A trilogia de El Mató a Un Policía Motorizado
Repetir, repetir e repetir
Veneno e remédio, perdição e salvação, a repetição nos constitui de cima a baixo, de lado a lado. É inescapável.
Buscamos livrar-nos dela, desautomatizar-nos, viver conscientes de nossas escolhas para, de repente, em angustiante alumbramento, dar-nos conta de que seguimos fazendo exatamente a mesma coisa, com outra roupagem. Simultaneamente, sem a repetição, nada seríamos além de massa amorfa, sem contorno definido, silentes. Como poderíamos dizer “eu”, em toda a sua qualidade subjetiva, sem dar voltas e voltas sobre o mesmo objeto, até que surja alguma forma comunicável, por mais frágil que seja? Não há existência possível sem certa dose de reiteração. Somos, portanto, condicionados e assombrados pelo repetir, em múltiplos níveis.
Pois bem, mas as palavras deste texto não se propõem à mera reprodução redutora e generalizante de elucubrações psicanalíticas. O que realmente interessa às divagações expostas é a sua relação com um dos conjuntos de obras mais repetitivas que já escutei na minha vida: os três primeiros EP´s do grupo argentino El Mató a un Policía Motorizado, composto por Navidad de reserva (2005), Un Millón de Euros (2006) e Día de los muertos (2008), frequentemente entendido como uma trilogia. Aqui, a repetição vaza por todos os poros, no instrumental, no lírico e no estrutural. Diversas canções seguindo a forma verso-refrão-verso-refrão, letras de apenas dois versos que se sucedem, melodia da voz reproduzindo os riffs de guitarra, baixo reproduzindo a guitarra, o mesmo padrão rítmico na bateria, a lista de repetições vai muito mais além.
O som carrega o punk à la Ramones, um outro punk mais alternativo e constantemente flerta com o pop rock e o indie rock dos anos 2000. Tenho a impressão, inclusive, de que El Mató virou uma banda indie um tanto por acidente, por uma certa confluência entre um som simples e direto ao ponto, advindo de uma raiz punk rock que vai perdendo sua força combativa, e os novos gostos do mercado consumidor de música, afeito a essa recolocação do gênero. É com pouca ornamentação harmônica e lírica, com um grau contido de aventura experimental e com explosividade sonora que esses três discos vão dar novos contornos ao que se entende por repetição na música - ao menos foi o efeito que produziu neste que vos fala.
Um exemplo banal seria a primeira canção de Navidad de reserva, que se chama Navidad en los Santos. A canção, que tem uma textura bem pós-punk e uma estrutura pop, possui mais minutos que versos. Dois deles se repetem de novo e de novo, um constituindo o verso e outro o refrão, e, ao final, duas repetições de um terceiro verso. A princípio, pouco me disse a faixa, dessas que não ativam a atenção quando se escuta um disco despretensiosamente. Em outra circunstância, escutei a canção de novo sem grande comoção; em mais uma reprodução, ela começa a ganhar força; na seguinte, gritava junto com Santi Motorizado os versos do refrão, involucrando-me plenamente na verdade por debaixo da superfície cancional. É por aí que vai o trunfo da repetição desses três discos, que dá um drible curioso no senso comum. Imagina-se que uma canção repetitiva, quanto mais vezes escutada, mais entediante ficaria. Nos EP’s do El Mató, é todo o contrário. Quanto mais se os repete, mais agudo é o efeito da repetição sobre o corpo e sobre a imaginação. É como se estivéssemos acompanhando um lento processo de elaboração.
As letras, concretas e sintéticas, contribuem para o alcance instigante dessa forma reiterativa. Em Navidad de Reserva, figuras degradadas e situações de perigo envolvem de mistério o Natal; Un Millón de Euros, mais melancólico que o primeiro disco, afasta-se daquela atmosfera para tratar de imagens mais íntimas, sem, contudo, revelar seus sentidos; Día de los muertos, mais grandioso, coloca a catástrofe em cena e retoma cenas de estranha violência. Por serem letras nada óbvias, circular ao redor delas se torna uma experiência no mínimo curiosa, na medida em que a sensibilidade aventa hipóteses imediatas sobre sua significação e a ela não se regala o gozo da descoberta. Sustenta-se a tensão. Tome-se a segunda faixa de Navidad de Reserva, quem há de ser o tal do velho ébrio e perdido? Que realidade habita? É uma metáfora, uma metonímia, uma imagem aleatória, nada? Que sabemos da Chica Rutera do disco de 2006? Ou em Rey del Terror do disco Día de los Muertos, que circo macabro é esse no meio do fim do mundo? Aqui, então, objetividade, mistério e repetição atuam conjuntamente para a abertura de um espaço de procura, reforçado sempre e de novo a cada canção.
