O Grilo @ Opinião - 23/05

Nessa praça cabe uma cidade, um jardim numa flor

Fotos por @enzo_hofmann

Neste sábado, dia 23 de junho, no palco do Opinião, vimos o show mais visceral e contagiante do ano.


Alguns textos começam pelo factual. Outros encontram forma no invisível, no que se sente. Sobre isso, penso que um bom resumo seria: Nem tudo o que é grande ocupa espaço. Há vezes em que os maiores sentimentos estão nas memórias mais simples e as faltas mais devastadoras são sentidas em circunstâncias de plena presença.

Na noite de 23 de maio, quando centenas de pessoas se reuniram para cantar “Você Não Sabe de Nada” - na turnê de 5 anos do álbum - minhas mãos tremiam em impulsos elétricos enquanto tudo no ambiente vibrava com tons de azul e vermelho. Em todas as direções havia jovens: os bem jovens, os jovens adultos e os adultos seniores com alma de jovem, todos compartilhando o mesmo espaço. Algo entre os 56 e 16 anos, ou seja, entre as fases você sabe algumas coisas e Você (Ainda) Não Sabe de Nada, respectivamente.

O Grilo, por sua vez, entende bem de muitas coisas. A banda de Indie Rock, POP, MPB, Funk, Samba e Guitarrada - mistura deliciosamente cheia de maneirismos e muita brasilidade - subiu no palco e logo instaurou o clima que duraria até o final da noite, passando por diferentes fases de plena satisfação. 

Aprendemos através de filmes - principalmente das animações - que acreditar genuinamente na pessoa ao lado gera uma força quase sobrenatural, potente o suficiente para transmitir energia, reforçar o espírito e nos convencer de uma invencibilidade irracional. O tal do poder da amizade. A possibilidade do pior deixa de importar porque, naquela pequena janela de tempo em que os acontecimentos se desenrolam, tudo parece controlável.

Mas pra que essa fé produza algum efeito concreto, é preciso ser um romântico, um otimista incurável devoto a sua crença naquelas pessoas sem mesmo parar pra pensar nisso. Em meio a todas as possibilidades de desastre - problemas no pedestal dos pratos, febre no vocalista, cansaço de viagem -, O Grilo simplesmente não podia ser derrotado no sábado à noite, no Opinião.


Foram necessários poucos segundos para que Fepa atravessasse o palco como quem ignora qualquer noção de espaço disponível e limites físicos, encontrando a borda do proscênio para brincar enlouquecidamente com seus dedo sobre as cordas de sua guitarra ao lado de Cavallari, perigosamente perto de despencar sobre os fãs. Naquele momento entendi o poder do Grilo de incorporar tudo ao seu redor e transformar numa coisa só. Alguns minutos depois, Pedro Martins já se ajoelhava em ato de admiração no breve intervalo entre as músicas diante da divindade que é Lucas Teixeira na bateria, que solava enquanto seus colegas respiravam e se hidratavam.

Trela, Onde Flor, Contramão, Meu Pior Amigo e as outras 9 faixas do álbum ganharam versões energéticas marcadas pela simpatia do vocalista principal e de sua fiel segunda voz, Gabriel Cavallari - que também é o responsável por mostrar o caminho sonoro e unir as diferenças entre todos, com seu baixo virtuoso, para que seus companheiros de time brilhem. Essa dinâmica, apesar de ser o modelo clássico da banda, permitiu-se demonstrar novas nuances e deixou o show mais interessante, reduzindo a percepção de limitação vocal do nosso protagonista, que apesar de resfriado, manteve a qualidade formidável de sempre da apresentação ao longo da performance.

Você se foi e eu fiquei
O que vai ser de mim? Eu não sei
Eu tô tentando seguir em frente
Mas assim contracorrente acho
que eu vou me afogar 

Em Inês, música que homenageia a “tia Inês”, figura muito querida na vida de Pedro, o vazio transitou entre a multidão e, como grande parte dos lutos fazem, não foram necessárias palavras elaboradas para que a força da mensagem fosse compreendida. Em uníssono, as vozes se misturavam acompanhando o lamento. Talvez por isso, sinta que esse show não me pertence, assim como muitos outros não pertenceram. Ele é nosso, existe no plural, entre mim e todas as  ausências que me acompanham. 

Mas o sol há de brilhar mais uma vez
E se não for pra ser aqui, brilha
Onde tá Inês? Eu não sei
Mas alguns dias atrás eu sabia

Serenata Existencialista – do primeiro álbum do grupo, o “Herói do Futuro”, de 2017 - ganhou uma versão mais elétrica no melhor estilo Rock and Roll, com a bateria explosiva de Teixeira, além de riffs contagiantes e um solo maneiríssimo de Fepa, que ecoou o som da guitarra em cada centímetro do espaço. Uma noite em que tudo transbordou em energia, fomos lembrados da beleza do ao vivo. 

Novamente sozinho no palco, ainda houve espaço para um dos momentos mais especiais da noite. Pedrão Martins recorreu aos acordes delicados de sua Bossa Nova, paralisou o tempo e silenciou tudo ao redor. O Malabarista de Granadas manipulava cuidadosamente a posição dos dedos, sussurrando nos nossos ouvidos que se rendiam a cada palavra em plena contemplação: Passe tua madrugada / Vivendo algum conto de fada que você construiu / E quando esse conto acaba / Você acorda de ressaca perdido num quarto vazio.

Os intermináveis pedidos durante todo o show foram atendidos. No Bis, Fepa finalmente voltou sem camisa para o palco. A sensualidade da sua guitarra nos exigiu proximidade e calor e todos integrantes da banda mostraram sua versão mais intensa em Tira a Roupa. Consequentemente, todo público aceitou o convite e pulou, se abraçou, se encostou e se misturou, deixando os poucos resquícios de energia ali, na despedida da banda que entregou tudo e mais um pouco.


Então concluo: O Grilo representa o encontro entre pessoas que compreendem a aflição dos oxímoros - termos que se excluem. Para eles, cabe um jardim em uma flor. É impossível saber de nada, mas é possível sentir que tudo é insuficiente. Querer viver um grande amor, e, ainda, ansiar por morrer de saudade. Pensar que tudo era só, eu e você – e o resto eu deixei lá fora.

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