela cria um disco sobre uma mulher que prefere permanecer em casa ou que simplesmente não encontra forças para sair. E quando sai, o mundo lhe parece ansiogênico, selvagem demais. A desordem do exterior não é tão diferente da sua própria bagunça interna; a diferença é que, fora de casa, ela já não dita as regras do caos.
A atmosfera instrumental trabalha muito bem essa ambientação de uma reclusão confortável, estritamente ligada a temática lírica, cheio de aleatoriedades e dúvidas (no bom sentido) como a protagonista. Dessa forma, os arranjos nascem de pensamentos sem destino claro, música após música, numa imprevisibilidade encantadora - uma espécie de caça-níquel dissociativo de uma jovem depressiva no século XXI. Vivemos dentro da cabeça dela, tão desorientados quanto a própria narradora; somos John Malkovich, só que sem o dinheiro e sem o controle corporal.
In A Lake narra sua juventude numa cidade pequena e a lenta e gradual instauração da insegurança e da desconfiança em relação ao contexto que está inserida: For where you gotta write your book early; Or it gets written up in your place. O ambiente é moldado por uma cordialidade suspeita, onde o banjo e o acordeão respiram uma falsa serenidade. A roupagem country que evoca um senso de comunidade carrega uma tensão dissimulada que explode ao final e já se engancha nas guitarras estridentes da frenética Where’s My Phone, o ótimo primeiro single do álbum.
Logo em seguida, Cats, oferece a demonstração mais sutil de altruísmo do eu lírico durante todos 34 minutos de narrativa: “Maybe tomorrow night / The cats will be nowhere in sight / But I’ll be glad to know / They’re out following their heart’s delight.”. É uma balada delicada, sustentada pelo diálogo entre bateria e pedal steel, depois elevada por um órgão que amplia o espaço emocional da faixa. Curiosamente, começa pelo refrão - uma estrutura desalinhada que ecoa a própria desordem da protagonista.
Dead Women surge como uma visão brutal sobre a autonomia feminina - ou a falta dela - de narrar a própria história. A canção aborda a objetificação não como tema abstrato, mas como destino inevitável. Como causa mortis. A percussão abafada, quase escondida na mixagem, sustenta esse ar rarefeito que nos paralisa e direciona a atenção para o monólogo quase teatral que antecede o falecimento espiritual da narradora.
Logo em seguida, uma mudança brusca de ritmo e intensidade ocorre em I’ll Change For You. Carregada de uma inocência quase desconcertante e construída sobre elementos de jazz e bossa nova, Mitski divaga dentro da própria cabeça enquanto observa um bar prestes a fechar. A permanência unilateral de um amor já morto, distorcida por uma instrumentalização pacífica e quase otimista, cria um contraste magnético. Ainda assim, é difícil não perceber na proposta da canção uma tentativa - talvez inconsciente - de repetir o efeito de My Love Mine All Mine e quebrar o mainstream.
Trata-se, no entanto, de uma música que funciona. Como disse, Mitski não consegue errar mais a esse ponto. Contudo, diferente de sua predecessora, não produz identificação imediata. Não conseguimos nos aproximar plenamente da situação porque presenciamos apenas os pensamentos fragmentados de alguém em sofrimento, que não permite acesso à história em sua totalidade ou qualquer projeção individual do ouvinte. O que surge é a idealização da mudança acompanhada pela paralisia que impede qualquer transformação real. A lembrança do amor e a promessa de mudança são constantemente interrompidas pela descrição quase aleatórias do bar, ou seja, pequenos desvios narrativos que revelam, no fundo, o medo de se lançar no abismo e não conseguir emergir dele como outra pessoa.
“How do I let our love die
When you’re the only other keeper
Of my most precious memories?
Yeah, I’ve been drinking
Why’s that gotta mean
I can’t call you ‘bout you and me?”
Até esse momento, eu acreditava ter em mãos um dos melhores álbuns do ano - assim, sem aviso, ainda em fevereiro. No entanto, até a faixa de encerramento, Lightning, o que encontramos são canções que poderiam facilmente ser catalogadas em outras fases da carreira da artista. A própria faixa final ecoa com certa nitidez o espírito de Your Best American Girl, de Puberty 2.
Não há nada de errado nisso. Pelo contrário: poucos compositores conseguem construir um universo estético tão consistente a ponto de repetirem a forma sem perder a força bruta. Mas, pra quem se encontra do outro lado da experiência, há uma diferença inevitável entre provar um grande livro pela primeira vez e relê-lo. Quando volta-se a uma obra que nos marcou, ela pode revelar detalhes novos, significados ocultos, pequenas virtudes que antes haviam passado despercebidas.
Ainda assim, a admiração passa a existir menos pelo que a obra é agora e mais pelo que ela já foi.