Crítica | El Mato A un Policia Motorizado - Dinastía Scorpio (2013)

magnetismo

 
 

El Mató se torna uma força de atração que não se consegue explicar ou controlar. Como uma bússola, nos aponta para um norte figurado, e nos leva para viajar em busca de dias melhores.


A ambiguidade da atração é perigosamente bela e empolgante. A máxima dicotômica dentro desse jogo de misericórdia e submissão nos coloca numa posição de completa ingenuidade perante o desconhecido, e a ideia de nascer de novo ou morrer mais uma vez toma conta da nossa alma. Sabemos que não há apenas uma vida a ser vivida dentro de uma vida inteira.

O que quero dizer é: o magnetismo pode ser tanto algo maravilhoso quanto algo perigoso. Ainda assim, vale a pena segui-lo.

El Magnetismo começa com as cordas abafadas contando até quatro - coisa que faço quando a mão esquerda no braço do violão se cansa e o cérebro precisa divagar. Duas guitarras e um sintetizador se unem na mesma direção, mas uma delas é completamente crua, com o som reduzido à sua essência - o que mais me chama a atenção. A voz de Santiago não está limpa, como de costume, mas entorpecida pelo eco, e aquele elemento tão esguio, tão aparentemente fraco e delicado, segue ganhando destaque. Fico na expectativa de sua rendição, mas ele não para de acompanhar seus companheiros mais altos e fortes. Logicamente, me emociono. En este mundo peligroso / tenemos que estar juntos. Mais do que a potência da letra, mais do que a melodia extremamente carinhosa, foi em um simples elemento instrumental que a banda, discretamente, me capturou.

Em Mujeres Bellas y Fuertes, o sentimento de impotência ganha força através da imagem brutal e fragmentada narrada pelo vocalista (gritos, corpos e chão de terra). O baixo tremula como se víssemos o asfalto distorcido pelo calor e a gravidade nos empurra pra baixo com força anormal. O Lick de guitarra que introduz o refrão traz consigo um timbre agudo e uma energia de filme de terror que narra a violência deliberada, sem justificativa, de forma apavorante.

Batemos num teto de esperança, estamos a deriva. O mundo nos dá rasteira atrás de rasteira, e somos obrigado a nos questionar até quando sentimos a necessidade de levantar. Surge então o primeiro hit da banda. As texturas de cores e a voz doce de Santiago carregada de otimismo surgem como conselheiro divino em Mas o Menos Bien: Amigo, no llores por las noches / Es hora de buscar lo esencial. A simplicidade e a repetição de apenas dois acordes na guitarra base levam ao extremo a ideia do mínimo pra sobreviver, e o fazem de maneira linda. Ao não expandir esses acordes e sugerir que dentro dessa inflexibilidade de maus acontecimentos podemos achar coisas boas, a banda abre espaço para que o sentimento de conforto e esperança seja construído por outros elementos. Os pratos da bateria ganham vida e são impulsionados pelo baixo, enquanto as guitarras tentam alongar ao máximo essa sensação de e a guitarra tenta alongar ao máximo a sensação de entusiasmo. Um hino surge.

"Mirando la comida ya fría
No creo que esté hecha con amor
No importa, hoy celebraremos como familia
Que más o menos sigue como quiero yo

Más o menos bien, más o menos bien
Más o menos bien, más o menos bien"
— Mas o menos bien

Yoni B, por outro lado, retorna ao passado e representa a busca eterna pelas pessoas que perdemos pelo caminho. Carrega consigo a força de transformar uma lembrança pessoal em um cântico nostálgico e universal sobre a falta que a ideia dessas pessoas ainda ao nosso lado fazem. A abordagem do disco brinca cada vez mais com a polaridade das emoções contidas em seus versos. Não sabemos se Yoni vai voltar, não sabemos decifrar se a nostalgia é, nesse caso, algo positivo ou negativo, mas seu ritmo é eternamente crescente, como se Santiago acreditasse que, quanto mais alto cantar, mais fácil será ouvir seu chamado, mesmo que esteja cantando apenas ao vento. E justamente através do sentimento de abandono e injustiça, eles buscam a perpetuação de uma comunidade de almas temerosas que possam achar afago na companhia e na semelhança. Terror nos coloca em uma sala, de mãos dadas e em silêncio. É definitivamente uma prece e as guitarras repletas de reverb tentam nos fazer superar o monstro ao escancararem-no diante de nós.

Seguimos nossa longa marcha, passando por ameaças físicas e complicações mentais. Os dias parecem piorar, e estamos completamente expostos aos seus desdobramentos. Chegamos ao deserto, e Noche Negra nos traz elementos acústicos para nos acompanhar no meio do nada. Estrelas se tornam fogos de artifício, violões de nylon trazem o conforto do lar, enquanto a imensidão do momento nos lembra o quão longe estamos de casa. A ponte instrumental explode, e a emoção nos inunda. Pela primeira vez, há certa romantização do momento vivido: ele se torna eterno. Somos introduzidos, assim, a algo que mais tarde se tornaria comum em La Síntesis O’Konor.

As últimas duas faixas seguem em busca da grandiosidade e versam sobre o que já foi vivido e o que ainda há para ser sentido, respectivamente, em El Fuego Que Hemos Construido e Dos Galaxias. Na primeira, acordamos de um sonho pensando no tempo perdido e na solidão autoimposta, guiados pelo baixo e pelo bumbo tocados simultaneamente durante um minuto, gerando uma leve crise de ansiedade. Por um breve momento, não há nada que sustente a dor de não ser visto ou admirado, e na saudade da construir, tijolo por tijolo, uma relação saudável e duradoura - coisa que, nesse momento narrativo do álbum, não é possível.

A segunda, por outro lado, não só o expõe como um grande fã de Star Wars (segunda referência cinematográfica do disco, sendo a primeira De Volta para o Futuro, em Chica de Oro) como também interpõe uma camada de ficção sobre um álbum brutalmente realista. Sem metáforas intelectualizadas sobre o amor, os instrumentos parecem falhar, a voz de Santiago está mais vulnerável que nunca, e a faixa é encerrada com uma longa microfonia. Um amor tão grande que descomprime tudo, reduzindo uma vida inteira à imagem de duas galáxias, distantes e intocáveis, se tocando em estranha sintonia.


A realidade da dor que machuca e a idealização do amor com a importância que acreditamos que ele deve ter. A mudança sempre nos moveu e sempre nos moverá. Passado, presente e futuro andam abraçados, por maior que seja a dificuldade de uni-los em uma coisa só. Te ves en las fotos, y ves que todo cambió, canta Santiago em La Cara en el Asfalto, antes de responder à própria constatação: todo es como debe ser.

Sigamos o norte, independentemente da direção.

Pietro Stefani

Advogado predisposto a fazer tudo menos advogar e quando faz é ouvindo música no processo. Demasiadamente extrovertido e fã exagerado de muitas coisas.

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