Crítica | Tom Waits - Closing Time (1973)
Mente vazia, oficina do diabo
Invocando arranjos de Jazz e Blues através de andarilhos espirituais, Tom Waits os liberta enquanto aprisiona sua alma, balada após balada, em um estado de melancolia lírica constante e inescapável.
Na oitava música de seu primeiro - e, à época, mal-sucedido - disco de estúdio, Tom Waits repete a palavra Lonely (sozinho) 30 vezes. A estrutura da canção definitivamente não parece ter sido criada com qualquer ideia de apelo comercial em mente. São três versos, e entre eles duas pontes. Nenhum refrão dá as caras pra fazer disso uma situação mais romantizada, e, como cereja do bolo, um substantivo próprio perdido entre seus fantasmas: Melanie Jane. Seus dedos estão no piano, único instrumento da música, enquanto seus olhos encaram um espelho que devolve sua figura estática, incapaz de reproduzir seus prolíficos movimentos nas teclas. Ele lamenta. Seu amor só existirá na sua memória, e na de mais ninguém.
O uso da solidão como propulsora da escrita talvez seja um dos mais conhecidos mecanismos de composição que conheço, e quanto mais se explora o folk, mais descobre que ser coitado e infeliz não é garantia de sucesso mas é de grande auxílio na hora de pegar a caneta e o papel - e aqui falamos tanto isolamento físico quanto isolamento mental. Nesse sentido, a primeira faixa do disco, Ol’ 55, ainda guarda alguns resquícios de felicidade, embora seja inteiramente cantada no passado. Seu pôr do sol enquanto dirigia seu Cadillac, usando seu piano de combustível gratuito ainda simula algum senso de esperança, mesmo que sua voz esteja completamente desolada por precisar relembrar um momento tão precioso e distante que se tornou fantasia.
Então a fantasia se torna sua pior inimiga e sua maior protetora, de um jeito completamente distorcido (se é que isso faz sentido). I Hope That I Don’t Fall in Love with You vive uma vida inteira em uma troca de olhares: “Well, I turn around to look at you, and you look back at me”, que ele se nega a consumar por se considerar machucado demais. O violão e o contrabaixo restringem, de maneira extremamente positiva, esse sonho desperto a uma pequena canção de bar. Na fração de segundo que desvia o olhar e já não consegue mais lembrar o rosto que acabou de ver, seu sentimento aflora, ganha voz, e ele se apaixona pela possibilidade. O mais engraçado é que, no momento em que essa paixão se consuma através do impossível, algo como um pequeno órgão surge para acompanhá-lo até o final da faixa, sugerindo uma sensação de eternidade - e morte. É maluquice extrema e humanidade pura.
Waits, então, usa a melodia de “Sing a Song of Sixpence” e a joga pra dentro da madrugada, cercada pelo piano e seus acompanhantes encontrados nos seus sonhos em Midnight Lullaby. O trompete e o violoncelo afagam a atmosfera semiacordada, e a guitarra e o piano, em conjunto, constroem, em harmonia, uma passagem segura para se atravessar de um bar a outro.
Então Martha surge, linda e arrebatadora. Se em I Hope That I Don’t Fall in Love with You Waits se apaixona pela possibilidade de alguém que acabou de olhar para ele, aqui, em um dos poucos atos de bravura dessa sua triste história de 13 músicas, ele liga para alguém que tanto amou, esperançoso e desperto, apenas para descobrir que nem mesmo a memória consegue devolvê-la como era. O piano conduz a conversa, enquanto o violoncelo, junto ao coro angelical que harmoniza o refrão - e arrepia todos os pelos do meu corpo -, parece nascer de algum lugar entre o passado e o presente, tentando dar corpo àquilo que já não pode ser tocado e falhando miseravelmente.
Em uma brusca mudança, Little Trip to Heaven (On the Wings of Your Love) oferece a salvação através de uma das mais românticas composições de Waits. Com sua banda de fantasmas completa e entregue a sensação, os pratos guiam a atmosfera cinematográfica do arranjo mais expansivo e luminoso do disco. A pequena viagem aos céus nas asas de um grande amor é pequena, mas suficiente pra, por esse breve momento, libertar a todos dessa angústia interminável - que retorna rapidamente em Grapefuit Moon: You became my inspiration, oh, but what a cost, Every time I hear that melody, something breaks inside
A única faixa, completamente instrumental do, Closing Time, é também seu momento mais comovente. Ao mesmo tempo que parece resignação, e que algo velho finalmente morreu para algo novo nascer, dominado por um corajoso trompete que parece querer anunciar uma nova vida, soa também como se a mente de Tom Waits se esvaziasse de tanta embriaguez e sofrimento. Esqueci de falar que ele gravou o disco com 22 anos. Sonhe, pequeno Tom, sonhe.