Tá certo, vocês me diriam, mas a repetição não é justamente o que faz a indústria, o mercado, para vender música pasteurizada? Perfeitamente colocado, eu lhes responderia, entretanto não é essa a repetição que toma forma nas obras de que estamos falando. E, vejam bem, não falo aqui da intenção do autor, mas da materialidade da própria obra, do que dela resulta. Sim, como muito bem dito, a música industrial feita em série para acumular números opera, e sempre operou, a repetição para gerar adição em quem a escuta. São aqueles versos, refrões e pontes milimetricamente calculados para o engajamento imediato e acrítico, as canções que escutamos 304 vezes na sequência para depois, em razão do enjoo, jamais voltar a escutá-las de novo - nem seria necessário, afinal, até a trecentésima primeira vez já terão lançado alguma outra canção que engoliremos 307 vezes sem interrupção, fazendo-nos regredir compulsivamente ao mesmo lugar.
Felizmente, não é essa a repetição mobilizada nessas obras de El Mató, visto que nelas viajamos a um lugar novo, tal como se buscava na faixa Amigo Piedra. Só a textura das canções já nos dá indício de uma forma outra de repetir. No disco de 2005, há mais sujeira nas guitarras, mais peso no baixo, mais ruído. Em 2006, isso enfraquece, e aparece um tratamento melancólico da harmonia, da melodia e da letra, o que gera uma aproximação com um som muito mais ameno, próximo do que viria a se tornar o indie comercial nos anos 2010. Vienen bajando é um exemplo possível dessa sonoridade - e, curiosamente, é a letra mais politizada do disco, o que também permite reconsiderar criticamente a parte musical da canção.
Se o caminho escolhido fosse o da produtificação feroz, o comedimento viria a ser acentuado, surgiriam mais elementos do pop rock ou do indie comercial. Na contramão disso, a realidade: a primeira canção do disco de 2008, Día de los Muertos é a mais longa dos 3 EP’s e aquela que conta com mais elementos ditos experimentais, inclusive com um largo momento instrumental, repleto de ruído e de estranheza. O teor do restante do disco resgata Navidad de Reserva, mas em outro registro, isto é, voltam ao mesmo lugar, mas de outra forma. Além de marcar os três discos como conjunto, esse fenômeno acontece com diversas das faixas ao longo das obras: uma canção funciona de forma absolutamente repetitiva, mas, a cada volta, se agrega ou se suprime um elemento sutil, seja uma guitarra, um sintetizador, um padrão rítmico, uma modulação de voz distinta. Com isso, o mesmo já não é o mesmo, embora, paradoxalmente, ainda o seja.
Assim, a repetição é uma questão relevante para a trilogia inicial de El Mató. Entretanto, ao escutar as suas canções, não se retorna eterna e viciosamente ao mesmo ponto fixo, como em uma superfície circular. Com efeito, a melhor imagem seria a da espiral: retornamos ao mesmo ponto onde estávamos antes, mas em outro nível, de outra perspectiva. E, desse novo lugar, o que se pode observar é diferente, novas imagens se insinuam, espaços que antes não se deixavam ver.
Em tempo, é certo que o aspecto cru e intempestivo das canções se relaciona com o contexto argentino em crise do início do século XXI. Esse tema, contudo, por forças maiores que as minhas, ficará aqui apenas indicado. Sei que vocês sabem muito bem, a arte ganha força quando sentida junto à História que carrega e, por essa mesma vasta sabedoria que têm, poderão traçar essas relações.
A experiência da trilogia composta por Navidad de Reserva, Un Millón de Euros e Día de los Muertos é a da repetição, na dimensão mais interessante que pode assumir, que é a de adensar a vida. Circulando-a e explorando-a desde ângulos distintos, abre criativamente a sua matéria, em raro processo de elaboração, sem resposta final. A repetição, nesse viés, mostra-se disposição importante para qualquer contorno de sentido que se urja traçar. A repetição, quando não aprisiona, é instrumento semântico. Quantas vezes a gente não fala “eu” na vida sem nunca saber direito quem se é?
Sim, escrevi um texto elogiando o narcisismo. Quem poderia prever uma coisa dessas? Quer dizer, eu não fiz isso, mas pode ser que tu pense que sim. Sendo esse o caso, sugiro repetir a leitura. Pode ser que algo diferente venha a se revelar.