Crítica | Morro dos Ventos Uivantes (2026)
Forma e conteúdo, imaturo e ardoroso
A adaptação de Fennell descarta o que é incômodo no livro e revela tudo o que sua câmera sabe e não sabe fazer
Emerald Fennell faz parte de um fenômeno bastante característico do cinema contemporâneo, onde sua autoria protagoniza as discussões ao redor de seus filmes mais do que suas obras em si—mesmo com um histórico bastante pequeno, tendo realizado somente três longas, todos lançados nessa década. Isso se deve principalmente ao caráter polemista de seus filmes, caso parecido com o de Coralie Farjeat, diretora de A Substância (2024) e Vingança (2017), onde as escolhas estilísticas ficam evidentes sob o olhar de qualquer audiência.
Bela Vingança (2020), seu primeiro e pior longa, filmado como uma propaganda do Subway, lida com temas como estupro e patriarcado de forma bastante infantil e imediatista, características que se arrastam ao longo de sua recente carreira. Saltburn (2023), uma gritante evolução de seu filme anterior, bastardiza suas referências, unindo Talentoso Sr. Ripley (1999) e Teorema (1968) em uma obra bastante desinteressada em uma história de suspense e crítica social, mas que se diverte explorando as dinâmicas postas na mansão.
Com esse histórico, seu terceiro e melhor longa, polemiza desde sua divulgação, anunciando que Jacob Elordi interpretaria Heathcliff, um personagem descrito no livro como não-branco, que tem seu destino e ações definidos por como os outros personagens o oprimem por sua raça e classe. Meu plano ao escrever o texto era deixar de lado a cansativa e desinteressante discussão sobre fidelidade em adaptações, mas acredito que a mudança da aparência do personagem merece pelo menos um comentário. Mesmo achando que deveríamos julgar uma obra pelo que ela é e não pelo que não é, um filme que aborda esse lado do livro poderia ser interessante. O que realmente não me traz curiosidade é o que Emerald Fennell acha ou não sobre esses temas.
Na primeira parte do filme, quando Catherine (Margot Robbie) ainda não havia se tornado uma Linton e vivia no Morro dos Ventos Uivantes, Heathcliff detém o olhar do filme. Com uma postura curvada e olhar de coitado ele a procura ao redor de rochedos, se esconde na casa, a surpreende por trás e tapa-lhe os olhos quando ambos descobrem dois empregados da casa transando. Emerald Fennell o filma de uma maneira que não havia filmado antes.
Após o salto temporal, ocorre uma quebra na representação e, assim como em Saltburn, Elordi aparece como uma figura exibicionista—sendo observado com um olhar de desejo, mas, diferente do filme anterior, é uma figura que apresenta ameaça. Elordi atua muito bem sem falar, se esparrama nas cenas, alto, imponente, perturbando Catherine e forçando-a a lidar com seus desejos reprimidos e a tomar decisões, colocando-a como força motriz da narrativa.
Justamente aí que vem talvez o maior problema de Morro dos Ventos Uivantes: esses impasses não maturam em tela, existem como momentos que terminam antes da próxima cena. Pode-se pensar que é efeito colateral de uma produção que planeja uma sobrevida quando chegar aos streamings. Esse imediatismo se traduz também na permissibilidade moral que Fennell dá a seus personagens, um exemplo seria a maldade de Heathcliff para com Isabella Linton (Alison Oliver), que é abrandada pelo fetiche de submissão da personagem. A trilha sonora pop de Charli XCX, ao destoar com o drama de época, acaba também segmentando esses mini-arcos mais ainda, impedindo que os efeitos emocionais de cada cena se arrastem para a seguinte.
Mesmo existindo como uma sequência de tiktoks o filme acaba funcionando. Fennell talvez acabe sendo a única realizadora de grande sucesso que consiga trabalhar bem sob essa demanda do mercado, diferente de outras atrocidades como Tudo em Todo o Lugar ao Mesmo Tempo (2022). Ao invés do anti-cinema proposto pelo ganhador do Oscar, onde cada plano existe para apagar o anterior, ela cria imagens que sobrepõem as precedentes.
O cinema picotado da autora surge na obra como uma veia autoral que pode ser mais desenvolvida, mas está longe de ser desagradável. Nos piores momentos, como a montagem dos Linton se divertindo na mansão, é de uma infantilidade ignorável; nas melhores, como a montagem final, é de uma paixão contagiante.