Crítica | El Mató a un Policía Motorizado - La Sintesis O’Konor (2017)

COmo uma fênix

 
 

Terceiro álbum do grupo platense se aprofunda nas trevas apenas para destacar com mais vivacidade a força da luz.


A madrugada resume um dia inteiro. Entre as personalidades criativas escuta-se com certa frequência que a madrugada é a maior aliada, desde os boêmios aos introspectivos. Nesse momento de contemplação, enquanto a ordem natural das coisas se mantém em repouso, podemos explorar a imensidão de nossos anseios e emoções sem ser vistos. É o momento perfeito para o impulso criativo: experimentação sem definição. Podemos remodelar, realocar, revisar e recriar sem a percepção das limitações. Até que somos enganados pelo nascer do sol.

La Sintesis O’Konor, o terceiro álbum da banda argentina, carrega consigo o que parece ser uma reinterpretação do que a banda vinha fazendo até aqui. Se no álbum anterior, La Dinastia Scorpio (2013), a banda define um novo norte, aqui ela busca compreender o caminho que foi percorrido e abrir a força o espaço para o novo.


Iniciando pelas canções mais pop, o álbum consegue um equilíbrio delicado entre a “música de rádio” e a crueza das emoções retratadas. El Tesoro, principal hit do disco, inicia com o riff marcado, a bateria intensa e a introdução de um novo elemento, o sintetizador, que com uma nota parece um sino de igreja marcando a meia noite. Algo entre a prece a devoção, parece que toda frase enunciada é dita ali pela primeira vez, com a melancolia e a derrota da rejeição. A segunda faixa, Ahora Imagino Cosas, impossibilitando a não-comparação com os Strokes, eleva o BPM. Como sinal da revolta, do impulso, é uma antítese a música anterior. Se a primeira é uma passiva e envergonhada, a segunda é ativa e propositiva; porém, em comum, ambas buscam uma certa destruição, seja figurada (na depressão) ou literal (na morte). Como síntese (e isso não é piada com o nome do álbum), recomeçar. Em La Noche Eterna, o tom esperançoso se entrelaça a melancolia. É necessário derrubar tudo e seguir o caminho esperado, reconstruir. Sonoramente, a balada é impulsionada pela constância da bateria que, como quem marcha, não permite a inércia.

"Hoy, voy a salir a buscar todo lo que quiero
Voy a derrumbar, mi casa y empezar de nuevo
Dame algo ésta noche, esta noche es especial
Voy a recorrer tu casa en la obscuridad
Dame algo ésta noche, esta noche es especial
Tan brillante como el oro en la obscuridad"
— La Noche Eterna

Na sequência quase, porém nunca, parando, os BPMs diminuem intensamente. A guitarra rege Alguien Que Lo Merece, madrugada a dentro, em um fraseado espiral. Dando voltas em si mesmo Sueño que pierdo el tiempo en la cama / Durmiendo, a canção é a ponte para a música mais intensa do disco. Com a distorção ligada, voltam aos tempos do álbum de estréia. A sensação de revolta se transmuta de deprimida para propulsora, movimentante, e mobilizada sem objetivo caí em '“silêncio”. A pulsão se mantém, sem capacidade de nomear, na faixa-título. La Sintesis O’Konor é completamente instrumental, um momento de sentir com o corpo, e não com a razão, a avalanche de sentimentos percorridos.

As quatro faixas finais, com exceção de Excalibur, aumentam a pressão sonora. Seguindo a metafora da madrugada, parecem ser o momento do nascer do sol. O corpo desperta e, aquecido, urge com soluções. Já está tarde demais para qualquer reflexão, é momento de seguir o caminho que pela razão já foi escolhido e pelas pernas não foi desbravado. Destruccion, que deveria ser hit, impõe com bateria sincopada o ritmo que escala até o refrão e nele explode: Y todo lo que digas me destruye, no me importa si está bien / O está mal. A faixa final, Fuego, de forma nominal seguindo a tradição dos álbuns em finalizar na temática, dá sequência ao que a as músicas anteriores trouxeram e elabora a purificação. Como quem usa das chamas para esterilização, o calor e a queima renovam as possibilidades. Sonoramente, a canção se aproxima do que virá no próximo disco.

El Mató, como uma fênix, está recomeçando seu percurso, morrendo e renascendo a cada álbum.

"Ahora soy mejor
Te juro, soy mejor
Ahora soy mejor
Te juro, soy mejor
Ahora soy mejor
Te juro, soy mejor
Ahora soy mejor
Te juro, soy mejor"
— Fuego
PC Peixoto

Narciso às avessas. Meu personagem favorito da Turma da Mônica é o Do Contra. Estudante de Letras, ciclista amadoríssimo, ouvidor de música e visualizador de filme.

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Crítica | El Mató a un Policía Motorizado - La Dinastía Scorpio (2013)